MAÇOM LIVRE

 

Extrato da ARS Quatuor Coronatorum Vol. 2 de 1889
Pesquisa elaborada pelo irmão Ferdnand Fritz Schnitger
lida na Loja Quatuor Coronati nº 2076 em Londres 
Traduzido por Samuel Benedicto

O

 

 Irmão Speth, no 1º Vol. das Transações, p. 148, nos deu uma explicação sobre o significado de “Livre” (engFree) em relação à Franco-Maçonaria ou Maçonaria Livre (engFreemasonry). Meu objetivo é mostrar que o irmão Speth não conseguiu provar seu argumento e que, portanto, os argumentos baseados em sua opinião estão sujeitos a revisão.

“Free” (traduzido do inglês como livre), é evidentemente de origem saxônica e, portanto, pode ser admissível questionar qual era o significado atribuído antigamente aos termos correspondentes “frei” e “frey”.

Os seguintes compostos (entre outros) começam com “frei” ou “frey” a saber: Freigraf ou Freygraf, Freiherr, Freyschoffe, Freigericht, Freistuhl, Freischütz etc., quase todos eles termos do “Vehmgericht” ou tribunais indígenas e quasi secretos da Vestfália.

Gualtherus H. Rivius, Médico e Doutor em Matemática, em seu relatório sobre as Artes Matemáticas e Mecânicas mais importantes e necessárias da Arquitetura, publicado em Nuremberg, em 1558, afirma no fólio IX:

Por isso, os antigos tinham esta arte (pintura) em tão alta honra e respeito, que excluíram a arte do pintor de todos os outros ofícios manuais, não a chamando de ‘Fabrilem’, mas de ‘Picturam’, e considerando-a uma arte livre (Freye Kunst) e não um ofício manual (Keyn Handtwerck)”.

No fólio IXXV, acerca do tema Escultura:

Escultura (denominação sob a qual não entendemos apenas a arte de ‘escultor’ e ‘entalhador’, mas todo o tipo de trabalho artístico de modelagem em todos os tipos de materiais) é, de fato, uma arte excelente e, entre todos os ‘trabalhos manuais artísticos’, a ‘mais livre’ e particularmente adequada para uma mente ‘nobre’, tendo sempre sido devidamente apreciada por todas as pessoas sensatas, de tal forma que nunca poderia ser separada ou desconectada das outras artes matemáticas livres.

O erudito tradutor e compositor desta importante obra sobre arquitetura e outras artes matemáticas “livres” recomenda seu uso na página de rosto a todos os Artífices, mestres de obras, pedreiros (steinmetzen), mestres construtores, mestres de canhões e rifles, pintores, entalhadores, ourives e todos aqueles que utilizam o compasso e o esquadro artisticamente.

Não há dúvida alguma de que Rivius, nosso autor, faz uma distinção clara entre “arte livre” e artesanato; na verdade, ele afirma categoricamente que a arte “livre” não é artesanato.

Além disso, é evidente que ele inclui os pedreiros, pois dedica sua obra a eles, ou melhor, àqueles entre eles que utilizam “o esquadro e o compasso artisticamente”.

Com base no exposto, sinto-me justificado em afirmar que um maçom livre, ou pedreiro livre (Freyer Steinmetz), não era mais um homem que trabalhava com pedra-calcária nem tampouco alguém “livre para ser pedreiro”. Ele não era um simples artífice manual, mas sim um “pedreiro artístico”, instruído nas “artes matemáticas livres”. Em outras palavras, tratava-se de um homem que compreendia a doutrina teórica e matemática de seu ofício, o que não implica que estivesse isento de também cumprir um aprendizado prático. Um Maçom Livre não era um mero cortador de pedras ou assentador de tijolos, mas um homem instruído a averiguar e determinar, com exatidão e precisão, os limites e as proporções das diversas partes.

Tal conhecimento não poderia ser esperado de um Artífice analfabeto, que, muito provavelmente, não sabia ler nem escrever, mas executava cada parte “específica” conforme verificado e determinado pelo pedreiro “livre” ou “teórico”.

Com a sua permissão, eu gostaria de examinar mais alguns compostos que contêm o nosso “Livre”.

John Henry David Goebel, em sua obra “De Secretis Judiciis olim in Westphalia (...) usitatis” (Dos Julgamentos Secretos outrora em uso na Vestfália). Publicada em Ratisbona, em 1772; trata dos Frigraviis, Frygrafschaften, Freystühle, Freygrafen e Freyschöpfen, entre as páginas 6 e 16. Na última página, ele cita:

Scabini sciti, 'die Wissende', isto é, os 'Schöffen que sabem'; e 'reliqua plebs non sciti, die Unwissende', os que não sabem; 'quod Scabini soli arcanorum judicii essent conscii", porque somente os Scabini (ou Schöffen) eram cientes dos segredos do tribunal. Em linguagem simples, esses “Frei Schöffen” (juízes livres), assim chamados por servirem ao “Tribunal Livre” (Freigericht), eram os únicos que conheciam os ensinamentos secretos peculiares a essas cortes de justiça. Diferiam, portanto, dos Schöffen de, por exemplo, um Gaugericht (tribunal distrital) ou de qualquer outro tribunal público, que não possuíam tais conhecimentos e, por conseguinte, eram apenas Schöffen, e não “Frei Schöffen”.

O fato de esses Scabini terem sido teoricamente instruídos no dogma secreto desses Tribunais Livres os constituía em Schöffen Livres.

Na página 103 há uma citação de Eneias, Cardeal de Sena (quem viria a ser Papa Pio II), que relata que Carlos Magno escolheu “viros graves et recti amantes, quos plectere innocentes haud verisimile fuit”. Isto é: ele escolheu homens sérios e amantes da justiça, que não eram suscetíveis de prejudicar pessoas inocentes, para presidir esses tribunais secretos saxões. Eram chamados de Frygrafen, ou Condes Livres.

Quando comparamos a descrição geral de um conde na época feudal com a descrição de um conde livre, conforme apresentada acima, temos a diferença e a explicação da palavra “livre”.

O conde que presidia não era “livre para ser conde”, nem era um jovem nobre que tivesse servido até ser libertado, isto é, nomeado cavaleiro. Ele já era, em geral, conde por herança e posse, e era feito “livre” por seleção e nomeação, com base em qualificações especiais, educação e aptidão. Ele ocupava uma posição e detinha um poder muito acima do conde comum, assim como um Maçom Livre ou Artístico se elevava acima do artífice comum.

Na página 111, Ludewich, Imperador Romano, concede um documento nos seguintes termos:

Também tornamos livre (frygen) Burcher de Crussen, que é um homem a serviço (servindo em armas) da Catedral de Minden, e que foi tornado livre (fryget) pelo Bispo de Minden, para que se torne um Conde Livre (und fryget is van dem Bischope van Minden to einem Frygen graven) para presidir o Tribunal de Justiça (o Tribunal Secreto Vehmic) em nome do Bispo e para dotá-lo (beligen) com tal função.”

Página 126. "Fryding dicitur et Heimlich Ding". Em outras palavras, aqueles que presidiam e, de qualquer forma, assistiam a esses Tribunais Secretos (exceto o acusador e o acusado) tinham o benefício de certos conhecimentos e senhas secretos, que eram ocultados ao restante do mundo, os “Unwissenden” (os que não sabem). Permita-me referir-me a mais uma palavra, Freischütz, bem conhecida pela ópera de Weber. Ele é chamado de Freeshooter porque adquiriu conhecimentos ou habilidades secretas, inacessíveis a todos os atiradores, e que o tornaram superior aos seus colegas artífices.

Não pretendo aprofundar mais este argumento, mas espero ter conseguido demonstrar que “Livre” em compostos como Maçom significa uma pessoa com conhecimentos e habilidades especiais em seu ofício específico, que o artífice comum não possuía. Uma pessoa assim é “livre”, por meio de ensinamentos teóricos e treinamento secreto excepcional, se eleva acima de seus pares e associados.

Aplicando isso à Maçonaria, deduzo que um Maçom Livre é ou foi um pedreiro que aprendeu as artes secretas e os mistérios ocultos de seu ofício, tanto artisticamente e teoricamente quanto na aplicação prática dos mesmos.

Este, havia sido iniciado nos ensinamentos teóricos e provavelmente simbólicos de sua arte. Não é meu objetivo atual abordar o ensino simbólico, mas simplesmente registrar minha forte convicção de que isso existiu. Minha afirmação atual não vai além não vai além do treinamento teórico, artístico e secreto, que é retido do artífice executor.

NOTA SOBRE O TEXTO ACIMA: A passagem na página 148, Vol. 1. das Transações, a qual o Irmão Schnitger se refere, não é exatamente a minha opinião. É do Irmão Hughan e diz: “Concordo plenamente com o irmão Speth relativamente ao significado da palavra Maçom Livre (engFreemason) (...) que o título realmente significava livre para ser maçom, livre em seu ofício”. Minha opinião está expressa na página 140. “Que significava ‘livre do ofício de pedreiro’, nem mais, nem menos, é evidente se considerarmos as expressões usadas tanto nos primeiros quanto nos períodos posteriores”. Admito que é exatamente a mesma coisa, mas o que quero salientar é que tanto o irmão Hughan quanto o Irmão Schnitger por inferência, estendem o meu significado para toda a Grã-Bretanha, enquanto eu estava tratando apenas da Escócia. Para aquele país, acredito que a minha afirmação se mantém; e sempre sustentei (e assim o fiz no artigo em questão) que a Maçonaria Escocesa se situava em um nível muito inferior à inglesa na Idade Média. Ela não passava de uma sombra do ofício do sul, e duvido que tenha alguma vez possuído um ritual que se estendesse além da concessão da palavra maçônica; ao passo que insisti muitas vezes que o Ofício Inglês trabalhava o terceiro grau. Não tenho conhecimento de que alguma vez tenha limitado o uso do termo “Maçom Livre” na Inglaterra apenas à “Liberdade do Ofício”, embora evidentemente isso estivesse incluído.

Os argumentos do irmão Schnitger são todos pertinentes e não tenho intenção de contestá-los, apenas farei uma advertência. Ele emprega as palavras Freyer Steinmetz, que significam livre, usadas como adjetivo para qualificar Steinmetz ou Maçom, e não como parte integrante do título, que seria Freisteinmetz. Ele está absolutamente certo. Em sua forma, as palavras talvez possam ser encontradas, embora eu nunca as tenha visto; mas não seriam idênticas a Maçom Livre (Freemason), nem o Irmão Schnitger é desonesto o suficiente para sugerir que se poderia encontrar uma tradução de Maçom Livre (Freemason). Mas aqueles que conhecem apenas parcialmente o alemão não perceberiam que, em nenhum dos compostos citados por nosso irmão, frei aparece declinado, ao passo que, neste caso, ele o está. O equivalente de Maçom Livre (Freemason) não aparece em alemão antes de 1720, quando surge Freimaurer, e não Freisteinmetz; e Freyer Steinmetz, se encontrado, significa “pedreiro livre”, e não Maçom Livre. Se nosso irmão estivesse se dirigindo aos alemães, eu não teria notado esse ponto; teria sido desnecessário.

Agora vou me dedicar a reforçar seus argumentos. Seus paralelos traçados a partir do Vehmgericht são muito pertinentes, pois existe uma curiosa analogia entre essa instituição extinta e o nosso craft, tanto em cerimônias quanto em métodos, cujas causas podem, talvez, ser atribuídas às tendências raciais e costumes de nossos ancestrais comuns.

Junto à sua citação de Rivius, desejo colocar um parágrafo do manuscrito de Matthew Cooke (Add. MS. 23, 198. Museu Britânico, século XV), linha 82. “Há sete ciências liberais, isto é, sete ciências ou ofícios que são livres em si mesmos". Agora, embora este seja, creio, o único documento maçônico que menciona as ciências livres, o contexto mostra que se trata apenas de uma definição hoje em desuso das artes liberais, um termo bem conhecido. Uma dessas ciências livres, na verdade a principal delas, era a geometria ou a alvenaria, e o artífice na ciência livre da geometria ou da alvenaria livre pode muito bem ter recebido o nome de Maçom Livre para distingui-lo do pedreiro, do alvenário, do lapidador ou do construtor de muros sem instrução. A inferência é, no mínimo, admissível como hipótese de trabalho. Seu significado original pode ter ficado obscuro e confundido com a liberdade conferida em todos os outros ofícios.

No que diz respeito ao tribunal livre do Vehmgericht, não devemos perder de vista o fato de que se tratava de um tribunal sui generis, responsável apenas perante o imperador e não incluído no sistema judicial estabelecido por lei. Nenhum juiz ou tribunal podia questionar suas decisões, não havia recurso contra elas e, assim, podem ter surgido seus nomes de livres e a partícula livre anexada a todos os seus oficiais. Esta é apenas uma sugestão per contra, na qual não deposito grande confiança, pois prefiro, no geral, a explicação do irmão Schnitger. — G. W. Speth.

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A Loja foi encerrada. Os Irmãos se reuniram para um momento de confraternização (engrefreshment); durante o qual o Irmão Robertson apresentou um relato interessante sobre o funcionamento de sua Associação na América e no Canadá para a identificação e repressão de [1]mendigo maçônico.



[1] Nota do tradutor: (engMasonic tramp) Expressão usada no século XIX para designar falsos maçons ou indivíduos que, alegando pertencer à Ordem, buscavam benefícios materiais ou hospitalidade das Lojas.


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