A Gênese dos Landmarks
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Resumo
O presente artigo sustenta que a noção de Landmarks
maçônicos, entendidos como um corpo fixo, enumerado e imutável de princípios,
não possui origem na antiguidade da Ordem, mas configura-se como uma construção
moderna, consolidada no século XIX. Embora o termo já estivesse presente em
tradições anteriores, tanto no âmbito jurídico-bíblico quanto na literatura
maçônica inicial, como nas Constituições de James Anderson (1723), seu uso
permanecia abstrato, sem definição sistemática ou enumeração formal.
A transformação desse conceito difuso em listas estruturadas ocorre
especialmente nos Estados Unidos, em um contexto de crescente preocupação com a
organização jurídica da Maçonaria. Entre 1856 e 1859, diferentes autores
propuseram enumerações distintas de Landmarks, destacando-se a formulação de
Albert Gallatin Mackey, que sistematizou 25 princípios apresentados como leis
imemoriais, universais e irrevogáveis. Para tanto, Mackey fundamentou-se em uma
adaptação de categorias da jurisprudência britânica, especialmente inspiradas
em William Blackstone, além de recorrer a fontes maçônicas como as Old
Charges, as Constituições de Anderson e autores como George Smith e George
Oliver.
O estudo demonstra, contudo, que tais Landmarks não derivam de uma
tradição contínua e uniforme, mas de um esforço intelectual de sistematização
doutrinária em resposta às demandas institucionais do período. Ademais,
evidencia-se a ausência de consenso universal quanto à definição e adoção
desses princípios, uma vez que nenhuma Grande Loja fora dos Estados Unidos, com
exceção do Brasil, os reconheceu formalmente como corpo normativo fixo.
Conclui-se, assim, que os Landmarks de Mackey devem ser compreendidos como
construções teóricas situadas historicamente, refletindo tentativas individuais
de normatização da Ordem, sem que lhes seja possível atribuir caráter universal
ou verdadeiramente imemorial.
Introdução
Pode-se sustentar que a chamada “gênese” dos Landmarks, enquanto
corpo enumerado e fixo, não reside na antiguidade da Ordem, mas na modernidade
institucional. Embora a ideia de limites tradicionais e princípios fundamentais
esteja presente na prática maçônica primitiva, a transformação desses elementos
em uma lista fechada, numerada e declaradamente imutável ocorre a partir da
década de 1850 com o “Boom” de iniciativas de interpretação deste termo que até
então era abstrato.
Etimologia
Traduzido do inglês como “marco de terra”, o termo Landmark
designava, originalmente, demarcações utilizadas para definir limites de
propriedade; grandes pedras, árvores e colinas figuravam entre os marcos mais
usuais (Macoy, 1973). Uma das referências mais antigas ao conceito encontra-se
na Bíblia, em Deuteronômio 19:14, onde são estabelecidas normas sociais
fundamentais entre o povo hebreu. A tradução da King James Bible apresenta o
termo da seguinte forma:
“Thou shalt not remove thy neighbour's landmark,
which they of old time have set in thine inheritance, which thou shalt inherit
in the land that the Lord thy God giveth thee to possess it.”
“Não mudes o
marco do teu próximo, que colocaram os antigos na tua herança, que
possuíres na terra, que te dá o Senhor, teu Deus, para a possuíres.”
Tradução ARC
No texto original em hebraico, o termo correspondente é גְּבוּל (gevul), que designa “limite” ou “fronteira”, não se restringindo
a elementos físicos específicos, mas abrangendo qualquer forma de demarcação
territorial. Trata-se, portanto, de um conceito jurídico e social, associado à
preservação da ordem e à garantia da propriedade.
Na literatura maçônica, a primeira referência ao termo encontra-se
na Constituição de Anderson de 1723 (parágrafo XXXIX do Regulamento Geral),
onde de forma totalmente abstrata é descrito o seguinte:
Cada Grande
Loja Anual tem poder e autoridade inerentes para fazer novas regras, ou para
alterá-las, para os reais benefícios desta antiga Fraternidade: Desde que os
antigos Landmarks sejam cuidadosamente preservados etc.
Nesse contexto, o termo é empregado de maneira abstrata, sem
definição explícita. A hipótese plausível é que a familiaridade de Anderson com
o texto bíblico (em função de sua formação como ministro presbiteriano) tenha
influenciado a adoção do termo como metáfora para os limites entre inovação e
tradição no âmbito da Ordem. Esta tradição, por sua vez, foi observada em
posterior análise por diversos irmãos, como “leis não escritas” referindo-se
geralmente a pontos e características das cerimônias ou instruções maçônicas
(Coil, 1998).
Os Primeiros
Landmarks
Nos Estados Unidos, o termo Landmarks foi recebido de forma bem
especial e frequentemente imbuído de reverência. Por volta da metade do século
XIX, juristas maçônicos neste país passaram a considerar que a Maçonaria, assim
como um Estado político, deveria possuir uma “constituição”, composta de
princípios fundamentais e indispensáveis, imunes a alterações legislativas e
aos quais todas as leis, ordenanças, éditos e resoluções maçônicas deveriam
conformar-se (Coil, 1998).
Subitamente, entre os anos de 1856 e 1859, três códigos distintos
chamados de “Antigos Landmarks” surgiram nos Estados Unidos, todos diferentes
entre si e todos apresentados como leis e dogmas imemoriais e invariáveis da
Sociedade. A saber:
- Em 1856, a Grande Loja de Minnesota adotou
uma lista com 26 Landmarks;
- No mesmo ano, Rob Morris publicou uma
listagem com 27 Landmarks;
- Entre 1858 e 1859, Albert Gallatin Mackey
apresentou sua própria enumeração com 25 Landmarks, afirmando não ter
conhecimento das anteriores.
Essas iniciativas representaram tentativas de conferir forma
concreta a um conceito até então difuso. Ao abordar a diversidade de definições
existentes, Mackey observou:
“A fim de
resolver à questão sobre o que são e o que não são os landmarks da Maçonaria,
tem havido muita diversidade de opinião entre os escritores. O Dr. Oliver diz
(Dict. Symb. Mas.) que ‘alguns os restringem aos juramentos, sinais, toques e
palavras. Outros incluem as cerimônias de iniciação, passagem e elevação;
forma, dimensões e sustentação; o solo, situação e cobertura; os ornamentos,
móveis e joias de uma Loja, ou seus símbolos característicos. Alguns pensam que
a Ordem não possui landmarks além de seus segredos peculiares’. Mas todas essas
são definições vagas e insatisfatórias, excluindo coisas que são essenciais e
admitindo outras que não o são.”
Encyclopedia of
Freemasonry, 1914
Tal insatisfação com definições vagas e inconsistentes motivou a
elaboração de um sistema mais estruturado. Em razão da maior rastreabilidade
historiográfica e da ampla difusão de sua proposta em solo Brasileiro, os
Landmarks de Mackey tornam-se objeto privilegiado de análise.
O nascimento
dos Landmarks de Mackey
Tornando evidente seu desconhecimento dos Landmarks que precederam
ao seus, Albert Gallatin Mackey menciona em sua Enciclopédia (p. 422 ed. 1914)
que até 1858, nenhum escritor maçônico havia tentado enumerar distintamente os
landmarks e conferir-lhes uma forma compreensível. Em outubro daquele ano, ele
assim o fez: publicou sua desejada enumeração distinta dos Landmarks na American
Quarterly Review of Freemasonry em um artigo chamado “Fundamentos da Lei
Maçônica”. Posteriormente, os 25 Landmarks foram incorporados no Livro Text
Book of Masonic Jurisprudence, onde houve aparente boa aceitação nos
Estados Unidos, sendo republicada por muitos escritores de direito maçônico;
por vezes, sem qualquer reconhecimento da fonte de onde derivaram suas
informações.
Nesta obra sobre Jurisprudência Maçônica, Mackey embasa sua busca
na Jurisprudência Britânica, referenciando Sir William Blackstone (1723-1780)
sob a ênfase da necessidade das leis como “regras de ação, sejam estas
racionais ou irracionais” e define a partir da mesma referência os Landmarks
como “Leis não escritas” devido aspectos de poder vinculante e a força pelo uso
longo e imemorial, e por sua acepção universal mesmo sem promulgação escrita.
Buscando concatenar a Jurisprudência Britânica ao prisma Maçônico,
Mackey em sua obra Text Book of Masonic Jurisprudence (pg.16 ed. 1872)
propõe o seguinte:
“O primeiro
requisito, portanto, para que um costume ou regra de ação constitua um
Landmark, é que ele deve ter existido desde ‘tempos imemoriais, aos quais a
memória humana não possa remontar ao contrário’. Sua antiguidade é seu elemento
essencial. Fosse possível que todas as autoridades maçônicas da atualidade se
unissem em um congresso universal e, com a mais perfeita unanimidade, adotassem
qualquer novo regulamento, embora tal regulamento fosse obrigatório para toda a
Ordem enquanto não fosse revogado, ainda assim ele não seria um landmark. Ele
teria o caráter de universalidade, é verdade, mas careceria do de antiguidade.
Outra
peculiaridade desses Landmarks da Maçonaria é que eles são irrevogáveis. Assim
como o congresso ao qual acabo de aludir não teria o poder de promulgar um
Landmark, tampouco teria a prerrogativa de abolir um. Os Landmarks da Ordem,
como as leis dos Medos e dos Persas, não podem sofrer mudanças. O que eram há
séculos, permanecem sendo, e assim devem continuar em vigor até que a própria
Maçonaria deixe de existir.”
Os fundamentos
dos Landmarks de Mackey
A partir das referências mobilizadas por Mackey, é possível
identificar, os fundamentos que sustentam sua construção teórica. Em sua obra Text
Book of Masonic Jurisprudence (pgs.16-39 ed. 1872) Mackey expõe em notas de
rodapé as seguintes referências:
1º Landmark
Modos de reconhecimento
Smith[1]
diz que, na instituição da ordem para cada um dos graus:
“Um teste
distintivo particular foi adotado, o qual, juntamente com a explicação, foi
devidamente estabelecido e comunicado à fraternidade antes de sua dispersão,
sob uma necessária e solene injunção de segredo; e eles têm sido cautelosamente
preservados e transmitidos à posteridade por irmãos fiéis, desde a sua
emigração.”
Use and Abuse
of Freemasonry
Essa proposição está contida na 7ª resolução do Congresso[2], e
está nestas palavras: "Mestres de lojas, ao conferirem o grau de Mestre
Maçom, devem investir o candidato com as palavras, sinais e toques dos Ritos
Escocês e Moderno". Se o Landmark nunca tivesse sido violado, a resolução
teria sido desnecessária. Os graus simbólicos, sendo o fundamento de toda a
maçonaria, nunca deveriam ter tido permissão para diferir em qualquer um dos
ritos.
2º Landmark
A divisão da Maçonaria Simbólica dentro de três graus
Smith assim justifica este Landmark:
“Embora não
houvesse aprendizes empregados na construção do templo, como todos os
companheiros pretendiam ser promovidos ao grau de Mestres após a sua dedicação;
e como estes receberiam uma sucessão ao admitirem aprendizes, que poderiam eles
próprios, no devido tempo, tornar-se Mestres, determinou-se que as gradações na
ciência consistiriam em três graus distintos”.
Use and Abuse of Freemasonry, p. 46. Lond., 1783
O Dr. Oliver diz que:
“A diferença
entre os sistemas antigo e moderno (isto é, entre as Lojas 'Antigas' e
'Modernas' no século XVIII) consistia unicamente na mutilação do terceiro grau”.
Veja “Some Account of the Schism” etc., que contém um relato
completo desta ruptura do Arco Real em relação ao grau de Mestre.
A Palavra Verdadeira, que é o símbolo da verdade divina, é o grande
objetivo da Maçonaria. Qualquer sistema sem ela deve ser imperfeito; e,
portanto, em todos os vários ritos (e eu quase poderia dizer que o nome deles
era “legião”) esta palavra verdadeira é buscada, mas a busca é, em cada um,
processada de uma maneira diferente, o que realmente constitui a diferença
essencial dos ritos maçônicos.
“É declarado e
pronunciado que a pura Antiga Maçonaria consiste em três graus, e não mais; a
saber: os de Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom, incluindo a Suprema Ordem do
Sagrado Arco Real.”
Artigos de União[3]
entre as Duas Grandes Lojas da Inglaterra, 1813. Art. 2º.
A lenda do terceiro grau
“Após a união
da Maçonaria especulativa e operativa, e quando o templo de Salomão foi
concluído, uma lenda de significado sublime e simbólico foi introduzida no
sistema, a qual ainda é retida e, consequentemente, conhecida por todos os
Mestres Maçons.”
Oliver, Landmarks, Vol. II. p. 169.
4º Landmark
O governo da Fraternidade
“Nenhum irmão
pode ser Vigilante até que tenha passado pela parte de Companheiro; nem Mestre,
até que tenha atuado como Vigilante; nem Grande Vigilante, até que tenha sido
Mestre de uma loja; nem Grão-Mestre, a menos que tenha sido um Companheiro
antes de sua eleição.”
Old Charges (Old Charges), IV.
O modo e o tempo de sua eleição são, em tempos modernos, prescritos
por um regulamento da Grande Loja, é verdade; mas o cargo em si existe
independentemente de qualquer regulamento desse tipo. Quando instalado no
cargo, não o é como o Grão-Mestre da Grande Loja, mas como o “Grão-Mestre dos
Maçons”. (Veja 2ª Ed. das Constituições de Anderson).
As referências mais remotas ao cargo na Maçonaria Inglesa remontam
ao tempo do Imperador Caraúsio, no terceiro século, o qual, conforme afirma
Preston:
“Concedeu aos
Maçons uma carta constitutiva e ordenou que Albano os presidisse pessoalmente
como Grão-Mestre”.
Preston,
Illustrations, p. 125. Edição de Oliver.
“O Grão-Mestre
não é uma criação dos Regulamentos Gerais, das Old Charges ou das Constituições
Escritas. Ele já existia quando todas aquelas das quais temos qualquer
conhecimento foram elaboradas.”
Comitê de
Correspondência da Grande Loja de Nova York, 1851.
5º Landmark
A prerrogativa do Grão-Mestre em presidir
Os Trinta e Nove Regulamentos Gerais[4],
adotados em 1721, reconheceram este Landmark nas seguintes palavras:
“A Grande Loja
consiste em, e é formada pelo Mestre e pelos Vigilantes de todas as Lojas
particulares regulares registradas, com o Grão-Mestre à sua frente.”
Décimo Segundo
Regulamento.
Da mesma forma, no Primeiro Regulamento Geral:
“O Grão-Mestre,
ou seu Adjunto, tem autoridade e direito não apenas de estar presente em
qualquer Loja verdadeira, mas também de presidir onde quer que esteja, com o
Mestre da Loja à sua mão esquerda.”
6º Landmark
A prerrogativa do Grão-Mestre para conferir graus em tempos irregulares
Preston diz:
“Um número
suficiente de Maçons reunidos dentro de um certo distrito, com o consentimento
do xerife ou magistrado principal do lugar, estava autorizado, nesta época
(isto é, anteriormente a 1717), a fazer Maçons e praticar os ritos da Maçonaria
sem uma carta constitutiva. O privilégio era inerente a eles como indivíduos; e
este privilégio ainda é desfrutado pelas duas antigas Lojas agora existentes,
que atuam por constituição imemorial.”
Illustrations, p. 182, nota.
7º Landmark
A prerrogativa do Grão-Mestre de conceder dispensas para a abertura e manutenção de Lojas
Se, de acordo com a nota precedente, o privilégio de se reunir e
conferir os graus era originalmente inerente a todos os Maçons, como
indivíduos, então ele também deve ter sido inerente ao Grão-Mestre, sendo,
portanto, sua prerrogativa, bem como a de todos os outros membros da Ordem.
Mas, na reorganização da ordem em 1717, os Maçons, como um corpo, renunciaram a
essa prerrogativa em favor da Grande Loja (veja Preston, como citado acima);
porém, eles não poderiam renunciar à prerrogativa do Grão-Mestre, pois esta não
lhes pertencia para ser renunciada. Consequentemente, ele ainda a exerce, e
pode reunir Maçons, seja pessoalmente ou por procuração; em tais casos, a Loja
se reúne, como outrora, sem uma carta constitutiva; e para permitir que ela o
faça, o Grão-Mestre emite sua dispensa — isto é, ele dispensa a
aplicação da lei promulgada em 1717 que exige tal carta.
8º Landmark
A prerrogativa do Grão-Mestre de fazer Maçons à vista
“Cremos ser
esta a regra, porque não pensamos que o regulamento de 24 de junho de 1717 —
que restringia a futura reunião de Maçons a Lojas mantidas sob carta constitutiva,
exceto nas quatro antigas Lojas de Londres — tenha tido a intenção de se
aplicar ao Grão-Mestre ou à Grande Loja em sessão, mas sim à Ordem em seus
demais aspectos.”
Comitê de
Correspondência da G. L. de N. Y., 1851.
Certamente que não; pois se o fizesse, supondo que legalmente
pudesse, então o Grão-Mestre seria privado do poder de conceder dispensas para
abrir Lojas, pois suas prerrogativas de fazer Maçons à vista e de abrir
Lojas fundamentam-se no mesmo princípio.
Isto é, sempre que o Grão-Mestre concedia sua dispensa a uma Loja
não constituída para dispensar o probatório necessário, e estava presente e
presidindo a concessão dos graus, ele estava, virtualmente, fazendo um Maçom à
vista.
Essas Lojas de ocasião têm sido frequentemente convocadas pelos
Grão-Mestres ingleses desde 1717, e registros frequentes deste fato podem ser
encontrados nas Constituições de Anderson. Quase todos os príncipes da
família real, ao serem feitos Maçons, foram iniciados, passados e elevados “à
vista” e em Lojas de ocasião.
9º Landmark
A necessidade de os Maçons reunirem-se em Lojas
“Uma Loja é um
lugar onde os Maçons se reúnem e trabalham; daí que essa assembleia ou
sociedade de Maçons devidamente organizada é chamada de Loja, e todo irmão deve
pertencer a uma, e estar sujeito aos seus estatutos particulares e aos
regulamentos gerais.”
Old Charges,
III.
O governo da Oficina
As Old Charges aludem à antiguidade desses oficiais na
seguinte linguagem:
“Nos tempos
antigos, nenhum Mestre ou Companheiro poderia estar ausente da Loja quando
convocado a nela comparecer, sem incorrer em severa censura, a menos que
ficasse provado ao Mestre e aos Vigilantes que a pura necessidade o impedira.”
Old Charges,
III.
O número de três para esses cargos é essencial ao simbolismo da
Ordem, porque eles se referem (como os oficiais correspondentes sempre o
fizeram nos Antigos Mistérios) ao sol em seu nascimento, em seu zênite
meridiano e em seu ocaso. Enquanto a Maçonaria preservar seu caráter simbólico,
esses oficiais devem ser mantidos e suas posições peculiares preservadas.
11º Landmark
A necessidade de que toda Loja, quando reunida deve ser devidamente
coberta
A nomeação de um Cobridor (Tiler) é tão evidentemente um Landmark,
e a necessidade de tal oficial tão aparente, pelo próprio caráter da
instituição Maçônica, que nem as Old Charges nem os Regulamentos
Gerais fazem qualquer alusão a ele, exceto pelo fato de que estes últimos
se referem às qualificações do Grande Cobridor da Grande Loja.
12º Landmark
O direito de todo Maçom ser representado
Este Landmark é reconhecido pelos Regulamentos Gerais nestas
palavras:
“A maioria de
cada Loja particular, quando reunida, terá o privilégio de dar instruções ao
seu Mestre e Vigilantes antes da assembleia do Grande Capítulo ou da Grande
Loja.”
Regulamentos
Gerais (Gen. Reg.), Art. X.
Veja um relato completo da história desta concessão em Preston. (Edição
de Oliver, pp. 182-184). O resultado da concessão é apresentado nestas
palavras:
“Estando os
assuntos assim amigavelmente ajustados, os irmãos das quatro antigas Lojas
consideraram desnecessária sua presença nas futuras comunicações da sociedade
e, portanto, como as outras Lojas, confiaram implicitamente em seu Mestre e
Vigilantes, descansando satisfeitos de que nenhuma medida de importância seria
adotada sem a sua aprovação.”
Illustrations, p. 183.
13º Landmark
O direito de todo Maçom apelar
As Old Charges reconhecem este direito de apelação nestas
palavras:
“Se qualquer
reclamação for apresentada, o irmão considerado culpado deverá submeter-se à
sentença e determinação da Loja, que são os juízes próprios e competentes de
todas essas controvérsias, a menos que você a leve por meio de apelação à
Grande Loja.”
Charge VI, 1.
O direito de visita de todo Maçom
O manuscrito em posse da Lodge of Antiquity, que contém
obrigações escritas no reinado de Jaime II, entre 1685 e 1688, reconhece este
direito de visitação nas boas-vindas que ordena que todo Maçom dê a um irmão estrangeiro:
“Décimo
terceiro: que todo Maçom receba e acolha os Companheiros estrangeiros quando
eles vierem de fora do país, e os coloque ao trabalho, se eles quiserem
trabalhar, como é o costume; isto é, se o Maçom tiver qualquer pedra de molde
em seu lugar, ele deve dar-lhe uma pedra de molde e colocá-lo ao trabalho; e se
ele não tiver nenhuma, o Maçom deverá refrescá-lo com dinheiro até a próxima
Loja.”
Tudo isso implica o direito de reivindicar, e o dever de estender,
hospitalidade a um irmão visitante.
15º Landmark
Visitante desconhecido aos irmãos presentes
Faz-se referência a este importante Landmark nas Old Charges (VI,
6), nas instruções para o “comportamento para com um irmão estranho”, onde
encontramos a seguinte linguagem:
“Você é
advertido a examiná-lo pelo método que a prudência lhe ditar, para que não seja
enganado por um pretendente ignorante, a quem você deve rejeitar com desprezo e
escárnio, e guarde-se de dar-lhe qualquer pista de conhecimento.”
16º Landmark
Nenhuma loja pode interferir nos trabalhos de outra
Assim dizem as obrigações manuscritas da Lodge of Antiquity:
“Que nenhum
Mestre ou Companheiro suplante outros em seu trabalho; isto é, se ele tiver
assumido uma obra, ou de outra forma for o mestre de qualquer trabalho, que ele
[ou seja, qualquer outro] não o desaloje, a menos que ele seja incapaz de
habilidade para levar sua obra ao fim.”
17º Landmark
Todo Maçom está sujeito às leis e regulamentos da Jurisdição
As mesmas obrigações reconhecem este Landmark nestas palavras:
“Décimo: que
todo Mestre e Companheiro deverá comparecer à assembleia, se esta estiver
dentro de cinquenta milhas de sua localização, caso tenha recebido qualquer
convocação. E se ele tiver transgredido contra a Ordem, deverá submeter-se à
sentença dos Mestres e Companheiros.”
E novamente:
“Décimo
primeiro: que todo Mestre Maçom e Companheiro que tenha transgredido contra a
Ordem deverá submeter-se à correção de outros Mestres e Companheiros para que
se chegue a um acordo; e se ele não puder chegar a um acordo, que se recorra à
lei comum (common law).”
18º Landmark
Requisitos específicos dos candidatos à iniciação
Assim, nos mesmos Manuscritos, refere-se a estas qualificações:
“Terceiro: que
aquele que for iniciado seja capaz em todos os graus; isto é, nascido livre, de
boa linhagem, honrado e não um servo; e que ele tenha seus membros íntegros
como um homem deve ter.”
E as Old Charges, coletadas em 1717, apresentam as qualificações da
seguinte forma:
“As pessoas
admitidas como membros de uma Loja devem ser homens bons e verdadeiros,
nascidos livres e de idade madura e discreta, não servos, não mulheres, não
homens imorais ou escandalosos, mas de boa reputação.”
Nos regulamentos adotados pela Assembleia Geral em 27 de dezembro
de 1663, a idade é fixada em vinte e um anos:
“Que nenhuma
pessoa seja aceita a menos que tenha vinte e um anos de idade ou mais.”
Veja Anderson,
2ª ed., p. 102.
19º Landmark
A crença na existência de Deus como o Grande Arquiteto do Universo
Seria desnecessário citar autoridades sobre este ponto. Poderíamos
dizer que a primeiríssima das Old Charges começa declarando que:
“Um Maçom é
obrigado, por sua condição, a obedecer à lei moral; e se ele compreende
retamente a arte, ele nunca será um ateu estúpido, nem um libertino
irreligioso.”
A crença na ressurreição para uma vida futura
“Todo o escopo
e o propósito do terceiro grau é ensinar a ressurreição dos mortos, assim como
o do Arco Real é inculcar as recompensas de uma vida futura. Se a doutrina da
ressurreição fosse falsa, então as cerimônias do terceiro grau seriam
simplesmente uma farsa; e, por isso, Hutchinson, que estudou profundamente o
seu simbolismo, diz que a ordem do Mestre Maçom 'testifica nossa fé concernente
à ressurreição do corpo'.”
HUTCHINSON. Spirit of Masonry, p. 101. 1775.
21º Landmark
Um Livro da Lei constituirá parte indispensável do mobiliário de cada
Loja
A presença de um Livro da Lei em uma Loja, como parte de seu
mobiliário, é estritamente um Landmark ritualístico, e as autoridades para tal
serão imediatamente evidentes para todo Maçom.
Sobre o assunto das exigências religiosas, ou melhor, doutrinárias
da Maçonaria, as Old Charges proferem a seguinte linguagem explícita:
“Embora em
tempos antigos os Maçons fossem instruídos em cada país a pertencerem à
religião daquele país ou nação, qualquer que fosse; agora, contudo, julga-se
conveniente apenas obrigá-los àquela religião na qual todos os homens
concordam, deixando suas opiniões particulares para si mesmos.”
Charge I.
22º Landmark
A igualdade de todos os Maçons.
“Os Maçons se
reúnem no Nível.” — Ritual.
“Embora todos
os Maçons sejam como irmãos sobre o mesmo nível, a Maçonaria não retira de
nenhum homem a honra que ele possuía antes; pelo contrário, ela acrescenta à
sua honra, especialmente se ele tiver merecido bem da irmandade, a qual deve
dar honra a quem a honra é devida e evitar as más maneiras.”
Old Charges,
VI, 3.
“Toda
preferência [promoção ou distinção] entre os Maçons é fundamentada apenas no
valor real e no mérito pessoal.”
Old Charges (Old Charges), IV.
O sigilo da instituição
Existem abundantes advertências nas Old Charges que reconhecem a
existência deste Landmark e a necessidade de preservá-lo. Assim, na instrução
para o comportamento de irmãos que se reúnem sem estranhos, diz-se:
“Vocês se
saudarão de maneira cortês, ... dando livremente instrução mútua conforme for
julgado conveniente, sem serem vigiados ou ouvidos;”
E na presença de estranhos:
“Vocês serão
cautelosos em suas palavras e postura, para que o estranho mais penetrante não
seja capaz de descobrir ou encontrar o que não é apropriado ser revelado.”
O Manuscrito de Leland[5],
contendo as respostas dos Maçons às perguntas do Rei Henrique VI, fornece uma
longa lista dos segredos que os Maçons 'ocultam e escondem', terminando o
catálogo de ciências secretas com a 'linguagem universal dos Maçons', isto é,
os modos peculiares de reconhecimento.
“Finalmente,
mantenha sagrados e invioláveis os mistérios da Ordem, pois estes devem
distingui-lo do resto da comunidade e marcar sua importância entre os Maçons.”
Obrigações a um Aprendiz.
A fundação de uma Ciência Especulativa sobre uma Arte Operativa
“Nós
trabalhamos em Maçonaria Especulativa, mas nossos antigos irmãos trabalhavam
tanto na operativa quanto na especulativa.”
Ritual do Grau
de Companheiro
“Como este
templo (o de Salomão) recebeu a segunda linhagem de servos do verdadeiro Deus,
e como os verdadeiros artesãos foram aqui provados em seu trabalho, solicitamos
sua atenção às circunstâncias que podem ser colhidas das Sagradas Escrituras e
dos historiadores, a respeito desta estrutura, como uma ilustração daqueles
segredos na Maçonaria que podem parecer, para aqueles de nossos irmãos que não
são instruídos na antiguidade, obscuros ou insignificantes, a menos que sejam
provados a partir dali.”
HUTCHINSON, Spirit of Masonry, p. 83. 1775.
25º Landmark
Esses Landmarks nunca poderão ser alterados
Nosso “primeiro e mais excelente Grão-Mestre” declarou, com um
significado que os Maçons compreenderão: “Não removas os marcos (Landmarks)
antigos que teus pais fixaram.” O Dr. Oliver observa:
“É bastante
claro, entretanto, que a ordem contra a remoção ou alteração dos Landmarks
foi universalmente observada em todas as eras da Ordem.”
Dictionary of Symbolical Masonry.
Conclusão
Pode-se concluir que qualquer enumeração de Landmarks não constitui
uma herança direta e contínua da antiguidade maçônica, mas antes uma construção
intelectual situada em um contexto histórico específico, marcado pela
necessidade de sistematização doutrinária e estabilização institucional da
Maçonaria, especialmente no ambiente norte-americano do século XIX.
No que tange aos Landmarks de Mackey, a análise das fontes
mobilizadas revela um esforço consciente de transposição de categorias
jurídicas sob a “batuta” de autores com vieses romancistas em relação à
historiografia da Ordem. O uso das Old Charges, por sua vez, denota uso
arbitrário, uma vez que não sustenta os 25 pontos.
Nenhuma Grande Loja fora dos Estados Unidos (exceto no Brasil)
jamais adotou quaisquer Landmarks, exceto por ocasionais observações isoladas
afirmando que determinada coisa seria um Landmark, pois há uma sujeição à
interpretação da instituição, assim como os supracitados foram interpretações
de seus autores. As definições do que seja um Landmark maçônico são tão
numerosas e variadas quanto as listas que foram publicadas e adotadas (Gibss,
2014).
Assim, os Landmarks devem ser compreendidos não como vestígios
imemoriais, mas como construções intelectuais que refletem as dinâmicas
históricas da própria Maçonaria, evidenciando a tentativa de irmãos autores de
imprimirem suas interpretações de um termo abstrato, o que de fato é legítimo
como contribuição intelectual, porém sem qualquer aspecto de universalidade ou
uso pétreo.
Autor: Samuel Benedicto
BIBLIOGRAFIA
MACOY, Robert. General History, Encyclopedia and Dictionary of
Freemasonry. New York: Masonic Publishing Company, 1870.
MACKEY, Albert G. Encyclopedia of Freemasonry. New York and London: The
Masonic History Company, 1914.
MACKEY, Albert G. A Text Book of Jurisprudence. New York: Clark &
Maynard, 1872.
COIL, Henry W. A Comprehensive View of Freemasonry. Virginia: Macoy
Publishing & Masonic Supply Co., 1973.
JAMES ANDERSON. 2011.
Disponível em: <https://noesquadro.com.br/macons-que-mudaram-maconaria-james/> Acesso em: 10 mar. 2026.
LANDMARKS, By Bro. A. Gerald Gibbs. 2010. Disponível em: <http://www.themasonictrowel.com/Articles/Manuscripts/meaning/landmarks.htm> Acesso em: 10 mar. 2026.
GEORGE SMITH. 2009. Disponível em: <https://www.myfreemasonry.com/threads/the-life-of-captain-george-smith.9945/> Acesso em: 10 mar. 2026.
[1] George
Smith foi um autor maçônico de origem inglesa que, apesar de seu nascimento na
Inglaterra, serviu militarmente à Prússia, mantendo vínculos com a nobreza
local. Durante sua permanência no país, foi iniciado na Maçonaria em uma loja
alemã, vindo posteriormente a se destacar por seus escritos no campo da
literatura maçônica e sua principal obra é referenciada como Use and Abuse
of Freemasonry (1783).
[2]
Mackey refere-se ao Congresso Maçônico Universal de Paris, ocorrido em 1855.
Este congresso reuniu representantes de várias Grandes Lojas do mundo para
tentar unificar práticas. A 7ª resolução mencionada tentava padronizar os
sinais e palavras entre os diferentes Ritos (Escocês, Moderno, etc.),
reconhecendo que a essência dos graus simbólicos deveria ser universal.
[3] O
documento que encerrou quase um século de cisma na Inglaterra entre as Grandes
Lojas dos "Antigos" e dos "Modernos", fundando a Grande
Loja Unida da Inglaterra (UGLE).
[4]
Compilados por George Payne (segundo Grão-Mestre da Inglaterra) e publicados
nas Constituições de Anderson em 1723. São as primeiras leis administrativas da
Maçonaria “Moderna”.
[5] Um
documento que alega ser uma cópia de perguntas feitas pelo Rei Henrique VI aos
Maçons. Embora a crítica histórica moderna (e até alguns contemporâneos de
Mackey) conteste sua autenticidade, ele era tratado no século XIX como uma
prova fundamental da antiguidade da Ordem.


Excelente texto meu Ir.. Vou apresentar em minha Loja, Fraternidade Acadêmica Liberdade de Pensar, Rito Moderno, GOB. Oriente de Ribeirão Preto, enfim farei a análise entre os landmarks de Findel, Mackey e Pike.
ResponderExcluirAgradeço o prestígio de sua leitura, meu Irmão!
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