A ANTIGUIDADE DO SIMBOLISMO MAÇÔNICO
Extrato da ARS Quatuor Coronatorum Vol. 3 de 1890
Pesquisa elaborada pelo irmão Robert Freke Gouldlida na Loja Quatuor Coronati nº 2076 em LondresTraduzido por Samuel Benedicto
|
T |
endo o Secretário me convidado a ler o trabalho que há muito consta em meu nome “Sobre os Graus da Antiga e Pura Maçonaria”, percebo que, para me fazer compreender de forma geral, será desejável apresentar-lhes, em primeiro lugar, o que me atrevo a chamar de uma tese preliminar, a qual será desenvolvida a seguir. Contudo, nesta exposição, meu objetivo é duplo. Desejo lançar uma base sólida para uma investigação futura sobre os primeiros Rituais e Cerimoniais que vigoravam sob a Grande Loja da Inglaterra; e há um motivo ainda mais forte para o método de abordagem que julguei aconselhável adotar.
Os
discursos de posse dos dois irmãos que me sucederam na cadeira desta Loja
parecem-me refletir com bastante precisão as opiniões de uma parcela de nossos
membros de quem muito se espera num futuro próximo. Estas opiniões são as de
que o domínio da Antiga Maçonaria, em distinção ao da Maçonaria Moderna, tem
sido estranhamente negligenciado e que, se realmente desejamos atrair a
simpatia e o interesse de estudiosos e homens de inteligência para os trabalhos
especiais da Loja, devemos fazer ao menos uma tentativa resoluta de erguer
parcialmente o véu pelo qual a história mais remota da nossa Arte ou Ciência
está obscurecida.
É
quase desnecessário mencionar aos irmãos a quem agora me dirijo que os
adjetivos “Antiga” e “Moderna”, conforme aplicados aqui à Maçonaria, são usados
em sua acepção comum, isto é, pelos membros de nossa própria Loja; ou, para ser
mais preciso, que pela expressão “Antiga Maçonaria” deve-se entender a história
do Ofício (Craft) antes, e por “Maçonaria Moderna”, a história após a
era das Grandes Lojas. A linha de demarcação entre elas é, portanto, traçada no
ano de 1717.
Acima
dessa linha, e recuando até o século XIV, encontram-se nossas tradições
escritas; e se nossas tradições Simbólicas têm o direito de figurar ao seu lado,
discutirei de modo geral; e se algum lugar acima dessa linha pode ser atribuído
a elas, discutirei especialmente no corpo do meu trabalho. Com isso, quero
dizer que, embora apresente a vocês algumas especulações a respeito do passado
remoto da nossa Sociedade, que não são inconsistentes com os vestígios de
evidências que chegaram até nós, estas são subsidiárias ao meu objetivo
principal, que é convencer suas mentes de que, para além de qualquer dúvida
razoável, os elementos essenciais dos Três Graus do Ofício devem ter existido
antes da formação da primeira Grande Loja (a da Inglaterra) em 1717. Mais do
que isso não buscarei estabelecer, embora espere que, ao final da minha exposição,
a inclinação do julgamento de vocês seja na mesma direção do meu, qual seja: a
de que o saldo das probabilidades favorece a atribuição de uma origem tão
antiga às nossas tradições simbólicas quanto às nossas tradições escritas.
Mas
se, ao final da discussão que se seguirá a este trabalho, demonstrar-se haver
algo próximo de um consenso de opinião de que o cerimonial da Maçonaria
antecede a era das Grandes Lojas, um objetivo de suma importância terá sido
alcançado.
Estudiosos
e antiquários demonstram apenas um interesse tíbio (não há razão para disfarçar)
pela história da Maçonaria Moderna. Eles não acreditam que o sistema da
Maçonaria, tal como compreendido pelos fundadores da primeira Grande Loja, seja
capaz de uma expansão indefinida. Graus, no julgamento deles, não podem ser
multiplicados ad infinitum. Porém, a história e a origem da Antiga Maçonaria
são encaradas por eles de uma maneira completamente diferente. Estas, eles
estão não apenas dispostos, mas ansiosos para estudar e investigar; no entanto,
uma dúvida incômoda se impõe, a qual refreia, se não dissipa totalmente, o
ardor de suas pesquisas.
Juntamente
com as antigas Constituições em Manuscrito (Old MS. Constitutions), que
são de indubitável antiguidade, o ensino simbólico em nossas Lojas (embora
possua um parentesco de origem menos assegurado), exerce um fascínio peculiar
sobre todos os genuínos devotos da arqueologia.
Aqui,
contudo, a referida dúvida se insinua, e o estudioso ou antiquário que tem o
anseio de rastrear a antiguidade do nosso simbolismo é freado por reflexões
semelhantes às que ocorreram a Gibbon, que retive uma hipótese que havia
formulado a respeito do verdadeiro segredo dos Antigos Mistérios “por receio de
descobrir o que nunca existiu”; e ao mais velho Disraeli, que, de modo muito
semelhante, justificou suas especulações imperfeitas a respeito dos nebulosos e
meio míticos Rosacruzes. Mas se o Simbolismo da Maçonaria, ou uma parte
material dele, puder ser provado com razoável certeza como sendo anterior ao
ano de 1717, a dúvida sobre a qual me estendi desaparecerá e, com ela, podemos
nos aventurar a esperar que termine a atual indisposição por parte de
investigadores verdadeiramente competentes em estender suas pesquisas ao único
campo de investigação (o domínio da Antiga Maçonaria) que oferece qualquer
perspectiva de recompensar o estudante paciente de nossas antiguidades, pela
revelação parcial da origem e pela recuperação de ao menos uma parcela do saber
perdido da fraternidade.
Antes,
porém, de prosseguir com meu argumento principal, permitam-me introduzir alguns
dados históricos que, se mantidos em mente, darão uma melhor compreensão do
assunto muito complicado de que tenho de tratar neste trabalho.
É
bem sabido que a primeira Grande Loja, a da Inglaterra, foi fundada por quatro
Lojas de Londres em 1717; também é costumeiro entre os estudantes do Ofício
falar da Maçonaria existente antes dessa data como Antiga, e da Maçonaria que
se seguiu depois como Moderna.
A
Grande Loja da Inglaterra seguiu o curso normal de seu caminho, sem que
ocorressem grandes variações, até o ano de 1721, que é a próxima data que
pedirei para guardarem na memória. Neste ano, duas coisas importantes
aconteceram. Em primeiro lugar, um grande nobre, o Duque de Montagu, foi eleito
Grão-Mestre, e a Sociedade elevou-se, num único salto, à notoriedade e à estima
pública. Em segundo lugar, o Sr. James Anderson, graduado pelo Marischal
College, em Aberdeen, e que era então um Ministro Presbiteriano em Londres,
foi selecionado pelo Grão-Mestre e pela Grande Loja como a pessoa mais
competente para ajustar, por assim dizer, a Maçonaria dos tempos Antigos sobre
uma base Moderna.
O
trecho a seguir é um extrato das atas da Grande Loja de 29 de setembro de 1721:
“Sua Graça Reverendíssima e a Loja, encontrando falhas em todas as cópias das
Antigas Constituições Góticas, ordenaram ao Irmão James Anderson, M.A., que as
compilasse num método novo e melhor.” As Constituições referidas eram certos
documentos antigos, geralmente em formato de rolo ou pergaminho, contendo a
Lenda do Ofício e um Código de Antigos Regulamentos, os quais era costume, nos
antigos tempos, ler para os Maçons operativos quando de sua primeira admissão
na Loja.
Com
o auxílio desses Manuscritos de Constituições, Anderson compilou o primeiro “Livro
das Constituições”, publicado em 1723. Esta obra continha uma série de “Regulamentos”,
cujo número XIII dizia o seguinte: “Aprendizes devem ser admitidos Mestres e
Companheiros (Fellow Craft) apenas aqui [i. e., na Grande Loja], a menos
que por dispensa.”
Esse
uso, contudo, foi novamente alterado pela Grande Loja em 27 de novembro de
1725, quando se ordenou: “Que o Mestre de Cada Loja, com o consentimento de
seus Vigilantes e da Maioria dos Irmãos, sendo Mestres, possa fazer Mestres a
seu critério.”[1]
Pelo
exposto, parecerá que apenas dois graus (ou cerimônias distintas) eram
reconhecidos pela Grande Loja da Inglaterra em 1723: Aprendiz, e Companheiro ou
Mestre, sendo estes dois últimos termos permutáveis; e que, em 1725, a
restrição foi removida e que "Mestres" poderiam ser feitos por Lojas
particulares a seu critério.
O
período abrangido por algumas das datas que lhes dei, a saber, de 1717 a 1723,[2] foi denominado Época de
Transição, porque, na opinião de muitas autoridades proeminentes, o sistema de
Maçonaria que hoje possuímos (ou, em outras palavras, os três graus da
Maçonaria pura e Antiga, como estamos acostumados a chamá-los) foi então fabricado
ou elaborado.
Contra
essa visão, no entanto, encontramos alinhada a convicção de um outro grupo de
autoridades, que são firmes crentes nos graus maçônicos e descreditam a noção
de que quaisquer alterações tenham sido feitas pela Grande Loja da Inglaterra
nos segredos da Maçonaria, exceto no que se pode denominar não essenciais, ou,
para falar com mais precisão, no método adotado para transmiti-los.
Assim,
existem duas teorias ou escolas de pensamento a respeito dos graus, ou, para
usar uma expressão que prefiro, do Simbolismo da Maçonaria, um termo mais amplo
e que abrangerá tudo o que foi feito ou praticado nas Lojas num período
posterior à chamada Época de Transição (1717-23) e para o qual (alega-se de um
lado) nenhum equivalente se encontra nos atos e práticas das Lojas existentes
antes de 1717.
Cada
uma dessas visões ou teorias tem seus defensores e, para qualquer lado que o
argumento pareça momentaneamente pender, não podemos ser cautelosos o
suficiente para recordar, que existem evidências em contrário.
O
número de autoridades, de fato, pelas quais qualquer uma dessas duas crenças é
sustentada, é tão equilibrado que não há meio-termo entre ler o testemunho de
um lado e desprezar o outro tão profundamente a ponto de jamais olhar para ele,
ou fazer como proponho a vocês no presente caso: dar a cada lado uma escuta
paciente. Esta noite, de fato, só posso apresentar-lhes um ramo do caso, a
saber, os argumentos que julgo poderem ser aduzidos em favor da antiguidade dos
graus ou, para usar a expressão mais ampla já adotada, do Simbolismo Maçônico.
Mas eles irão longe, confio, no sentido de cobrir todo o terreno; e, se não o
fizerem, na resposta geral a que terei direito ao final da discussão, farei o
meu melhor para combater lealmente quaisquer contra-argumentos que venham a ser
avançados em apoio ao outro lado da questão.
Por
esse método de abordagem, poderei apresentar-lhes (não tanto as minhas
conclusões pessoais, mas aquilo que servirá como base definitiva para as suas
próprias. Há um antigo ditado, Quot homines, tot sententiae, “tantos
homens, tantas opiniões”) e se no lugar de "homens" vocês lerem
"palestrantes", é evidente que, embora cada pessoa que leia um
trabalho diante de vocês possa dar uma opinião diferente se convidada a
expressar seu julgamento individual ou idiossincrasias sobre uma questão em
disputa, por outro lado vocês teriam sempre a certeza de evocar alguma
informação útil, calculada para ajudá-los a chegar a uma conclusão
independente, se perguntassem o que poderia ser dito tanto de um lado quanto do
outro.
Sobre
o papel importante desempenhado pelo Rev. James Anderson na moldagem da Antiga
Maçonaria, 1721-23, sob o que se afirma terem sido “novas diretrizes”, terei
mais a dizer quando chegar ao corpo da exposição, mas peço que notem com
atenção o fato de que, quando, em 1721, planejou-se consolidar as
"Constituições da Antiga Maçonaria e Moderna", a tarefa de fazê-lo
foi confiada a um escocês, que, como há bons motivos para crer, fora recebido
na Sociedade enquanto residente em Aberdeen.
Pode
ser conveniente agora formular em palavras a questão precisa que constituirá
minha tese principal esta noite. É esta:
O
Simbolismo da Maçonaria é uma herança derivada dos antigos Maçons que
floresceram antes da era das Grandes Lojas; ou foi tomado de empréstimo dos
Rosa-Cruzes ou de outros, após 1717?
Há
também uma tese secundária (ou série de especulações) à qual já me referi, a
saber, a de que o Simbolismo da Maçonaria é, na verdade, muito antigo, muito
mais antigo do que o século XVII, mas admito francamente ter sido levado a essa
suposição por uma cadeia de evidências conjecturais, que apenas fatos podem
consubstanciar.
Para
fins de conveniência, contudo, e a fim de ilustrar mais claramente a linha de
raciocínio que perseguirei, permitam-me também formular em palavras a questão
secundária ou paralela que desejo suscitar para a consideração de vocês:
Há
fundamento para supor que o Simbolismo de nossa Maçonaria atual existia em
tempos medievais, e que ele se deteriorou pari passu (a passo igual) com
a Maçonaria operativa daquele período, chegando até nós, desprovido de muito de
seu real significado, como um legado ou herança dos Maçons operativos daqueles
velhos tempos?
Em
segundo lugar, e antes que eu passe a expor o meu caso, permitam-me (para que
possam compreendê-lo melhor quando for devidamente apresentado) fazer uso de
uma comparação.
Diferente
da de outras nações, a civilização do Egito apresenta uma deterioração contínua
das eras mais remotas às mais recentes. Quanto mais recuamos no tempo, mais
consumada é a arte, mais completo é o domínio dos processos e recursos
mecânicos. Em outras palavras, a civilização do Egito deve ter culminado antes
do próprio alvorecer de sua história registrada. Se o Egito não for totalmente
excepcional e anormal, o uso dos métodos mecânicos empregados pelos
construtores das Pirâmides aponta para uma civilização antecedente cujo alcance
no tempo torna-se literalmente incalculável, ao mesmo tempo em que parece se
tornar cada vez mais inexplicável quanto mais seu verdadeiro caráter é
investigado e trazido à luz.
Da
mesma forma, concebo que há fundamento para uma conjectura razoável sobre se o
Simbolismo da Maçonaria (ao qual, em uma parcela considerável, mesmo nos dias
de hoje, nenhum significado inteiramente satisfatório para uma mente
inteligente pode ser atribuído) não deve "ter culminado antes do próprio
alvorecer de sua história registrada". E que ele passou por um processo
gradual de deterioração, que foi interrompido, mas apenas no ponto em que agora
o temos, ao passar para o controle da Grande Loja da Inglaterra em 1717.
Contra
essa visão, pode-se, é claro, argumentar (e, como muitos pensarão, talvez com
igual plausibilidade) que, em vez de um declínio, houve um avanço, um
desenvolvimento progressivo do Simbolismo Maçônico, e que, com a solitária
exceção de uma forma rústica de iniciação ou recepção, não herdamos nada
externo à prática operativa de nossos antepassados, os Maçons operativos.
Mas,
como diz o velho provérbio, "Se você correr atrás de duas lebres, não
pegará nenhuma". Ao defender a afirmativa da proposição de que o
Simbolismo da Maçonaria chegou até nós com um sabor muito respeitável de
antiguidade, não posso me incumbir, ao mesmo tempo, do ataque e da defesa.
Neste
estágio, e antes de prosseguir com minhas observações, pode ser conveniente se
eu reencaminhar as duas proposições das quais manterei a afirmativa.
Tomando
a mais ampla e abrangente em primeiro lugar: “É a de que o Simbolismo da
Maçonaria, ou ao menos uma parte material dele, é de extrema antiguidade e que,
em substância, o sistema de Maçonaria que hoje possuímos (incluindo os três
graus do Ofício) chegou até nós, em todos os seus essenciais, de tempos não
apenas remotos em relação ao nosso, mas também em relação aos dos fundadores da
primeira das Grandes Lojas.”
O
exposto abrange a tese geral que perpassará este discurso e, portanto, espero
ser desculpado por trazê-la mais uma vez ao conhecimento de vocês, embora peça
a atenção mais particular de vocês para a mais restrita das duas proposições, a
saber: a de que o Simbolismo da Maçonaria é mais antigo do que o ano de 1717.
Esta
é a minha tese especial, a qual me esforçarei para sustentar vigorosamente; e,
caso nossos esforços unidos resultem na resolução do que até agora tem sido um
ponto debatido entre os estudiosos maçônicos, um avanço muito nítido terá sido
feito no caminho de investigação que é o objetivo e a missão desta Loja dar
seguimento.
Ao
lidar com o problema complicado que me propus a tratar nesta exposição, sinto
que terei necessidade da indulgência de vocês enquanto tento colocar diante de
vocês, de forma clara e conectada, os retalhos dispersos de evidências nos
quais podemos ver, como num espelho embaçado, um pálido reflexo de parte do
passado histórico da Maçonaria. Mas, por outro lado, estou não menos convencido
de que o palestrante que é incapaz de tornar o abstruso moderadamente simples
não é dotado de um intelecto muito claro, ou lhe falta aquela cota mínima de
habilidade literária que os membros de uma Loja como a nossa têm pelo menos o
direito de esperar de qualquer um de seus membros que tome para si a função de
tentar instruí-los ou entretenê-los. Portanto, se eu falhar em colocar meus
pontos diante de vocês com toda a clareza que seria desejável, a culpa será
minha, e nem registrarei uma apologia antecipada, pois, como o Duque bem diz ao
Tecelão em Sonho de uma Noite de Verão, “Nunca se desculpe; se a sua
peça for ruim, guarde ao menos as desculpas para você mesmo.”
Diagrama
para
ilustrar a exposição
|
SÉCULO XII |
||
|
Marcas de
ferramentas de maçons na Europa revelam uma origem ocidental: Transição do
estilo normando para o estilo gótico ou Pontiagudo de arquitetura, e possível
introdução de ensino simbólico ou especulativo entre os pedreiros da
Grã-Bretanha que praticavam esse estilo. |
||
|
SÉCULO XIII |
||
|
|
|
|
|
INGLATERRA |
|
ESCÓCIA |
|
Desenvolvimento
progressivo do estilo gótico e do seu simbolismo acompanhante. |
||
|
|
||
|
As marcas de ferramentas dos
maçons revelam uma origem oriental. |
|
Continuação do antigo
estilo de lavra de pedra. |
|
|
||
|
SÉCULO XIV |
||
|
Desenvolvimento progressivo. |
|
Continuação da
Guerra de Independência; construções paralisadas: decadência da Maçonaria
Operativa Medieval quando apenas parcialmente desenvolvida. |
|
SÉCULO XV |
||
|
Guerras das Rosas;
dormência do Ofício tanto em suas características Operativas quanto
Especulativas; reprodução parcial do estilo
gótico. |
|
Lojas existem
apenas para fins comerciais, embora fragmentos de um sistema simbólico (ou
especulativo) incompleto sejam transmitidos de forma imperfeita: Cerimonial
muito simples. |
|
SÉCULO XVI |
||
|
A Reforma; não se
constroem mais igrejas; os construtores desaparecem. |
|
Idem acima. |
|
SÉCULO XVII |
||
|
Lojas sobrevivem,
principalmente para fins Especulativos; Elias Ashmole iniciado, A.D. 1646; “Modo
de adoção muito formal”; e provavelmente adumbrado pelo da Loja de Aberdeen,
A.D. 1670. |
|
Idem acima. |
|
SÉCULO XVIII |
||
|
“Sinais e Toques”
dos Maçons aludidos em impresso, 1709; Formação da Grande Loja da Inglaterra,
1717; Dr. Anderson encarregado de “compilar” as antigas Constituições em
Manuscrito, 1721; livro impresso das Constituições, 1723. |
|
Procedimento das
Lojas caracterizado por grande simplicidade até depois de 1717; sistema
inglês de três graus introduzido gradualmente; Grande Loja da Escócia
erigida, 1736. |
A
tarefa imediatamente diante de mim é fazer um início na Maçonaria histórica.
Portanto, em primeiro lugar, coloquemos inteiramente de lado as especulações
dos escritores Modernos e averiguemos quais autoridades independentes existiam,
antes da era das Grandes Lojas, pelas quais qualquer período de origem tenha
sido atribuído à nossa Maçonaria Britânica.
Três
dessas autoridades podem ser citadas: Sir William Dugdale, Sir Christopher Wren
e Elias Ashmole, cujas respectivas opiniões já foram registradas em nossas
Transações.[3]
Uma
delas, porém, a declaração atribuída a Dugdale, provavelmente o maior
antiquário de sua época, deve ser novamente mencionada. John Aubrey, em sua
obra Natural History of Wiltshire, escrita (embora não publicada) em
1686, observa:
“Sir
William Dugdale disse-me há muitos anos que, por volta do tempo de Henrique
III, o Papa deu uma Bula ou diploma a uma Companhia de Arquitetos Italianos
para viajarem por toda a Europa construindo Igrejas. Desses deriva a
Fraternidade dos Maçons. Eles são conhecidos uns dos outros por certos Sinais
& Palavras de passe: isso continua até hoje. Eles têm Diversas Lojas em
vários Condados para sua recepção: e quando qualquer um deles cai em
decadência, a irmandade deve socorrê-lo, etc. O modo de sua adoção é muito
formal [favor notar isto], e com um Juramento de Segredo.”
De
efeito muito semelhante são as opiniões de Sir Christopher Wren e Elias Ashmole.
Com base na autoridade desses grandes nomes, foi costumeiro durante um longo
período fixar o estabelecimento dos Maçons na Inglaterra por volta do início do
reinado de Henrique III, período no qual, afirmava-se, a Arquitetura Gótica (que
primeiro começou no Oriente) entrou em prática como uma ordem regular
estabelecida, e sugeria-se a inferência (como sendo irresistível) de que a
invenção e a introdução dessa ordem de arquitetura audaciosa e altissimamente
científica devia ser atribuída a esses artistas escolhidos e selecionados.
Há
exatamente cinquenta anos, contudo, Sir Francis Palgrave observou: “O número de
escritores, no país e no exterior, que discutiram a origem da arquitetura
gótica, e cada um dos quais conduz sua própria teoria ao redor de seu próprio
parque, provavelmente não é agora muito menor do que cem. No entanto, até onde
podemos julgar, nenhum desses pesquisadores jamais convenceu outro a adotar sua
própria opinião.”[4]
Durante
o meio século decorrido desde que a declaração anterior viu a luz do dia pela
primeira vez, uma grande multidão de escritores adicionais debruçou-se sobre o
mesmo tema, e algumas palavras expressas sobre isso por mim mesmo, em 1883,
talvez não sejam consideradas fora de propósito:
“O
gótico não é apenas o último elo na cadeia do estilo genuíno e original, a
arquitetura do mundo moderno em distinção à do mundo antigo, mas foi também o
produto de um temperamento romântico peculiar desenvolvido naquele período
específico, que era totalmente diferente de tudo o que fora visto antes ou
depois, mesmo entre as mesmas nações, e que se mostrou não apenas na
arquitetura, mas na literatura e até na política, notadamente no grande
movimento das Cruzadas.”[5]
“É
bom abrigar-se sob uma sebe antiga”, mas tenho uma razão mais forte para
colocar diante de vocês, como base para nossa investigação, a alegada conexão
dos Maçons com a arquitetura gótica do que a mera alegação de que uma teoria se
torna venerável por sua idade.
No
outono de 1888, a Associação Arqueológica Britânica realizou sua sessão anual
em Glasgow e, entre os trabalhos lidos perante ela, havia um de autoria de
nosso atual Segundo Vigilante (Professor T. Hayter Lewis), que levava o
seguinte título: “Marcas de Maçons Escoceses comparadas com as de outros
países.”
Entre
as conclusões formuladas por esta excelente autoridade, todas as quais ele
estabelece satisfatoriamente ao comparar as Marcas de Maçons em nosso próprio
país e no exterior, estão:
1º.
Que certos métodos definidos de marcar as superfícies gerais das pedras
caracterizavam a maçonaria dos estilos que chamamos de Normando, e que isso
tinha aparentemente uma origem Ocidental.
2º.
Que no século XIII foi introduzido, com o Estilo Pontiagudo Primitivo [que é
outro nome para o Gótico], um método inteiramente diferente de dar acabamento à
superfície, e que a fonte desse método vinha aparentemente do Oriente.
3º.
Que as Marcas de Maçons não parecem ter sido comumente usadas na Europa até o
final do século XII.
4º.
Que algumas das mais proeminentes dessas marcas parecem ter sido usadas
continuamente, desde tempos muito remotos, em países orientais.
Nosso
Ir. Segundo Vigilante chama então a atenção para a opinião de Viollet-le-Duc de
que o clero que estava na companhia dos Cruzados retornou à Europa com o
conhecimento do que fora feito pelos Sarracenos e tentou aplicar o que vira, tendo
a arte dos Sarracenos exercido assim uma grande influência sobre a do Ocidente.
Ele
observa em seguida: “Sei que se dirá que a evolução do estilo Pontiagudo [ou
Gótico] foi de desenvolvimento gradual. Sim, sem dúvida, em grande parte o foi,
como deve ser o caso de qualquer invenção, seja ela qual for. Mas recuso-me
absolutamente a crer que uma mudança tão grande, feita em tão pouco tempo,
tenha sido o resultado de um mero sistema de aperfeiçoamento gradual; nem posso
crer na teoria que atribuiria a mudança a uma parceria de mentes, sejam monges
ou cidadãos, em mosteiros ou guildas. Em todo grande movimento que o mundo
presenciou, alguma grande mente surge como pioneira; nem posso pensar que tenha
sido diferente com a nossa arte.” Nosso Ir. Segundo Vigilante conclui com o
seguinte: “Não sou entusiasta o bastante para supor que as marcas que os
trabalhadores deixaram venham jamais a ser tão explícitas a ponto de nos falar
sobre o homem; mas creio sinceramente que a busca pelo seu significado (uma
busca que nem sequer havia começado até cerca de cinquenta anos atrás) pode nos
levar ao lugar e aos meios pelos quais sua influência se espalhou
de forma tão poderosa e rápida.”
Não
é exagero dizer que as Marcas de Maçons, que até agora foram consideradas por
nossos estudantes avançados como apresentando um valor sentimental muito
superior à sua utilidade prática, são agora, graças à pesquisa do Professor
Hayter Lewis, demonstradas como um fator muito importante no complicado
problema da história maçônica.
De
acordo com Sir William Dugdale, ou para colocar de outra forma, de acordo com a
crença popular ou a tradição oral prevalecente em sua época, os Maçons
derivaram sua origem de uma companhia de arquitetos capacitados “para viajar
por toda a Europa para construir igrejas por volta do tempo de Henrique III”,
isto é, no século XIII, enquanto, no mesmo período, se seguirmos o Segundo
Vigilante, foi introduzido com o Estilo Pontiagudo Primitivo (ou Gótico) “um
método inteiramente diferente de dar acabamento à superfície, e que a fonte
desse método vinha aparentemente do Oriente”.
“É
bom ter duas cordas no seu arco”, ou como expresso de outra forma:
“É
bom navegar preso a duas âncoras, já diziam os homens,
Se
uma falhar, a outra pode segurar.”
Aqueles
que desconsideram as opiniões atribuídas a Sir William Dugdale, Sir Christopher
Wren e Elias Ashmole, vendo-as como meras asserções e totalmente desprovidas de
prova, olharão, no entanto, de forma muito diferente para o raciocínio
cuidadoso e preciso do Professor T. Hayter Lewis.
De
fato, segundo me parece, os argumentos do Segundo Vigilante reintroduzem
virtualmente a antiga tradição, isto é, em seus aspectos materiais, a saber, a
conexão dos Maçons com a arquitetura gótica e a derivação, em alguma medida,
dessa arte ou estilo a partir do Oriente.
Em
sua erudita obra Europe in the Middle Ages, Hallam nos diz:
“Alguns
atribuíram as principais estruturas eclesiásticas à fraternidade dos Maçons,
depositários de uma ciência oculta e tradicional. Há provavelmente algum
fundamento para essa opinião; e os arquivos mais antigos dessa associação
misteriosa, se existissem, poderiam ilustrar o progresso da arquitetura gótica
e talvez revelar sua origem.”
A
passagem citada por último é típica e, na ideia que incorpora, foi considerada
nos últimos anos como tendo atingido o limite máximo da credulidade. Mas, como
vimos, o ensaio ou trabalho lido pelo Professor Hayter Lewis diz, em efeito,
quase, se não exatamente a mesma coisa; a única diferença é que, ao recomendar
uma busca pela origem e progresso da arquitetura gótica, o Professor é o guia
mais prático dos dois, pois, em vez de procurar por arquivos que não existem,
ele prudente aconselha um exame cuidadoso das marcas ou emblemas esculpidos
pelos Maçons Medievais, os quais podem ser encontrados ainda hoje.
Estará
na memória dos meus ouvintes que o Segundo Vigilante avança uma hipótese muito
ousada. Ele diz:
“Em
todo grande movimento que o mundo presenciou, alguma grande mente surge como
sua pioneira; nem posso pensar que tenha sido diferente com a nossa arte.”
Ele
não acredita na teoria que atribuiria a mudança do estilo Normando para o Pontiagudo
Primitivo (ou Gótico) a uma parceria de mentes, sejam monges ou cidadãos, em
mosteiros ou guildas.
Assim,
em vez de uma Escola, ele sugere audaciosamente que é um Homem a quem devemos
olhar como o pioneiro do grande movimento arquitetônico que se iniciou durante
o século XIII.
“O
rio nunca pode subir acima de sua nascente”, portanto, se existiu tal mente
mestra, a genealogia dos Maçons, ao menos no que diz respeito ao seu
sincronismo com o surgimento da arquitetura gótica, está esgotada.
Mas
vejamos se a ideia lançada pelo Ir. Hayter Lewis pode ser utilizada na
investigação particular que estamos realizando.
Se
o Estilo Pontiagudo Primitivo de Arquitetura (uma das fases do Gótico) foi
devido ao gênio e à personalidade marcante de um indivíduo, pode-se
razoavelmente presumir que, assim como o filho mais novo do Rei Athelstan,
conforme registrado no documento maçônico que se segue em antiguidade ao
Manuscrito Regius: “De especulativo ele era um mestre”, ou, em outras palavras,
que ele era amplamente versado tanto no conhecimento quanto na prática da
ciência da geometria, e um perito, por assim dizer, tanto na Maçonaria
especulativa quanto na operativa.
Após
o Pontiagudo Primitivo veio outra fase do Gótico, o Estilo Pontiagudo Médio ou
Perfeito, conhecido na Inglaterra pelo nome de Decorado. Durou do final do
século XIII ao final do século XIV e, durante esse período, um progresso imenso
foi feito na técnica da arte. A pedra havia se tornado, por assim dizer, tão
dúctil quanto a cera nas mãos dos construtores, que haviam superado todas as
dificuldades de construção. Após o Estilo Decorado, a mais bela era da
arquitetura gótica chega ao fim. Ainda assim, embora os arquitetos ingleses
pareçam após o término do século XIV, perder algo em riqueza de invenção
espontânea, o sentimento pela beleza do trabalho ornamental não haveria de
decair até que ao menos as capelas reais de Windsor, Westminster e Cambridge, e
outras fascinantes edificações com teto em leque estivessem concluídas, com as
quais a verdadeira Arquitetura Gótica da Inglaterra apagou-se “em uma chama de
glória” sob os Tudors.
Contudo,
embora com a construção das Igrejas e Catedrais dos séculos XIII e XIV a
vitalidade do Gótico como um estilo puro de construção tenha terminado, muitas
tentativas infrutíferas de reproduzir o estilo foram feitas, e a prática
continuou até a morte da Rainha Elizabeth (1602). Mas, a essa altura, o grande
objetivo para o qual o Gótico fora inventado (a celebração adequada de um
suntuoso cerimonial religioso, pelo qual uma nação iletrada pudesse ser
instruída, impressionada e governada) havia deixado de existir; e, após a
Reforma, assim que outros meios para a instrução do povo foram providenciados,
a catedral gótica passou a ser empregada para outros fins, o estilo gótico de
arquitetura quase morreu, e seus princípios e processos construtivos, e até
suas tradições (como mais adiante lhes sugerirei de modo mais particular) foram
esquecidos.
Assim,
o declínio da Arquitetura Medieval foi devido a causas naturais, como a queda
do monasticismo e de todas as coisas medievais, e um seguiu o curso do outro.
Não se construíram mais igrejas e, consequentemente, os construtores
desapareceram; e com eles, em grande medida, creio eu, morreu a habilidade na
construção de arcos e abóbadas, que era, talvez, a grande característica dos
construtores da Idade Média.
O
Gótico, contudo, nunca morreu completamente, e sugerirei agora a vocês: a mesma
coisa pode ser dita com relação ao Simbolismo do Ofício, se é que ele existiu
de todo, dentro do período abrangido pelo surgimento e queda da Maçonaria
Operativa Medieval?
Raciocinando
por analogia, há evidências a partir das quais a crença de que ele de fato
existiu brotará em muitas mentes.
“Nos
mais antigos Clássicos Chineses (o Livro da História) que abrange um período
que vai do século XXIV ao século VII antes de Cristo, encontramos alusões
distintas ao Simbolismo da arte dos Maçons. Mas mesmo se começarmos”, diz o Sr.
Giles, “onde o ‘Livro da História’ termina, encontramos curiosas expressões
maçônicas em uso (ao menos na linguagem escrita) mais de setecentos anos antes
da era Cristã; isto é, apenas cerca de dois séculos após a morte do próprio Rei
Salomão.” Também em uma famosa obra canônica, chamada O Grande Aprendizado, que
é atribuída ao século V antes da nossa era, lemos que o homem deve abster-se de
fazer aos outros o que não gostaria que fizessem a ele; “e isto”, acrescenta o
escritor, “é chamado o princípio de agir de acordo com o esquadro”. O Sr. Giles
também cita Confúcio, 481 a.C., e seu grande seguidor, Mêncio, que floresceu
quase duzentos anos mais tarde. Nos escritos deste último filósofo, ensina-se
que os homens devem aplicar o esquadro e o compasso figurativamente às suas
vidas, e o nível e o prumo também, se desejam caminhar pelos caminhos retos e
planos da sabedoria, e manter-se dentro dos limites da honra e da virtude. No
Livro VI de sua filosofia encontramos estas palavras:
“Um
Mestre Maçom, ao ensinar seus aprendizes, faz uso do compasso e do esquadro.
Vós, que estais engajados na busca da sabedoria, deveis também fazer uso do
compasso e do esquadro.”
O
Ir. Chaloner Alabaster nos diz: “Recorrendo então aos registros que possuímos
dos tempos históricos mais remotos na China, encontro evidências claras da
existência de uma fé mística expressa em forma alegórica e ilustrada, como
entre nós, por símbolos. Os segredos dessa fé eram transmitidos oralmente,
pretendendo apenas os chefes ter o conhecimento pleno deles. Encontro, além
disso, que nessas eras mais remotas essa fé tomou uma forma Maçônica, sendo os
segredos registrados em edifícios simbólicos semelhantes ao Tabernáculo que
Moisés ergueu no deserto e ao Templo que seu sucessor Salomão construiu em
Jerusalém; que os vários cargos na hierarquia dessa religião eram distinguidos
pelas joias simbólicas ostentadas por eles durante o mandato, e que, como entre
nós, nos ritos de sua religião eles usavam aventais de couro, como os que
chegaram até nós, marcados com as insígnias de seu grau.”
De
acordo com a mesma autoridade, os mistérios dessa antiga fé estão agora
perdidos ou, na melhor das hipóteses, obscurecidos, embora tentativas de
restauração possam ser traçadas nos procedimentos de fraternidades existentes,
cujos vários rituais e sinais supõe-se serem, em alguma medida, fundados em
antigos ritos e símbolos transmitidos desde as eras mais remotas.
Os
trechos anteriores não usarei para nada além de assumir, com base neles, que
entre um povo muito antigo, e antes da era Cristã, houve uma moralização dos
instrumentos do ofício dos Maçons, juntamente com um ensino simbólico que, no
decorrer do tempo, perdeu-se ou obscureceu-se.
De
fato, o primeiro aprendizado do mundo consistia principalmente de símbolos. “A
sabedoria de todos os Antigos que chegou às nossas mãos”, diz o Dr. Stukeley, “é
simbólica”. Também, como é bem colocado pelo Dr. Barlow: “emblemas, símbolos,
tipos, todos têm isto em comum: são os representantes de alguma outra coisa que
eles significam.” Esta última definição é aquela em que me apoiarei ao avançar
a hipótese de que os pedreiros do século XIV estavam familiarizados com
emblemas, símbolos ou tipos.
“Durante
o esplendor da Maçonaria Operativa Medieval”, observa o Ir. Albert Pike, “a
arte de construir ergueu-se acima de todas as outras artes e fez todas as
outras subservientes a ela. Ela comandava os serviços dos intelectos mais
brilhantes e dos maiores artistas.”
De
efeito muito semelhante, embora expresso de forma um pouco diferente, são as
observações do Professor Rogers, que declara:
“Nunca
estudei a história do Ofício, mas não pode haver razão para crer que quaisquer
princípios muito importantes de uma arte tão mecânica quanto a arquitetura
fossem incomunicáveis, exceto a esses místicos, se é que os irmãos para os
quais uma antiguidade tão remota e uma associação tão disseminada são
reivindicadas por seus extravagantes representantes nos tempos modernos tiveram
qualquer existência virtual. Estou inclinado a crer que, assim como quando um
sentido se extingue em uma pessoa os demais são estimulados a uma acuidade
preternatural, assim também nas eras com as quais estamos preocupados, quando a
literatura era tão escassa e os meios de ocupação tão pouco variados, a única
arte que foi desenvolvida em qualquer grau notável foi estudada com tal
intensidade e concentração a ponto de produzir resultados aos quais nós, em
nossos modos mais amplos de pensamento, estudo e aplicação, achamos difícil,
senão impossível, rivalizar.”
É
bem sabido que o método simbólico de instrução que estivera em uso desde os
tempos mais remotos no Egito foi adotado pelos judeus. Daí que, sob o manto dos
símbolos, a filosofia pagã se insinuou gradualmente nas escolas judaicas, e as
doutrinas platônicas, misturadas primeiro com as pitagóricas e depois com as
egípcias e orientais, fundiram-se com sua antiga fé nas suas explicações da lei
e das tradições. A sociedade dos Terapeutas foi formada segundo o modelo do
sistema pitagórico; Aristóbulo, Filo e outros estudaram a filosofia grega, e os
cabalistas formaram seu sistema místico sobre o fundamento dos dogmas ensinados
nas escolas alexandrinas.
Por
várias causas, entre o século III e o século X, encontram-se apenas poucos
traços dos mistérios cabalísticos nos escritos dos judeus, mas seu saber
peculiar começou a renascer quando os sarracenos se tornaram os patronos da
filosofia, e suas escolas subsequentemente migraram para a Espanha, onde
atingiram a mais alta distinção. Estas, nos séculos XIII e XIV, tornaram-se o
refúgio dos artesãos cristãos para se instruírem nas artes úteis. As
Universidades de Toledo, Córdova, Sevilha e Granada eram procuradas pelo pálido
estudante de outras terras para se familiarizar com as ciências dos árabes e
com o tesouro do saber da antiguidade.
Pode
haver, de fato, pouca ou nenhuma dúvida de que, com o término da Maçonaria
Operativa Medieval, muitos dos princípios mais abstrusos e abstratos da arte de
construir foram inteiramente perdidos. Para isso, uma razão foi sugerida (que
pode possivelmente ser verdadeira), a de que esses princípios eram apresentados
em forma simbólica.
Seja
como for, é pelo menos certo que, nos séculos XIII e XIV, os recursos
ilimitados da habilidade arquitetônica foram aplicados em toda parte para
desenvolver ideias divinas por meio da pedra simbolizada. O único objetivo que
se apresentava ao arquiteto maçônico era encontrar expressões adequadas para os
anseios do coração e para as aspirações morais do povo. Tampouco a simbolização
era desconhecida para os trabalhadores reais ou pedreiros. Nossos antigos
irmãos operativos, embora um pouco rústicos, eram, à sua maneira, extremamente
engenhosos. Caricaturas em pedra ainda podem ser encontradas, iguais em força e
rusticidade às de Rowlandson e Gillray, nem devemos nos espantar ao constatar
que uma boa parte girava em torno do clero, como ocorre com um grande número de
caricaturas dos nossos desenhistas ingleses, especialmente na questão dos
dízimos; e estas, juntamente com indecências que, afinal, não são de todo
desconhecidas em eras mais refinadas, eram provavelmente os divertimentos de
trabalhadores de humor sombrio, quando pensavam que podiam comprazer-se neles
sem temor de serem descobertos. Assim, em antigas igrejas e catedrais
encontramos retratados uma freira nos abraços de um monge, um Papa descendo ao
inferno no juízo final, uma raposa com vestes sacerdotais pregando para uma
congregação de gansos, um jumento celebrando a missa solene, etc.
Que
a classe de trabalhadores por último referida possuía algum conhecimento de
simbolismo arquitetônico, ou, para usar palavras mais familiares, que eles
simbolizavam os instrumentos de seu ofício, foi presumido por muitos escritores,
uma conclusão à qual também sou levado e que, embora incapaz de prova rigorosa,
pode, segundo me parece, ser fortificada em alguma pequena medida por analogia.
Já
vimos que, durante o esplendor da Maçonaria Operativa Medieval, a arte de
construir esteve no topo de todas as outras artes; mas há uma circunstância
notável conectada ao ofício dos Maçons, para a qual me voltarei a seguir, em
maior ilustração de sua inquestionável supremacia.
Por
nenhum outro ofício na Grã-Bretanha foram fornecidas evidências documentais de
ter reivindicado, em qualquer época, uma história lendária ou tradicional.
Nossas
tradições escritas remontam (falando em linhas gerais) ao século XIV, e, para
mim ao menos, não parece nem um pouco mais extraordinário que nossas tradições
simbólicas possam ter desfrutado de uma existência em um período de tempo
igualmente remoto.
Isso
nos leva ao próximo ramo do meu tema geral: as tradições escritas dos Maçons,
nas mais antigas das quais, como veremos em breve, há muito que confirma a
ideia que já lancei, de que a Maçonaria simbólica foi contemporânea dos
escritos mais antigos do Ofício que chegaram até nós.
Para
passar, contudo, às nossas tradições escritas, (há, em primeiro lugar, duas
histórias ou dissertações sobre Maçonaria ou Geometria, datando) segundo as
autoridades do Museu Britânico, de cerca de 1425, e depois uma longa série de
documentos datando de cerca de 150 anos mais tarde, aos quais se aplicou o nome
de Constituições em Manuscrito. Das duas histórias ou dissertações, uma é em
forma métrica (poética) e a outra em prosa, e é com a primeira, o MS. Regius ou
Poema Regius (na presente investigação), que estamos unicamente preocupados.
Este manuscrito evidentemente pertencia a uma guilda ou fraternidade de Maçons,
pois apresenta a história lendária de seu Ofício e fornece regulamentos para
sua conduta. Mas é notável principalmente pelo fato de seus últimos cem versos
serem quase exatamente os mesmos de um poema não maçônico, chamado Urbanitatis,
que dá instruções minuciosas de comportamento (na presença de um senhor), à
mesa (e entre senhoras), tudo isso sendo claramente destinado a cavalheiros
daquela época. Argumentou-se que tais regras teriam estado fora de lugar em um
código de modos elaborado para o uso de uma Guilda ou Ofício de artesãos e,
portanto, que o MS. devia pertencer a uma Guilda ou fraternidade que comemorava
a ciência, mas sem praticar a arte da maçonaria, isto é, que eram o que hoje
chamaríamos de Maçons especulativos ou Simbólicos.
Declara-se,
na introdução ao Poema Maçônico, que o ofício da geometria foi fundado no Egito
por Euclides e recebeu o nome de Maçonaria; e com referência a isso, o Ir.
Albert Pike diz: “Muitos dos símbolos das antigas religiões, de Pitágoras e dos
Herméticos de tempos posteriores eram figuras geométricas . . . Alguns destes
eram simbólicos porque representavam certos números, mesmo entre os assírios e
babilônios. Ao conhecimento desses símbolos, talvez, deu-se o nome de
'geometria', para afastar suspeitas e perigos. Os arquitetos de igrejas
deliciavam-se com o simbolismo do tipo mais recondito. As Pirâmides são
maravilhas da ciência Geométrica. A Geometria era a serva do Simbolismo. O
Simbolismo, pode-se dizer, é a Geometria especulativa.”
Com
as visões precedentes nem todos, de fato, concordarão, mas o ponto não nos deve
escapar de que, no escrito mais antigo do nosso Ofício (pois tal o MS. Regius
indubitavelmente é), encontramos inculcações que estão muito distantes do
alcance mental dos irmãos operativos a quem as Constituições em Manuscrito eram
recitadas em uma era posterior.
Isso
concordará com a suposição de que a Maçonaria como ciência especulativa
declinou ou caiu em decadência, pari passu [a passo igual], com a
Maçonaria como arte operativa.
Deixando
essas duas histórias ou dissertações sobre a Maçonaria, que datam, como antes
afirmado, de cerca do ano 1425, permitam-me levá-los a seguir às Constituições
em Manuscrito, cuja forma datada mais antiga é o MS. “Grand Lodge” do ano 1583.
Entre
esses dois períodos há uma lacuna de 158 anos, e com relação a ela há algumas
considerações para as quais uma citação adicional ajudará a nos preparar. O
Rev. W. Denton, em seu A Inglaterra no Século XV, nos diz:
“O
que era verdade para a moral e para a riqueza material era verdade também para
a arte. A arquitetura cedera ao espírito da época; perdera muito de sua
nobreza, embora ainda não tivesse descendido às profundezas que alcançou
posteriormente. A mão do escultor inglês tornara-se rígida, e as formas vindas
do seu cinzel já não rivalizavam em graça com as produções do artista italiano.
Henrique VII subiu ao Trono ao final da longa e selvagem Guerra das Rosas.
Durante a continuidade da luta, a nação retrocedeu em muitos aspectos em
relação ao refinamento do século XIV. O cultivo até mesmo de frutas domésticas
cessou com a ruína das casas e solares e a desolação dos pomares e jardins. A
população encolheu. As artes perderam seu vigor e beleza. A arquitetura, a
escultura e o trabalho em metal não eram iguais ao que haviam sido, e uma nova
vida era necessária quando a paz foi mais uma vez assegurada.
No
início do reinado de Henrique VIII, temos a queixa de Sir Thomas Elyot, que
teria soado estranha aos ouvidos de um contemporâneo de Eduardo I, de que “na
pintura e na escultura, na gravação e no bordado, os ingleses são inferiores a
todos os outros povos.”
Na
Escócia, a deterioração das artes foi ainda maior. “A vitória de Bannockburn
expulsou da Escócia os próprios elementos de sua crescente civilização e de sua
riqueza material. Os artesãos do Norte da Grã-Bretanha eram, naquela época, em
sua maioria ingleses. Estes se retiraram ou foram expulsos da Escócia e, com
eles, a importância comercial das cidades escocesas foi perdida. As
propriedades mantidas por ingleses na Escócia foram confiscadas, e a riqueza
que, pelas mãos desses proprietários, encontrara seu caminho a partir das
partes do sul do reino e fertilizara o solo mais estéril do norte, cessou de
imediato. . . Nenhuma catedral foi construída após o reinado de David I em
1153, e quase todos os mosteiros foram fundados antes da morte de Alexandre III
em 1286. Todos esses sinais de gosto refinado e zelo religioso, de riqueza e espírito
público cessaram com a rebelião de Bruce.”
Ver-se-á,
portanto, que, enquanto a Inglaterra retrocedeu muitos graus em civilização
durante a Guerra das Rosas, um colapso ainda maior em direção à anarquia
comparativa ocorreu na Escócia devido à Guerra de Independência.
Estes
apanhados históricos auxiliarão nossa compreensão da extrema simplicidade do
ritual maçônico escocês, como se sabe ter existido, de modo geral, no século
XVII. Naquela que era então a principal revista do Ofício, o Ir. W. P. Buchan (à
época um dos mais destacados investigadores da história maçônica escocesa)
assim se expressou em 1869:
“Vendo
quão difícil é mesmo agora, com todos os auxílios para ajudar e reuniões
frequentemente recorrentes, fazer com que os oficiais e irmãos executem nossas
cerimônias adequadamente, como as antigas Lojas se arranjavam antes de 1717,
reunindo-se apenas uma vez por ano? Oh, quão elaborada deve ter sido a
cerimônia, quando um Maçom podia fazer outro? Ou onde podiam os irmãos aprender
nosso sistema atual, caso tal estivesse em uso antes de 1717?”
Para
fazer mais uma citação do mesmo escritor: “Aqueles que se entregam a sonhos
sobre as ciências misteriosas (!) ensinadas nas Lojas de Maçons anteriores ao
século XVIII apenas retransmitem as fantasias sem fundamento de uma imaginação
exaltada, enquanto aqueles que afirmam que os Maçons ocupavam uma posição mais
elevada na estima pública do que qualquer outro dos Ofícios estão enganados. Os
antigos Tecelões costumavam andar de cabeça bem erguida, e Eduardo III, da
Inglaterra, juntou-se aos 'Armadores de Linho'; e, se tudo for devidamente
investigado de maneira verdadeira, descobriremos que os Maçons operativos de
alguns séculos atrás não eram maiores gênios do que são no presente. Na
verdade, [e aqui peço sua atenção especial], a questão está aberta à
investigação sobre se o progresso da arte de construir, digamos na
Grã-Bretanha, por exemplo, acompanhou ou não o progresso das outras artes.”
Citei
o Ir. Buchan, por quem tenho grande respeito como estudante maçônico, com um
propósito duplo. Em primeiro lugar, porque ele coloca em linguagem vigorosa e
incisiva uma teoria ou crença que está em direta oposição à hipótese que lhes
apresento esta noite; e, em segundo lugar, porque, do ponto de vista pelo qual
estou argumentando agora, penso ser possível demonstrar que ambos os fatos nos
quais ele baseia sua própria inferência (a saber, a decadência da arte de
construir e a simplicidade do cerimonial das Lojas antes de 1717) podem
igualmente representar causa e efeito; e, sendo assim, não apenas não militam
contra, mas estão em exata harmonia com a linha de argumento que submeto à
consideração de vocês.
Permitam-me
agora retornar às Constituições em Manuscrito, cujo lugar na história maçônica
tentarei definir a seguir.
Vocês
podem ter notado há pouco que, ao aludir ao antigo cerimonial maçônico escocês,
nada disse sobre o seu equivalente inglês. Deste, de fato, sabemos pouco ou
nada, pois as Constituições em Manuscrito, que, em certo sentido, podem ser
descritas como “túmulos sem epitáfio”, transmitem informações muito escassas a
respeito da Maçonaria viva no Sul. Sabemos, de fato, que eram usadas, isto é,
lidas para candidatos da classe operativa, quando de sua recepção na Loja, mas
quanto ao formulário observado na admissão de cavalheiros, somos ignorantes.
Atas
de Loja não existem, isto é, de data anterior ao século XVIII, e aqui uma
palavra de cautela deve ser lançada contra o hábito muito prevalente de
confundir os sistemas de Maçonaria vigentes na Escócia e na Inglaterra,
respectivamente, um com o outro.
É,
obviamente, tanto fácil quanto natural fazê-lo. Cada sistema apresenta algumas
evidências que faltam ao outro, mas descobriremos, penso eu, em ambos os casos
que, como correntes de água fluindo em cursos divergentes a partir de uma fonte
comum, eles se tornaram mais impuros quanto mais longe correram da nascente.
Em
ambos os países, durante o século XVII, havia participação especulativa bem
como operativa nessas Lojas. Contudo, encontra-se uma diferença que deve ser
notada. Na Escócia, as Lojas existiam para fins comerciais, mas na Inglaterra
não exclusivamente assim, na verdade, exatamente o oposto, se limitarmos nossa
observação às únicas Lojas do século XVII das quais nos chegaram pormenores.
A
partir disso, será pelo menos uma conjectura plausível (não a colocarei de
forma mais elevada por enquanto) que, enquanto em um caso (Escócia) o antigo
simbolismo da Maçonaria havia descido ao nível do artesão comum, no outro caso (Inglaterra)
mais da antiga estrutura ainda existia.
Muita
luz seria lançada sobre este ponto se houvesse atas inglesas às quais recorrer,
mas como as Lojas inglesas não eram mantidas unidas para fins comerciais (como
as escocesas) , elas deviam ter alguma outra raison d'être para sua
continuidade, a qual, se não fosse um cerimonial mais completo e um ritual mais
ornado do que o usual no Norte, lança-nos em um enigma ainda maior do que
aquele que estamos tentando resolver.
Já
declarei, sob a autoridade de Sir William Dugdale, o que no século XVII parece
ter sido a crença popular a respeito dos Maçons, e não nos esqueçamos de que:
“A fama comum, Raramente é de
culpar.”
Os
Maçons, diz-nos Dugdale, “são conhecidos uns dos outros por certos sinais e
palavras de passe . . . O modo de sua adoção é muito formal.”
Que
havia uma pluralidade de sinais, também encontramos afirmado pelo Dr. Plot, em
1686, e uma pluralidade de "palavras e sinais" é atestada por um
manuscrito que data de cerca de 1665.
Em
1709, isto é, oito anos antes do estabelecimento da primeira das Grandes Lojas,
o Sr. (mais tarde Sir Richard) Steele escreveu, em um jornal chamado Tatler,
sobre uma certa classe de pessoas, das quais diz:
“Eles
têm seus sinais e toques como os Maçons.”
Em
1717, como explicado anteriormente, a Grande Loja da Inglaterra foi fundada por
quatro Lojas de Londres e, como por cerca de duzentos anos todas as Companhias
de Londres cessaram, com exceções insignificantes, de estar conectadas de forma
real aos ofícios cujos nomes carregam, não devo excluir qualquer evidência a
partir da qual se tenha sustentado, ou se possa sustentar, que a Sociedade,
remodelada em 1717, era uma Companhia de Maçons que, em algum momento anterior,
abandonara a ocupação que lhes dera o nome. Tal evidência será encontrada no
MS. Harl., 1942, e no MS. Antiquity. Estes são cópias ou versões das
Constituições em MS., e no primeiro, que como documento escrito data de cerca
do início do século XVII, o seguinte ocorre entre as obrigações e inculcações:
4º.
“Resguardareis e mantereis em segredo as partes obscuras e intrincadas da
ciência, não as revelando a ninguém senão àqueles que estudam e usam a mesma.”
O
mesmo MS. usa a expressão “Maçom Livre e Aceito”, a quem se exige prover-se de
um certificado da Loja que o “aceitou”, e há uma cláusula que cito na íntegra:
“Que
para o futuro a dita Sociedade, Companhia, & fraternidade de Maçons será
regulada, & governada por um Mestre, & Assembleia, & Vigilantes,
conforme a dita Companhia julgar conveniente escolher, em cada Assembleia geral
anual.”
O
MS. “Antiquity”, a outra cópia das Constituições em MS., possui a seguinte
cláusula de atestação:
“Escrito
por Robert Padgett, Escrivão da Venerável Sociedade
dos Maçons da Cidade de Londres, no segundo ano do
Reinado de nosso muito Gracioso Soberano Senhor Rei James Segundo
da Inglaterra, etc. Anno Domini, 1686.”
Aqui,
portanto, temos duas evidências: uma nos dizendo que, no início do século XVII,
o governo da Sociedade, Companhia e fraternidade dos Maçons estava confiado a
um Mestre, Assembleia e Vigilantes. E a outra, que, no final do mesmo século, a
saber, em 1686, havia uma cópia das Constituições em MS., escrita pelo escrivão
da "Venerável Sociedade dos Maçons da Cidade de Londres", a qual é
possível que tenha sido a idêntica Sociedade, Companhia ou fraternidade de Maçons
fundada ou, por assim dizer, forjada em conjunto cerca de 60 ou 70 anos antes.
Estes
documentos, contudo, são muito insuficientes. Chegam até nós muito
insuficientemente atestados e desprovidos de corroboração por evidências de
qualquer outra fonte que fossem admissíveis num tribunal de justiça. O
silêncio, portanto, de todas as outras versões das Constituições em Manuscrito
no que tange à pontos de tal importância e, como se poderia naturalmente supor,
de tal notoriedade, levou a maioria dos estudantes a considerá-los entre
aqueles enigmas ocasionalmente encontrados na história maçônica que, na
ausência de mais evidências, são insolúveis.
Ainda
assim, "nem todos os pés calçam o mesmo sapato", e não devo deixar de
declarar (em justiça a uma minoria de estudantes que pode estar satisfeita
quanto à autenticidade destes documentos) que nas Companhias da Cidade (City
Companies) sempre existiram três graus de membros. O primeiro era o de
homem livre ou mulher livre (freeman ou freewoman); o segundo, a
filiação à libré (livery); e o terceiro, um assento no Tribunal (Court).
Aqui, alguns podem pensar que temos a estrutura dos nossos três graus da
Maçonaria Especulativa ou Simbólica.
A
fundação da Grande Loja da Inglaterra foi um grande evento e foi denominada “o
Renascimento de A.D. 1717”, o que de fato pode ter sido, embora não no sentido
geralmente empregado, a saber, como a ressuscitação de uma Grande Loja
pré-existente. O falecido Ir. Woodford disse com muita força: “De onde veio a Maçonaria
de 1717? Aceitar por um único momento a sugestão de que um sistema tão complexo
e curioso, abrangendo tantos vestígios arcaicos e cerimônias tão habilmente
ajustadas, tanta matéria conectada, acompanhada por tantos símbolos marcantes,
possa ter sido a criação de uma fraude piedosa ou de um convívio engenhoso,
pesa fortemente sobre as nossas capacidades de crença e ultrapassa até a
credulidade normal da nossa espécie. Os traços de antiguidade são muitos para
serem ignorados ou desconsiderados.” Tampouco é, de fato, em meu próprio
julgamento, sustentável por um instante que os antigos Maçons de Londres de
1717 tivessem observado com calma caso as formas e cerimônias a que estavam
acostumados tivessem sido metamorfoseadas tão subitamente como se tornou, em
medida considerável, moda acreditar.
Tampouco
podemos crer que, no encerramento da Antiga Maçonaria e no início da Moderna,
tenha havido uma mudança instantânea de atores, o grupo antigo se retirando e o
novo entrando. Uma geração de homens, como observa Hume, não sai de cena de uma
só vez e outra a sucede, como ocorre com os bichos-da-seda e as borboletas.
A
continuidade da Sociedade, que se mantinha por uma sucessão constante de novos
membros, pode ser comparada à de um tecido entrelaçado, cujos pontos se
entrecruzam, de modo que sua textura não é divisível em intervalos ou estágios.
Era,
assim, muito diferente da continuidade de uma Loja individual, a qual talvez
possa ser comparada à de uma corrente formada por elos isolados.
Quatro
Lojas, pelo menos, tomaram parte no chamado “Renascimento” de 1717, e tanto o
Grão-Mestre (Sayer) quanto o Primeiro Grão-Vigilante (Lamball), então eleitos,
permaneceram membros ativos da Grande Loja até muito depois da “Época de
Transição”.
Mas
devo prosseguir por etapas. A Sociedade dos Maçons estabelecida sobre uma nova
base em 1717 fez um progresso muito lento no favor público. O Dr. Stukeley, o
célebre antiquário, conta-nos em seu diário, sob a data de 6 de janeiro de 1721
(dia em que foi iniciado):
“Fui
a primeira pessoa feita Maçom em Londres durante muitos anos. Tivemos grande
dificuldade para encontrar membros suficientes para realizar a cerimônia.
Imediatamente após isso, a coisa tomou impulso e correu até perder o fôlego
devido à tolice dos membros.”
O
“impulso” referido pelo Dr. Stukeley ocorreu, sem dúvida, devido ao prestígio
adquirido pela Sociedade no mesmo ano, através da aceitação do Cargo de
Grão-Mestre pelo Duque de Montagu; e foi também no mesmo ano, 1721, que o Sr.
James Anderson, um Ministro Presbiteriano Escocês, foi selecionado pelo
Grão-Mestre e pela Grande Loja para revisar as antigas Constituições, ou
Constituições em Manuscrito, da fraternidade, as quais viram a luz do dia em
1723.
O
Sr., ou como mais tarde se tornou, Dr. Anderson, era, como vocês já sabem, um
graduado do Marischal College, em Aberdeen, e submeterei agora a vocês a
extrema probabilidade de que ele era também um graduado da Loja Maçônica
daquela cidade.
Os
três graus da Maçonaria pura e antiga, a saber, os de Mestre Maçom, Companheiro
e Aprendiz, carregam títulos que foram evidentemente tomados de empréstimo do
vocabulário da Escócia. Mestre Maçom, é verdade, era um termo comum em ambos os
reinos, mas, visto em conjunção com os outros, as três expressões podem ser
consideradas como tendo sido tomadas en bloc [em bloco] da terminologia
operativa do reino do norte.
Todas
essas expressões serão encontradas nos Estatutos Schaw (1598), nos registros de
Mary's Chapel, Edimburgo (1601), e nas Leis da Loja de Aberdeen (1670)
documentos escoceses. Mas os mesmos termos (Mestre Maçom, Companheiro e
Aprendiz), como graus da Maçonaria simbólica, não são aludidos em nenhum livro
ou manuscrito de data anterior a 1723. De fato, com exceção do primeiro
mencionado (Mestre Maçom), as próprias expressões não ocorrem (ao menos nunca
as encontrei no curso das minhas leituras) nos registros dos ofícios de
construção, nem na literatura impressa ou manuscrita da Inglaterra anterior à
publicação do “Livro das Constituições” do Dr. Anderson, produzido segundo o
mandato recebido por ele da Grande Loja da Inglaterra, em 1723.
A
questão então é: de onde o doutor os derivou? O que torna essencial que tomemos
uma visão mais detalhada do sistema de Maçonaria sob o qual há pouca ou nenhuma
dúvida de que ele próprio adquiriu seu conhecimento do Ofício.
O
registro mais antigo da Loja de Aberdeen data de 1670 e contém os nomes de 49
membros, descritos como “os Autores e Subscritores deste Livro”.
O
Mestre era “Harrie Elphinstone”, coletor da Alfândega do Rei. Quatro nobres
estavam entre os membros e, de todos os 49, calcula-se que apenas oito eram
Maçons operativos. A partir dessa circunstância, supõe-se geralmente, e penso
que com razão, que o grande número de membros especulativos da Loja deve
remontar a muitos anos, pelo menos.
A
11ª assinatura no registro é a do Escrivão, descrito como:
“James Anderson, Vidraceiro e
Maçom, e redator deste livro”,
E,
curiosamente, seu homônimo, o Dr. James Anderson, o Ministro Presbiteriano, não
apenas imita a forma como as assinaturas são mostradas no rol de Aberdeen
quando dá os nomes dos representantes das Lojas inglesas que assinaram o 1º
Livro das Constituições em 1723, mas também preenche o seu próprio como:
“James Anderson, M.A., O Autor
deste Livro.” Mestre
Isso
reforça a presunção da conexão do Dr. Anderson com a Loja, bem como com a
Universidade de Aberdeen, e há evidências adicionais das quais se pode inferir
o mesmo, embora o espaço me impeça de fazer mais do que indicar onde podem ser
encontradas.
Entre
as “Leis e Estatutos” ordenados pela Loja de Aberdeen em 27 de dezembro de
1670, estão os seguintes:
“Ordenamos
que nenhuma Loja seja realizada dentro de uma casa de moradia onde haja pessoas
vivendo nela, mas nos campos abertos, a menos que haja mau tempo, e então que
se escolha uma casa onde nenhuma pessoa possa nos ouvir ou ver.” (3º estatuto)
“Ordenamos
da mesma forma que todos os aprendizes admitidos sejam iniciados em nossa
antiga Loja externa de campo, nas Mearns, na paróquia de Nigg, junto às pedras
na ponta de Ness.” (5º estatuto)
Ora,
é muito notável que tenhamos aqui, nestas “Leis” da Loja de Aberdeen de 1670, a
única evidência que lança qualquer luz sobre o ritual real dos Antigos Maçons, pelo
qual me refiro ao catecismo ou formulário em uso na recepção de um novo membro,
antes da formação da Grande Loja da Inglaterra em 1717.
Não
há absolutamente nenhuma evidência de fontes inglesas, e apenas as leis acima
citadas de qualquer fonte escocesa.
Era
prática, como vimos, dos Maçons de Aberdeen realizar sua Loja e admitir seus
aprendizes ao ar livre. A seguir, permitam-me ler alguns trechos de publicações
que surgiram depois que o Dr. Anderson imprimiu seu livro das Constituições em
1723.
O
1º é do “Exame do Maçom” (Mason's Examination), também publicado em
1723. Diz ele:
P.: Onde
fostes feito?
R.: No
vale de Josafá, atrás de um Juncal, onde cão nunca foi ouvido ladrar, nem galo
cantar, ou em outro lugar.
O
2º é de “O Grande Mistério dos Maçons Descoberto” (The Grand Mystery of the
Freemasons Discover'd), impresso em 1724:
P.:
Quantos fazem uma Loja?
R.: Deus
e o Esquadro, com Cinco ou Sete Maçons justos e perfeitos, sobre as Montanhas
mais altas ou nos Vales mais baixos do Mundo.
O
3º é de “A Maçonaria Dissecada” (Masonry Dissected), 1730.
P.: Onde
fica a Loja?
R.: Sobre
Solo Sagrado, ou na Colina mais alta, ou no Vale mais baixo, ou no Vale de
Josafá, ou em qualquer outro Lugar Secreto.
Agora,
se olharmos de perto para esses catecismos, o de 1723 menciona o “Vale de
Josafá”, mas não as “colinas mais altas e vales mais baixos”. O seguinte, de
1724, faz exatamente o oposto, o “Vale de Josafá” não é nomeado, mas as “Montanhas
mais altas e Vales mais baixos” o são; enquanto no catecismo de 1730
encontramos ambas as frases na íntegra , de onde podemos, penso eu, concluir
que, ao incorporar o que fora dado nos outros dois, ele realmente remonta para
além ou por trás deles e reproduz, em forma mais ampla, muitos detalhes de um
catecismo ainda mais antigo do que os que chegaram até nós.
Essas
pretensas revelações devem ser manuseadas com a devida cautela. No ano de 1730,
o Grão-Mestre Adjunto Blackerby falou na Grande Loja sobre o autor de “A
Maçonaria Dissecada” como “um Impostor”, e “de seu Livro como uma coisa tola a
não ser levada em conta”. Mas até mesmo uma corrente poluída é uma bênção se
comparada a uma seca total e, na ausência de evidências nas quais possamos
confiar plenamente, até mesmo retalhos e fragmentos das fontes mais
contaminadas não devem ser desconsiderados, desde que tragam ao menos a estampa
da antiguidade.
Podemos
presumir, contudo, a partir das publicações que citei (sem tentar reconciliar
suas discrepâncias, o que seria uma impossibilidade manifesta, nem buscar
significados que provavelmente nunca existiram), que a prática de Lojas se
reunirem e de pessoas serem feitas Maçons ao ar livre e sob condições
favoráveis ao segredo era, pelo menos, um artigo de crença popular em 1723-30;
e nela encontramos um eco ou sobrevivência do uso tão estritamente ordenado pelos
estatutos da Loja de Aberdeen, em 1670.
Sobre
isso duas alegações podem ser fundadas: a primeira, de que costumes reais
observados na Maçonaria Moderna (1723-30) também podem repousar em uma base
semelhante de antiguidade, embora nenhuma prova concreta esteja disponível; e,
segundo, se qualquer parte do ritual da Maçonaria Moderna foi fundada na Antiga
Maçonaria prevalecente em Aberdeen em 1670, ela seria novamente levada para
trás (mas o quão longe deixarei que vocês decidam por si mesmos), pois é uma
certeza moral que os costumes de uma Loja composta por quarenta e nove membros,
dos quais todos, exceto oito, eram Maçons Especulativos ou Simbólicos, não
surgiram todos em um dia.
Se
a Maçonaria de Aberdeen e, por inferência, a existente em algumas outras partes
da Escócia era sui generis ou uma importação da Inglaterra, não se pode
determinar; mas a última suposição, se atribuirmos o devido peso à
predominância da Maçonaria operativa como arte viva no Sul, parece ser a mais
provável das duas.
A
próxima questão para nossa consideração é: o Dr. Anderson remodelou o antigo
ritual bem como as antigas leis dos Maçons? O assunto, contudo, está envolto em
demasiada confusão para que uma resposta definitiva seja possível. É provável
que o tenha feito, e que devamos a ele a introdução dos títulos operativos
escoceses e a expansão do sistema de graus, embora seja bastante possível que o
terceiro grau (pelo qual não me refiro a uma nova cerimônia, mas a uma
alteração no método de transmitir as antigas) tenha sido obra de outras mãos.
No
Livro das Constituições do Dr. Anderson, de 1723, apenas dois graus de Maçons
são mencionados: Aprendiz e Companheiro ou Mestre, os mesmos que existiam na
Loja de Aberdeen. Mas por volta de 1725 os títulos de Companheiro e Mestre se
desassociaram e, como o Dr. Anderson esteve ausente das deliberações da Grande
Loja da Inglaterra entre junho de 1724 e junho de 1731, é talvez uma inferência
razoável que ele não esteve envolvido na alteração.
Em
resumo. É, penso eu, abundantemente claro que o corpo Maçônico teve sua
primeira origem nos sindicatos de operativos Medievais; mas devemos agora nos
perguntar se houve uma Sobrevivência de seu Simbolismo (ou mesmo se possuíam
algum) quando a Antiga Maçonaria vestiu seus trajes Modernos e se tornou, como
desde então continuou a ser, uma ciência puramente especulativa.
Em
outras palavras, os Maçons de 1717, e posteriores, retiveram muitas formas,
cerimônias, palavras e símbolos que derivaram de seus ancestrais diretos, os
Maçons Operativos?
Antes,
porém, de aduzir a evidência mais forte que possuo em favor da antiguidade do
nosso Simbolismo Maçônico existente, e que propositalmente mantive guardada até
o último momento, permitam-me expor brevemente uma teoria contrária que tem
seus defensores.
Ela
sustenta que alguns homens, sendo instruídos em astrologia, alquimia e
sabedoria cabalística em geral, eram também Maçons e aproveitaram essa
circunstância para doutrinar seus colegas com suas próprias crenças fantásticas
e assim, sob o manto e por meio da organização da Maçonaria, preservar dogmas
que de outro modo poderiam ter caído no completo esquecimento.
De
acordo com Vaughan, “O misticismo não tem Genealogia. O mesmo círculo de
noções, ocorrendo a mentes de feitura semelhante, sob circunstâncias
semelhantes, é comum aos místicos da antiga Índia e da Cristandade moderna.” O
mesmo escritor observa: “À medida que o renascimento das letras se espalhava
pela Europa, o gosto pela antiguidade e pelas ciências naturais começou a
reivindicar sua parte na liberdade conquistada para a teologia; as pretensões
da Cabala, de Hermes, da Teurgia Neoplatônica tornaram-se identificadas com a
causa do progresso.”
Passarei
levemente por um assunto que esteve fora do meu curso de estudos e está,
talvez, além da minha esfera de compreensão. Mas creio que se possa presumir
que, de acordo com a teoria da qual estou tentando dar-lhes um esboço, o
conhecimento místico ou simbolismo do Ofício é suposto ter sido introduzido nas
Lojas pelos filósofos Herméticos, ou adeptos Rosa-Cruzes, cujos estudos parecem
ter abrangido os mesmos objetos e entre os quais, portanto, a única diferença
parece ter sido de título: sendo a primeira denominação a mais antiga das duas,
mas a última (devido à alegada existência de uma Sociedade de Rosa-Cruzes, com
a qual, contudo, os outros Rosa-Cruzes não devem ser confundidos) tornando-se
ultimamente o termo mais comum pelo qual esses devotos da “Arte Química” ou “Filhos
do Fogo” eram aludidos.
Sustentou-se
por alguns escritores que a influência do Hermetismo sobre a Maçonaria se fez
sentir durante o tempo de Elias Ashmole, enquanto por outros se afirma que o
simbolismo de nossa Sociedade é de instituição muito mais recente, e que chegou
até nós depois de 1717, pelas mãos dos Rosa-Cruzes.
Há
também uma terceira tese (à qual me referi anteriormente) que participa das
outras duas, e é a de que o simbolismo Hermético havia penetrado na Maçonaria
antes, “mas que a classe trabalhadora de Maçons nas Lojas não tinha
conhecimento dele” até depois da era das Grandes Lojas.
Com
relação a estas diversas teorias, exporei em primeiro lugar o seguinte caso.
Suponhamos que encontramos em um indivíduo certos hábitos ou idiossincrasias, e
que se afirma com confiança que ele os herdou de seu avô. Além disso,
imaginemos que, com relação ao seu ancestral intermediário, nenhuma informação
esteja disponível; penso que isso representa de forma bastante justa o esforço
de fé que se exige de nós para dar um assentimento implícito ao dogma da
ancestralidade Hermética que nos é apresentado. Deveríamos, no primeiro caso,
penso eu, tentar rastrear a paternidade imediata do indivíduo cujos hábitos ou
idiossincrasias eram objeto de consideração; e é precisamente isso que lhes
pedirei para me ajudarem a fazer no outro caso.
Sob
a Grande Loja da Inglaterra, dentro da primeira década de sua existência, havia
um cerimonial, ou, para variar a expressão, certas observâncias rituais e
emblemáticas eram praticadas nas Lojas; e se estas eram então novas ou antigas
é, resumidamente, a questão principal para nossa determinação.
Se
noto o fato de que os Hermeticistas ou Rosa-Cruzes não são conhecidos por terem
praticado eles mesmos quaisquer cerimônias místicas ou simbólicas que pudessem
ter transmitido aos Maçons, é meramente para que eu possa prosseguir com a
observação de que o que é incapaz de prova é, naturalmente, igualmente incapaz
de refutação.
Mas
esses filósofos alquímicos não perseguiram seus estudos curiosos em um único
país; e por que, se fraternizaram com os Maçons da Grã-Bretanha (ou sua
organização), ou de qualquer forma fizeram uso deles, teriam se abstido tão
resolutamente de fazer a mesma coisa no Continente é um mistério cuja
explicação nos é negada.
Muito
peso tem sido atribuído ao fato inquestionável de que Elias Ashmole era tanto
um filósofo Hermético quanto um Maçom. A conjectura, contudo, não deve tomar o
lugar da evidência, e podemos bem pedir a informação necessária que nos
permitirá considerar a influência do Hermetismo tal como aparece no corpo geral
da Maçonaria, e não como esteve circunstanciada em qualquer membro individual
do Ofício.
O
Irmão Albert Pike nos diz, em palavras tão belamente escolhidas que não
precisarei de apologia para reproduzi-las:
“O
Simbolismo da Maçonaria é a Alma da Maçonaria. Cada símbolo da Loja é um
instrutor religioso, o instrutor mudo também da moral e da filosofia. É em seus
antigos símbolos e no conhecimento de seus verdadeiros significados que
consiste a preeminência da Maçonaria sobre todas as outras Ordens. Em outros
aspectos, algumas delas podem competir com ela, rivalizar com ela, talvez até
superá-la; mas, por seu simbolismo, ela reinará sem igual, quando aprender
novamente o que significam os seus símbolos, e que cada um é a
personificação de alguma grande, antiga e rara verdade.”
Vocês
terão na memória imediata as palavras para as quais convidei especialmente a
atenção de vocês: “Quando aprender novamente o que significam os seus
símbolos.” Elas proclamam uma verdade que é traço fundamental da teoria ou
hipótese que lhes apresento esta noite. Trata-se de que o significado de uma
grande parte do nosso Simbolismo Maçônico foi esquecido, e aqui passarei a
demonstrar-lhes por que, em meu julgamento, há fundamentos para crer que esse
apagamento parcial de seu significado deve ter ocorrido antes da era das
Grandes Lojas.
Se
esta visão for sustentável, podemos então colocar de lado a sugestão de que “a
lenda do Terceiro Grau foi introduzida pelos recém-chegados à Maçonaria, que
trouxeram para ela tudo o que é verdadeiramente simbólico e filosófico nos Três
Graus”.
É
improvável (para não dizer impossível) que homens de predicados intelectuais
que se juntaram ao Ofício sob a Grande Loja da Inglaterra durante a primeira
década de sua existência tivessem introduzido qualquer Simbolismo do qual não
compreendessem o significado; e penso que se pode demonstrar muito facilmente,
pelo cerimonial daquele período, que ele devia ser tão obscuro e ininteligível
em muitas partes naqueles dias quanto o é nos nossos próprios.
Mas,
como preliminar, ouçamos o que um Comentador de um dos catecismos impressos
escreveu a respeito dele na época de sua publicação.
O
próprio Dr. Anderson é tido por alguns como tendo sido o autor, embora eu
considere isso incorreto; contudo, a peça foi escrita por alguém dotado de
grande habilidade e foi reimpressa no Livro das Constituições de 1738.
Foi intitulada “Uma Defesa da Maçonaria”, e o intuito do 3º capítulo era
remover a impressão geral produzida pela publicação de A Maçonaria Dissecada,
de que “os princípios e toda a estrutura da Maçonaria eram tão fracos e
ridículos que refletiam mal sobre os Homens do menor Entendimento por se
envolverem com ela”. Como prova disso, alegava-se que a “Dissecação” não
descobria “nada além de um Amontoado ininteligível de Coisas e Jargões, sem
Senso Comum ou Conexão”.
Sobre
isso, o erudito e engenhoso autor da “Defesa”, que professou ser seu objetivo
fazer “algumas Observações imparciais sobre a Dissecação, sem defender a
Reputação da Maçonaria por um lado, nem refletir sobre o Dissector por outro”,
observa:
“Confesso
que sou de outra opinião . . . o sistema tal como ensinado nas Lojas regulares
pode conter algumas redundâncias ou defeitos, ocasionados pela indolência ou
ignorância dos membros antigos. E, de fato, considerando através de que
obscuridade e trevas o Mistério foi transmitido; os muitos séculos que
Sobreviveu; os muitos países, e línguas, e seitas, e partidos através dos quais
passou, devemos antes nos maravilhar de que tenha chegado à presente Era sem
mais Imperfeições. Em suma, sou inclinado a pensar que a Maçonaria, tal como
é agora explicada [peço a atenção de vocês para estas palavras, que estão
em itálico no original], em algumas circunstâncias declinou de sua pureza
original: correu por muito tempo em rios lamacentos e, por assim dizer,
subterrâneos; mas, apesar do grande ferrugem que possa ter contraído, há (se
julgo direito) muito da antiga Edificação ainda restante: o Fundamento
permanece inteiro; os Pilares essenciais do Edifício podem ser vistos através
dos Escombros, embora a Superestrutura possa estar coberta de Musgo e Hera, e
as Pedras desarticuladas pelo passar do tempo.
E,
portanto, assim como o Busto de um antigo Herói é de grande valor entre os
curiosos, embora tenha perdido um Olho, o Nariz ou a Mão Direita, assim a
Maçonaria, com todas as suas imperfeições e desventuras, em vez de parecer
ridícula, deveria (em minha humilde opinião) ser recebida com alguma Candura e
estima, por Veneração à sua Antiguidade.”
A
passagem que acabo de ler para vocês não empresta cor à suposição de que
qualquer recém-chegado à Maçonaria pudesse ter remodelado o antigo ritual. De
fato, como viram, pelo público em geral, “os princípios e toda a estrutura da Maçonaria
eram considerados tão fracos e ridículos que refletiam mal sobre os homens do
menor entendimento por se envolverem com ela”.
Disso
um exemplo adicional é fornecido por algumas innuendos na “Ode ao Grande
Khaibar”, 1726, que, além de alusões à “Tagarelice ininteligível” e às “Tolices
Solenes” dos Maçons, traz o seguinte:
“Com
nomes vazios de Reis e Senhores
A
Loja Mística pode afagar a Fantasia,
Palavras
sem Significado ela oferece,
E
Sinais sem significância.”
Mas,
para passar a uma esfera mais elevada de crítica, podemos inferir do fato de
"Uma Defesa da Maçonaria" ter sido reimpressa com o Livro das
Constituições de 1738 que, na opinião das principais autoridades maçônicas,
a antiga “Edificação” (da Maçonaria) sofrera tais estragos às mãos do tempo e
da negligência a ponto de suscitar dúvidas sobre o quanto dela “ainda
permanecia”.
O
correto a fazer, no entanto, é examinarmos o ritual por nós mesmos e aqui, como
o tempo urge, devo pedir àqueles irmãos que não estão familiarizados com sua
fraseologia peculiar que, ao menos até certo ponto, concedam-me sua confiança a
ponto de crer em minha afirmação de que ele abunda em arcaísmos, que são
claramente sobrevivências de formas mais antigas de fala. Também premissarei
que, ao escolher um título para este trabalho, fui influenciado pela
consideração de que, embora o Simbolismo da Antiga Maçonaria possa ter
abrangido muitas coisas ausentes de seu Cerimonial, ainda assim tudo o que
podemos aprender do primeiro deve ser derivado do nosso conhecimento real do
segundo, um fragmento, pode bem ser, do ensino simbólico de eras mais remotas,
mas, não obstante, tudo em que podemos confiar com qualquer aproximação de
certeza como fornecendo uma pista real para os segredos perdidos da Sociedade.
[Foi
feita então uma exposição verbal do ritual e cerimonial primitivos sob a Grande
Loja da Inglaterra, juntamente com ilustrações típicas dos significados
perdidos de algumas partes do Simbolismo da Maçonaria.]
Que
o Simbolismo da Maçonaria existia antes da era das Grandes Lojas (1717) é,
penso eu, um ponto sobre o qual, se refletirmos de todo, pode haver pouca ou
nenhuma variedade de opinião. Mas, se a tese menor, que foi colocada diante de
vocês, for estabelecida para sua satisfação, descobrirão, penso eu, que serão
levados a um caminho muito longo no sentido de aceitar a tese maior. Em outras
palavras, se o simbolismo (ou cerimonial) da Maçonaria é mais antigo do que o
ano de 1717, não há praticamente limite algum de idade que possa ser atribuído
a ele. Após a formação de uma Grande Loja, houve centralização. Antes dela, não
havia nenhuma. Cada Loja se reunia então por direito inerente e, mesmo que vamos
ao ponto de admitir a possibilidade de práticas novas e estranhas serem
introduzidas em qualquer uma delas, não havia corpo superior por cuja
autoridade essas inovações pudessem ter sido impostas às outras Lojas. Para
colocar de outra forma. Se ultrapassarmos ou passarmos para trás do ano de
1717, isto é, para o domínio da Antiga Maçonaria, e olharmos novamente para
trás, a perspectiva é perfeitamente ilimitada, sem uma mancha ou sombra para
quebrar a continuidade da visão que se apresenta a nós.
É,
portanto, muito longe de ser uma hipótese arbitrária a de que o Simbolismo que
possuímos chegou até nós, em todos os seus traços principais, de tempos muito
remotos, e que se originou durante o esplendor da Maçonaria Operativa Medieval,
e não em seu declínio.
Com
relação, pois, à antiguidade de tudo o que é de primordial importância no
Simbolismo Maçônico, algumas observações de um escritor não maçônico irão
encaixar-se muito bem a título de conclusão; ele nos diz:
“Que em tempos muito antigos muito conhecimento de todos os tipos era incorporado em figuras e esquemas místicos, tais como eram julgados apropriados para sua preservação. Também que muitas dessas figuras e esquemas estão preservados na Maçonaria, embora seu significado já não seja compreendido pela fraternidade.”
Clique aqui para acessar ao PDF.
Sobre o irmão Robert Freke Gould
O irmão Robert Freke Gould, nasceu em 1836. Ingressou no serviço de Sua Majestade em 1855 como Alferes do 86º Regimento de Infantaria, tornando-se Tenente do 31º Regimento de Infantaria no mesmo ano; serviu na Campanha do Norte da China em 1860 (medalha e barra de condecoração) e tornou-se Advogado em 1868. Foi iniciado na Royal Navy Lodge, nº 429 (então 621), em Ramsgate, em 1855, e sucessivamente filiou-se às seguintes Lojas: Friendship, em Gibraltar, nº 278 (então 345), em 1857; Inhabitants' Lodge, em Gibraltar, nº 153 (então 178), em 1858, como primeiro Venerável Mestre em seu reerguimento; Meridian Lodge, nº 743 (então 1045), no 31º Regimento de Infantaria de Sua Majestade, em 1858, na qual foi eleito Venerável Mestre em 1858 e novamente em 1859; St. Andrew's in the East, nº 343, em Poona, na Índia Oriental, sob a Grande Loja da Escócia, em 1859; Orion in the West Lodge, nº 415 (então 598), em Poona, em 1859; Northern Lodge na China, Xangai, nº 570 (então 832), em 1863, na qual foi eleito Venerável Mestre em 1864; Royal Sussex Lodge, nº 501 (então 735), em Xangai, em 1864; e Moira Lodge, nº 92, em Londres, em 1866, atuando como seu Venerável Mestre em 1874 e 1875. Foi exaltado ao Real Arco no Capítulo Melita, nº 349 (então 437), em Malta, em 1857; ingressou no Capítulo Escocês em Poona em 1859; no Capítulo Zion, nº 570, em Xangai, em 1863, do qual foi Z. em 1865; e no Capítulo Moira, nº 92, em Londres, em 1875, sendo Z. em 1878. Em 1858, foi nomeado Grande 1º Vigilante da Andaluzia e, em 1880, Grande 1º Diácono da Inglaterra. Nomeado, em 5 de dezembro de 1877, membro da Comissão Especial para investigar e relatar à Grande Loja as medidas tomadas pelo Grande Oriente da França ao remover de sua constituição os parágrafos que afirmam a crença na existência do G.A.D.U. Serviu no Conselho de Assuntos Gerais em 1876, 1878 e 1879, como membro eleito, e de 1880 a 1883 por indicação do Grão-Mestre, e como membro eleito do Conselho Colonial de 1876 a 1879. Além de inúmeras contribuições para a imprensa maçônica, datadas quase desde sua iniciação, ele é autor de “The Four old Lodges” e "The Atholl Lodges”, de 1879 e “The History of Freemasonry”, de 1882-1887.




Comentários
Postar um comentário