MAÇOM LIVRE
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Irmão Speth, no 1º Vol. das Transações, p.
148, nos deu uma explicação sobre o significado de “Livre” (engFree)
em relação à Franco-Maçonaria ou Maçonaria Livre (engFreemasonry).
Meu objetivo é mostrar que o irmão Speth não conseguiu provar seu argumento e
que, portanto, os argumentos baseados em sua opinião estão sujeitos a revisão.
“Free”
(traduzido do inglês como livre), é evidentemente de origem saxônica e,
portanto, pode ser admissível questionar qual era o significado atribuído
antigamente aos termos correspondentes “frei” e “frey”.
Os
seguintes compostos (entre outros) começam com “frei” ou “frey” a saber: Freigraf
ou Freygraf, Freiherr, Freyschoffe, Freigericht, Freistuhl,
Freischütz etc., quase todos eles termos do “Vehmgericht” ou
tribunais indígenas e quasi secretos da Vestfália.
Gualtherus
H. Rivius, Médico e Doutor em Matemática, em seu relatório sobre as Artes
Matemáticas e Mecânicas mais importantes e necessárias da Arquitetura, publicado
em Nuremberg, em 1558, afirma no fólio IX:
“Por
isso, os antigos tinham esta arte (pintura) em tão alta honra e respeito, que
excluíram a arte do pintor de todos os outros ofícios manuais, não a chamando
de ‘Fabrilem’, mas de ‘Picturam’, e considerando-a uma arte livre (Freye Kunst)
e não um ofício manual (Keyn Handtwerck)”.
No
fólio IXXV, acerca do tema Escultura:
“Escultura
(denominação sob a qual não entendemos apenas a arte de ‘escultor’ e
‘entalhador’, mas todo o tipo de trabalho artístico de modelagem em todos os
tipos de materiais) é, de fato, uma arte excelente e, entre todos os ‘trabalhos
manuais artísticos’, a ‘mais livre’ e particularmente adequada para uma mente
‘nobre’, tendo sempre sido devidamente apreciada por todas as pessoas sensatas,
de tal forma que nunca poderia ser separada ou desconectada das outras artes
matemáticas livres.”
O
erudito tradutor e compositor desta importante obra sobre arquitetura e outras
artes matemáticas “livres” recomenda seu uso na página de rosto a todos os Artífices,
mestres de obras, pedreiros (steinmetzen), mestres construtores, mestres
de canhões e rifles, pintores, entalhadores, ourives e todos aqueles que
utilizam o compasso e o esquadro artisticamente.
Não
há dúvida alguma de que Rivius, nosso autor, faz uma distinção clara entre
“arte livre” e artesanato; na verdade, ele afirma categoricamente que a arte
“livre” não é artesanato.
Além
disso, é evidente que ele inclui os pedreiros, pois dedica sua obra a eles, ou
melhor, àqueles entre eles que utilizam “o esquadro e o compasso
artisticamente”.
Com
base no exposto, sinto-me justificado em afirmar que um maçom livre, ou
pedreiro livre (Freyer Steinmetz), não era mais um homem que trabalhava
com pedra-calcária nem tampouco alguém “livre para ser pedreiro”. Ele não era
um simples artífice manual, mas sim um “pedreiro artístico”, instruído nas
“artes matemáticas livres”. Em outras palavras, tratava-se de um homem que
compreendia a doutrina teórica e matemática de seu ofício, o que não implica
que estivesse isento de também cumprir um aprendizado prático. Um Maçom Livre
não era um mero cortador de pedras ou assentador de tijolos, mas um homem
instruído a averiguar e determinar, com exatidão e precisão, os limites e as
proporções das diversas partes.
Tal
conhecimento não poderia ser esperado de um Artífice analfabeto, que, muito
provavelmente, não sabia ler nem escrever, mas executava cada parte
“específica” conforme verificado e determinado pelo pedreiro “livre” ou
“teórico”.
Com
a sua permissão, eu gostaria de examinar mais alguns compostos que contêm o
nosso “Livre”.
John
Henry David Goebel, em sua obra “De Secretis Judiciis olim in Westphalia
(...) usitatis” (Dos Julgamentos Secretos outrora em uso na Vestfália).
Publicada em Ratisbona, em 1772; trata dos Frigraviis, Frygrafschaften,
Freystühle, Freygrafen e Freyschöpfen, entre as páginas 6
e 16. Na última página, ele cita:
“Scabini
sciti, 'die Wissende', isto é, os 'Schöffen que sabem'; e 'reliqua plebs non
sciti, die Unwissende', os que não sabem; 'quod Scabini soli arcanorum judicii
essent conscii", porque somente os Scabini (ou Schöffen) eram cientes dos
segredos do tribunal. Em linguagem simples, esses “Frei Schöffen” (juízes
livres), assim chamados por servirem ao “Tribunal Livre” (Freigericht), eram os
únicos que conheciam os ensinamentos secretos peculiares a essas cortes de
justiça. Diferiam, portanto, dos Schöffen de, por exemplo, um Gaugericht
(tribunal distrital) ou de qualquer outro tribunal público, que não possuíam
tais conhecimentos e, por conseguinte, eram apenas Schöffen, e não “Frei
Schöffen”.
O
fato de esses Scabini terem sido teoricamente instruídos no dogma secreto
desses Tribunais Livres os constituía em Schöffen Livres.
Na
página 103 há uma citação de Eneias, Cardeal de Sena (quem viria a ser Papa Pio
II), que relata que Carlos Magno escolheu “viros graves et recti amantes, quos
plectere innocentes haud verisimile fuit”. Isto é: ele escolheu homens sérios e
amantes da justiça, que não eram suscetíveis de prejudicar pessoas inocentes,
para presidir esses tribunais secretos saxões. Eram chamados de Frygrafen,
ou Condes Livres.
Quando
comparamos a descrição geral de um conde na época feudal com a descrição de um
conde livre, conforme apresentada acima, temos a diferença e a explicação da
palavra “livre”.
O
conde que presidia não era “livre para ser conde”, nem era um jovem nobre que
tivesse servido até ser libertado, isto é, nomeado cavaleiro. Ele já era, em
geral, conde por herança e posse, e era feito “livre” por seleção e nomeação,
com base em qualificações especiais, educação e aptidão. Ele ocupava uma
posição e detinha um poder muito acima do conde comum, assim como um Maçom
Livre ou Artístico se elevava acima do artífice comum.
Na
página 111, Ludewich, Imperador Romano, concede um documento nos seguintes
termos:
“Também
tornamos livre (frygen) Burcher de Crussen, que é um homem a serviço (servindo
em armas) da Catedral de Minden, e que foi tornado livre (fryget) pelo Bispo de
Minden, para que se torne um Conde Livre (und fryget is van dem Bischope van
Minden to einem Frygen graven) para presidir o Tribunal de Justiça (o Tribunal
Secreto Vehmic) em nome do Bispo e para dotá-lo (beligen) com tal função.”
Página
126. "Fryding dicitur et Heimlich Ding". Em outras palavras,
aqueles que presidiam e, de qualquer forma, assistiam a esses Tribunais
Secretos (exceto o acusador e o acusado) tinham o benefício de certos
conhecimentos e senhas secretos, que eram ocultados ao restante do mundo, os
“Unwissenden” (os que não sabem). Permita-me referir-me a mais uma palavra, Freischütz,
bem conhecida pela ópera de Weber. Ele é chamado de Freeshooter porque adquiriu
conhecimentos ou habilidades secretas, inacessíveis a todos os atiradores, e
que o tornaram superior aos seus colegas artífices.
Não
pretendo aprofundar mais este argumento, mas espero ter conseguido demonstrar
que “Livre” em compostos como Maçom significa uma pessoa com conhecimentos e
habilidades especiais em seu ofício específico, que o artífice comum não
possuía. Uma pessoa assim é “livre”, por meio de ensinamentos teóricos e
treinamento secreto excepcional, se eleva acima de seus pares e associados.
Aplicando
isso à Maçonaria, deduzo que um Maçom Livre é ou foi um pedreiro que aprendeu
as artes secretas e os mistérios ocultos de seu ofício, tanto artisticamente e
teoricamente quanto na aplicação prática dos mesmos.
Este,
havia sido iniciado nos ensinamentos teóricos e provavelmente simbólicos de sua
arte. Não é meu objetivo atual abordar o ensino simbólico, mas simplesmente
registrar minha forte convicção de que isso existiu. Minha afirmação atual não
vai além não vai além do treinamento teórico, artístico e secreto, que é retido
do artífice executor.
NOTA
SOBRE O TEXTO ACIMA:
A passagem na página 148, Vol. 1. das Transações, a qual o Irmão Schnitger se
refere, não é exatamente a minha opinião. É do Irmão Hughan e diz: “Concordo
plenamente com o irmão Speth relativamente ao significado da palavra Maçom
Livre (engFreemason) (...) que o título realmente significava livre
para ser maçom, livre em seu ofício”. Minha opinião está expressa na página
140. “Que significava ‘livre do ofício de pedreiro’, nem mais, nem menos, é
evidente se considerarmos as expressões usadas tanto nos primeiros quanto nos
períodos posteriores”. Admito que é exatamente a mesma coisa, mas o que
quero salientar é que tanto o irmão Hughan quanto o Irmão Schnitger por
inferência, estendem o meu significado para toda a Grã-Bretanha, enquanto eu
estava tratando apenas da Escócia. Para aquele país, acredito que a minha
afirmação se mantém; e sempre sustentei (e assim o fiz no artigo em questão)
que a Maçonaria Escocesa se situava em um nível muito inferior à inglesa na
Idade Média. Ela não passava de uma sombra do ofício do sul, e duvido que tenha
alguma vez possuído um ritual que se estendesse além da concessão da palavra
maçônica; ao passo que insisti muitas vezes que o Ofício Inglês trabalhava o
terceiro grau. Não tenho conhecimento de que alguma vez tenha limitado o
uso do termo “Maçom Livre” na Inglaterra apenas à “Liberdade do Ofício”, embora
evidentemente isso estivesse incluído.
Os argumentos do irmão Schnitger são todos pertinentes e não tenho
intenção de contestá-los, apenas farei uma advertência. Ele emprega as palavras
Freyer Steinmetz, que significam livre, usadas como adjetivo para
qualificar Steinmetz ou Maçom, e não como parte integrante do título, que seria
Freisteinmetz. Ele está absolutamente certo. Em sua forma, as palavras
talvez possam ser encontradas, embora eu nunca as tenha visto; mas não seriam
idênticas a Maçom Livre (Freemason), nem o Irmão Schnitger é desonesto o
suficiente para sugerir que se poderia encontrar uma tradução de Maçom Livre
(Freemason). Mas aqueles que conhecem apenas parcialmente o alemão não
perceberiam que, em nenhum dos compostos citados por nosso irmão, frei
aparece declinado, ao passo que, neste caso, ele o está. O equivalente de Maçom
Livre (Freemason) não aparece em alemão antes de 1720, quando surge Freimaurer,
e não Freisteinmetz; e Freyer Steinmetz, se encontrado, significa
“pedreiro livre”, e não Maçom Livre. Se nosso irmão estivesse se dirigindo aos
alemães, eu não teria notado esse ponto; teria sido desnecessário.
Agora
vou me dedicar a reforçar seus argumentos. Seus paralelos traçados a partir do Vehmgericht
são muito pertinentes, pois existe uma curiosa analogia entre essa instituição
extinta e o nosso craft, tanto em cerimônias quanto em métodos, cujas causas
podem, talvez, ser atribuídas às tendências raciais e costumes de nossos
ancestrais comuns.
Junto
à sua citação de Rivius, desejo colocar um parágrafo do manuscrito de Matthew
Cooke (Add. MS. 23, 198. Museu Britânico, século XV), linha 82. “Há sete
ciências liberais, isto é, sete ciências ou ofícios que são livres em si mesmos".
Agora, embora este seja, creio, o único documento maçônico que menciona as
ciências livres, o contexto mostra que se trata apenas de uma definição hoje em
desuso das artes liberais, um termo bem conhecido. Uma dessas ciências
livres, na verdade a principal delas, era a geometria ou a alvenaria, e o
artífice na ciência livre da geometria ou da alvenaria livre pode muito bem ter
recebido o nome de Maçom Livre para distingui-lo do pedreiro, do alvenário, do
lapidador ou do construtor de muros sem instrução. A inferência é, no mínimo,
admissível como hipótese de trabalho. Seu significado original pode ter ficado
obscuro e confundido com a liberdade conferida em todos os outros ofícios.
No
que diz respeito ao tribunal livre do Vehmgericht, não devemos perder de
vista o fato de que se tratava de um tribunal sui generis, responsável
apenas perante o imperador e não incluído no sistema judicial estabelecido por
lei. Nenhum juiz ou tribunal podia questionar suas decisões, não havia recurso
contra elas e, assim, podem ter surgido seus nomes de livres e a
partícula livre anexada a todos os seus oficiais. Esta é apenas uma sugestão per
contra, na qual não deposito grande confiança, pois prefiro, no geral, a
explicação do irmão Schnitger. — G. W. Speth.
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A
Loja foi encerrada. Os Irmãos se reuniram para um momento de confraternização (engrefreshment);
durante o qual o Irmão Robertson apresentou um relato interessante sobre o
funcionamento de sua Associação na América e no Canadá para a identificação e
repressão de [1]mendigo
maçônico.
[1] Nota do tradutor: (engMasonic tramp) Expressão usada no século XIX para designar falsos maçons ou indivíduos que, alegando pertencer à Ordem, buscavam benefícios materiais ou hospitalidade das Lojas.
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