AS LENDAS DO COMPAGNONNAGE
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o ler, alguns anos atrás, a obra póstuma de Arthur Dinaux intitulada Les Sociétés Badines, duas das irmandades ali mencionadas atraíram particularmente a minha atenção. Para a compilação de uma história sobre elas, venho, há algum tempo, reunindo livros e notas; proponho-me agora a considerar uma pequena parte da história de uma delas — a outra, que também não deixa de ter seu interesse, deve ser deixada para uma ocasião futura.
Primeiramente, a título de desculpa pela falta de fluidez que possa
ser observada em algumas partes deste artigo, devo dizer que ele foi composto
sob considerável dificuldade e em momentos nos quais eu estava longe de gozar
de boa saúde. Além das dificuldades de selecionar [o conteúdo] em meio a uma
massa de notas, tive que lidar com uma pressão de trabalho maior do que a
comum, e o tempo que pude dedicar a este texto foi, em sua maior parte, roubado
daquelas horas durante as quais a superstição popular diz ser melhor estar
dormindo.
Para o benefício daqueles cujos estudos maçônicos não foram
direcionados a esta parte do tema, devo dizer que, por Compagnonnage,
entende-se aquele vasto corpo de operários qualificados na França, abrangendo
quase todo tipo de ofício, que, tanto antigamente quanto em tempos modernos,
realizava o que se chamava de Tour de France. Ao seguir os limites
prescritos deste itinerário e ao subir degrau por degrau na Fraternidade, o
operário ganhava crédito e experiência adicionais, qualificando-o, por fim, a
assumir seu lugar na liderança de seu ofício.
O seguinte resumo, extraído da obra de Perdiguier, apresenta na
forma mais breve possível as grandes divisões da Sociedade.
O Compagnonnage reconhece três fundadores principais; ele forma
muitos Devoirs e divide-se em muitas Sociedades. Os pedreiros (tailleurs
de pierre), denominados Compagnons Étrangers [Companheiros
Estrangeiros], também chamados de Loups [Lobos], os marceneiros e
serralheiros do Devoir de Liberté, chamados de Gavots, reconhecem
Salomão; e dizem que este rei, para recompensá-los por seus labores, deu-lhes
um Devoir e uniu-os fraternalmente nos recintos do Templo, obra de suas
mãos.
Os pedreiros (tailleurs de pierre), denominados Compagnons
Passants e chamados de Loups-Garous [Lobisomens]. Os marceneiros e
serralheiros do Devoir, chamados de Dévorants, também pretendem
que descendem do Templo e que Mestre Jacques, famoso condutor das obras naquele
edifício, os fundou.
Os carpinteiros, Compagnons Passants ou Bons-Drilles,
reivindicam a mesma origem que o último grupo; eles também descendem do Templo,
e o Padre Soubise, renomado na carpintaria, foi o seu fundador.
Não é necessário, no momento, fazer mais do que apresentar o breve
esboço acima sobre o Compagnonnage. Na época em que Perdiguier escreveu, ele
incluía quase todos os ofícios; um por um, eles haviam se afiliado aos três
principais Devoirs.
Esta palavra Devoir [Dever], que ocorrerá constantemente,
pode necessitar de uma pequena explicação. Ela possui, em francês, muitos
significados — por exemplo: dever, comportamento, tarefa, exercício — e pode
significar também dívida.
Perdiguier nos informa que o Devoir é um código, e parece
evidente que ele incluía certas regras, mas não é minha intenção agora discutir
sua real significação. Devo, no entanto, mencionar que discordo inteiramente do
Ir. Gould quando ele afirma que o Devoir correspondia aos
manuscritos das “Old Charges” dos Maçons. É uma dúvida em minha mente se
ele chegou a ser escrito, e, se o foi, duvido muito que contivesse qualquer
parte da história lendária do Compagnonnage.
Para o propósito atual, será suficiente aceitar a explicação de
Perdiguier de que se trata de um código, isto é, leis de governo.
Conectar a Maçonaria a este corpo de operários não é, de modo
algum, uma ideia nova, mas tal comparação tem sido, em sua maior parte,
restrita aos escritores franceses. Em nosso próprio país, uma menção a isso
ocorre aqui e ali: Heckethorn, em seu Secret Societies, e Mackey, em sua
Encyclopedia, dedicam-lhe um pequeno espaço, mas os pontos principais
não foram apresentados em detalhes até que aparecessem no primeiro volume da History
of Freemasonry do Ir. Gould.
Não se deve esquecer, como o Ir. Gould já
salientou, que Perdiguier (de cuja obra Le Livre du Compagnonnage
obteve-se a maior parte do que se conhece sobre as lendas para qualquer um que
considere o assunto) era por demais consciencioso para expor qualquer um dos
segredos, e escreveu sobre o Compagnonnage como um bom Maçom escreveria sobre a
Maçonaria. Ele conta sua história de uma maneira direta e objetiva, mas é de se
lamentar que, ao fazer o seu Tour de France, ele não tenha absorvido um
pouco mais de arqueologia aliada à sua filantropia.
Tudo o que ele publicou, podemos razoavelmente concluir, era
considerado propriedade comum e, diretamente, de pouca ou nenhuma importância
no que diz respeito aos verdadeiros mistérios de sua ordem.
Ele foi seguido por Moreau e outros; de fato, o livro de Perdiguier
parece ter dado origem a toda uma literatura sobre o assunto. Deve-se lembrar
que seu único objetivo era a regeneração da ordem, ao destruir o que ele
considerava serem os abusos no sistema, hábitos e costumes antigos
transmitidos, mas mal adaptados aos tempos modernos. Ele não tinha a intenção
de fornecer uma história detalhada da Sociedade, mas simplesmente, na medida em
que era necessário para seu propósito, considerou as lendas, maneiras e
costumes tal como os encontrou.
Sua obra aumentou gradualmente de tamanho desde sua primeira edição
em 1839, mas mesmo todos os seus esforços para torná-la mais valiosa para seus
irmãos falharam em reunir um relato adequado das várias lendas existentes nos
diferentes Devoirs. Algumas delas aparecem apenas em referências
esparsas e meros fragmentos de informação; perceber-se-á, portanto, quão
difícil é, sem declarações mais definitivas, decidir qual era ou não a forma de
algumas das supostas lendas. Uma acusação feita contra ele por um de seus
correspondentes foi a de que ele não havia publicado algumas das antigas
canções do Compagnonnage. É lamentável que não o tenha feito, pois elas
poderiam ter rendido alguma informação sobre o assunto.
C. G. Simon, em sua obra Étude Historique et Morale sur le
Compagnonnage (Paris, 1853), informa-nos que seu trabalho é o resultado de
muito estudo e de uma vasta correspondência; mas, em minha opinião, o resultado
está muito longe de ser proporcional ao grande esforço que supostamente exigiu.
Nela ocorrem algumas questões importantes que são difíceis de verificar e, por
outro lado, algumas não são mencionadas, as quais seria justo esperar que ali
encontrassem lugar.
Posso citar quase as primeiras linhas de seu livro — palavras de um
autor não menos distinto que Charles Nodier, as quais mostram o valor atribuído
à “Teoria do Compagnonnage”:
“As
sociedades de ofícios são provavelmente tão antigas quanto os próprios ofícios.
Encontram-se traços de sua existência e de sua ação em todas as histórias. A
Maçonaria não é outra coisa, em sua origem como em seus emblemas, senão a
associação dos operários pedreiros ou construtores, completa em seus três
graus: o aprendiz, o companheiro e o mestre; e a origem real da Maçonaria é o
Compagnonnage.”
Não preciso citar mais nada para o propósito atual, exceto dizer
que Simon olha para a Sociedade Francesa como “a criança degenerada” e
acrescenta: “Pesquisar a origem primitiva do Compagnonnage é, portanto,
pesquisar a origem dos Maçons”.
Esta, uma das muitas origens da nossa Sociedade, como outras que
brilharam intensamente em seu tempo, temo que, como origem direta, deva ser
abandonada tal como elas. Ao mesmo tempo, não se deve esquecer que pode ter
havido e, de fato, deve ter havido, durante as constantes conexões por paz e
guerra entre a Inglaterra e a França, pontos de contato abrangendo um período
considerável de tempo, nos quais haveria possivelmente não apenas a introdução
de regras de ofício de um para o outro, mas também o intercâmbio de práticas
cerimoniais. Daí surge o valor de todas as coleções de fatos que lançam luz
sobre as leis das guildas de ofícios e das sociedades secretas.
A lenda da qual apresento aqui uma tradução nunca apareceu, tanto
quanto pude descobrir, em uma forma tão perfeita, exceto no livro do qual a
obtive. Nenhum autor, francês ou inglês, que tenha tratado do assunto e que
tenha chegado ao meu conhecimento, parece ter tido ciência de sua existência.
Fragmentos dela apareceram ocasionalmente, mas as partes que eram consideradas
mais interessantes e de maior valor não foram fornecidas. Isso, suponho,
deveu-se ao fato de se acreditar que os esforços literários de um Marceneiro
francês deveriam ter se esgotado em uma segunda edição. Mas não foi o caso.
Após deixar a França, Perdiguier dedicou-se ao seu tema e publicou vários
livros, entre outros, uma terceira edição de sua obra sobre o Compagnonnage,
lançada em 1857, da qual obtive a conclusão da história.
Quanto à decisão final de que a “teoria do Compagnonnage” é
simplesmente uma opinião com o mesmo valor que algumas outras teorias, muitos
podem pensar de forma diferente de mim. Mas, seja qual for a decisão, não se
pode ignorar, como Gould disse, que, ao examinar todo o sistema, há mais do que
uma mera semelhança de costumes de ofício. É desnecessário entrar nesse assunto
aqui, pois, mesmo que fosse desejável, estaria fora do objetivo presente.
Muitos dos costumes correspondentes já foram revisados e discutidos na parte da
História do Ir. Gould já referida, tendo ele sido precedido por Simon.
O Templo de Salomão foi a fonte primordial, como se verá. Mas, quer
se estabeleça ou não uma conexão entre o Compagnonnage e a Maçonaria, é
particularmente interessante ter outra lenda de construção distinta,
mencionando a maneira da suposta introdução das artes da construção na França —
uma lenda também acreditada na medida em que tais compilações costumam ser, e
nas mãos da Sociedade que emprega essas artes naquele país.
Devo salientar, no entanto, que embora a história francesa contenha
uma parte de tal história lendária, e a mesma ideia, até certo ponto, permeie
ambas, a mais ampla distinção deve ser feita entre a lenda francesa e a
inglesa, conforme apresentada em nossas Old Charges. É verdade que ambas
se esforçam para reivindicar uma origem antiga e respeitável, não apenas para a
Sociedade em si, mas para suas regras, formuladas e concedidas, em cada caso,
por uma ou mais celebridades da história antiga, datando de um suposto momento
de fundação formal.
A diferença interna e principal é, todavia, marcante e não deve ser
ignorada. Enquanto as “Old Charges”, seguindo de perto as linhas das
antigas crônicas, apresentam uma descendência lendária mais ou menos completa
da arte da construção desde a criação do mundo até os tempos históricos; a
lenda do Compagnonnage, pelo contrário, fornece apenas o suficiente dessa
descendência para o propósito da narrativa, começando quando o Templo de
Salomão foi concluído, sendo a maior parte da história dedicada ao que poderia,
até certo ponto, ser comparado às “Vidas dos Santos”.
Um personagem, Mestre Jacques, destaca-se proeminentemente em sua
vida e morte, embora outros personagens apareçam desempenhando papéis mais ou
menos importantes neste drama fundamental. Cada um assume seu devido papel, é
verdade, mas todos são subordinados à história desse único homem, e pouco ou
nada se diz sobre a história deles além do que é absolutamente necessário para
sustentar os pontos principais do relato.
Mesmo o próprio Perdiguier, um membro do Compagnonnage, a menos que
sua reticência seja uma questão de honra, o que duvido muito, pouco pode
acrescentar. Como já salientado, ele parece ter dedicado muito esforço bem
direcionado para coletar informações e dominar o assunto, mas sem sucesso. A
tentativa de compor uma história, que ele inseriu no segundo volume de sua
obra, é pouco mais do que várias afirmações mais ou menos confiáveis extraídas
dos livros que ele pôde examinar; o restante consistindo em suas próprias
teorias, comparações e deduções. Do próprio Compagnonnage, ele aparentemente
não conseguiu obter mais nenhuma informação. Por esta razão, entre outras,
inclino-me a pensar que esta lenda de Mestre Jacques é a única história escrita
fabulosa possuída pelo Compagnonnage. É possível que a forma mais antiga
reivindicasse origem simplesmente em Salomão, Hiram e no Templo. Que em algum
período, como sugerido por Simon, o despretensioso, embora distinto, homem
Hiram, o Construtor (talvez com uma lenda), tenha cedido lugar e sido
ultimamente superado pelo Real Salomão.
É provável também que, em um tempo ainda mais tardio, a lenda de
Mestre Jacques tenha sucedido a anterior em forma de lenda ou, retendo o fato
único da construção do templo, tal como é apresentado agora, tenha sido
compilada para atender aos requisitos de outro ramo da Sociedade. O próprio
Perdiguier diz, como se verá, que cada Sociedade criou para si uma história,
mais ou menos semelhante.
Vale a pena notar que no MS. Adicional 23198 (Manuscrito Cooke)
diz-se (fol. 19. l. 421, etc.) que “vimos” a história de Euclides escrita tanto
em latim quanto em francês em nossas Charges. Novamente (fol. 24, l.
465, etc.), Salomão confirmou as cartas de Davi aos Maçons e ele próprio
ensinou-lhes “costumes” — “E de lá essa digna ciência foi trazida para a França”,
ou seja, de Salomão e do Templo. Afirma-se que isso está registrado em outras
crônicas e “velhos livros de maçonaria”, e a lenda é seguida com mais ou menos
diferença nas várias cópias das Old Charges. A versão francesa, como se
verá, supera a dificuldade ao situar a fundação de Marselha algumas centenas de
anos antes do que ocorreu. A inglesa a contorna fazendo com que “Naymus Grecus”
viva do tempo de Salomão até o tempo de Charles Martell.
Pela lista apresentada acima, é possível observar que os pedreiros compagnons
étrangers, aqueles trabalhadores da Fenícia e, por isso, chamados de
estrangeiros, figuram em primeiro lugar na lista dos filhos de Salomão.
Perdiguier afirma (II. 252) que esta é uma organização raramente contestada. Os
serralheiros, seguidores de Jacques, frequentemente lhe diziam, segundo ele,
que reconheciam esse corpo como o pai do Compagnonnage. E inclino-me a
concordar com ele que uma Sociedade deve ter sido a primeira a ser capaz de
tomar Salomão como seu fundador; também supondo que os filhos de Jacques
tivessem existido sozinhos, e que uma pequena seção tivesse tomado subitamente,
no século XII ou XIII, o pomposo título de “Filhos de Salomão”, eles teriam
simplesmente tido uma morte natural pelo ridículo.
Infelizmente, se existiu qualquer lenda de Salomão além dos fatos
históricos comuns, muito pouco dela pode ser recuperado agora. Os seguidores de
Salomão alegavam ter recebido seu devoir dentro dos recintos do Templo.
Das outras divisões, dizem-nos apenas que saíram do Templo quando este foi
concluído e foram fundadas pelo Condutor das obras, Mestre Jacques, e por um
mestre muito habilidoso em carpintaria, o Padre Soubise.
É possível notar que, em alguns pontos da lenda, o título deste
último é alterado de père [padre] para maître [mestre].
Esses
fundadores, (seguindo a lenda), estando todos empregados juntos no Templo,
devem ter recebido a princípio o mesmo devoir de Salomão. Esta ideia de
uma fundação e um devoir originais e únicos é mencionada em uma das
canções apresentadas por Perdiguier (II. 112), onde se afirma:
“Nossos
fundadores em seus sínodos, Jacques, Soubise e Salomão, pensavam da mesma
maneira quando escreveram seus Códigos. Se, portanto, estamos em consciência
sujeitos às mesmas leis; doravante, no Tour de France, comportemo-nos
como amigos.”
E sobre os vários caracteres atribuídos aos três fundadores, outra
canção (II. 118) parece expressar a opinião corrente:
“De
Salomão a sabedoria é louvada, ele é um digno governante dos Compagnons.
De Mestre Jacques a ternura é conhecida, e de Soubise conhece-se o sentimento.”
Em uma canção
(Volume I, p. 157) com referência ao Templo de Salomão, ocorre o seguinte:
“Templo
erguido para nossos primeiros mistérios, é do teu seio que os homens piedosos a
quem chamamos nossos primeiros pais nos legaram os meios de sermos felizes,
etc.”
Novamente
(Volume I, p. 160):
“Salomão,
por sua grande sabedoria, foi um modelo para o mundo; cantemos, pois, com
alegria este belo nome que nos é tão caro. Ele fundou nosso Compagnonnage para
recompensar nossos labores.”
Há uma canção
(Volume I, p. 190) que pode fornecer uma parte da lenda de Salomão. Ela fala
dele como “o primeiro Arquiteto do mundo, e o primeiro autor da construção. Ao
dar aos teus filhos, os cortadores de pedra, o compasso e os lápis, e a amizade
como de irmãos”, etc.
Novamente
(Volume I, p. 208):
“Oh
supremo Compagnonnage, a Judeia viu o teu nascimento. Prestes a perecer em um
naufrágio, o Eterno salvou o teu navio; e logo uma margem feliz viu a tua tocha”.
Aludindo talvez
à viagem por mar da Judeia para a França, se for algo mais do que mera
imaginação poética.
“Jerusalém,
cidade da Judeia, morada resplandecente de nosso fundador; em teus arredores,
junto à tua ruína sagrada, brilhou a altura do Monte Moriá. Lá foi construído o
Templo da glória, e por Hiram tudo foi dirigido. Todos os seus labores
descansam na memória dos Compagnons du Devoir Estrangeiros. Nosso grande
Rei, aquele monarca sublime, desejou finalmente recompensá-los, confiar-lhes um
segredo, uma marca [marque, um selo, distintivo ou sinal], e dar-lhes o
Santo Devoir. Todos eles juraram, em suas almas arrebatadas, ao pé do
trono, no seio da justiça, nada dizer, sob o risco de suas vidas, sobre
qualquer segredo do Devoir Estrangeiro ... Em pouco tempo, sob o céu da
França, vê-se crescer esta estrela resplandecente, toda florescente... etc.
Compreendam, vinte e oito séculos testemunharam os verdadeiros filhos do sábio
Salomão.”
Novamente (Volume I, p. 213):
“Este
Rei vigia a cada instante nossos voos no Tour de France. O Templo
recebeu nossos juramentos, e Salomão nossos votos fiéis.”
Novamente em
uma canção dos Passants (Volume I, p. 214):
“Ao
vagar pelos quatro cantos do globo, se perderes a estrela do Oriente, o curso
vagabundo do Compagnon parece enfrentar todos os problemas... etc.”
Outro dos [Pedreiros]
Estrangeiros possui (Volume I, p. 216):
“Contemplai
a estrela brilhante, ela vos apontará o distante Oriente, e parece estar turva,
próxima a uma nuvem transparente. No horizonte brilhante de fogo, Hiram, com um
compasso em sua mão, parece traçar para vós o contorno das margens e das
ribanceiras do Jordão.”
Perdiguier diz que não pretende rastrear as divisões do Compagnonnage
até sua origem, mas dedica algumas páginas aos três fundadores. Sua 'Vida de
Salomão', incluindo cópias das cartas trocadas entre aquele Rei e Hiram de
Tiro, é simplesmente o que qualquer pessoa poderia obter. Em uma nota sobre a
carta do Rei Hiram, na qual este diz: “Envio-vos um homem perito e
habilidoso”, Perdiguier acrescenta: “Este homem perito e habilidoso é,
sem dúvida, aquele outro Hiram, que é considerado um dos Arquitetos do Templo”.
Sua reticência, embora eu duvide, pode ser devida ao fato de que
ele mesmo pertencia aos seguidores de Salomão e, portanto, não se sentiu
compelido a detalhar qualquer parte da lenda pertencente a essa divisão. As
informações fornecidas sobre Salomão, como se verá, concentram-se em um único
fato. Outra menção referente a Hiram será notada em suas observações sobre a
lenda do Padre Soubise, onde se diz que eles teriam sido colegas no Templo.
Perdiguier diz
também que Mestre Jacques era um colega de Hiram (Vol. I, p. 34); o assassinato
de Hiram é mencionado (Vol. I, p. 40). Novamente, na mesma página, ao descrever
os Enfants de Salomon (Filhos de Salomão), cortadores de pedra, ele diz:
“Os
cortadores de pedra, Compagnons Estrangeiros, chamados les Loups
(os Lobos), passam por ser os mais antigos no Compagnonnage. Existe entre eles
uma antiga fábula na qual se questiona Hiram, segundo alguns, ou Adonhiram,
segundo outros; nela há crimes e punições: mas deixo esta fábula pelo valor que
ela possa ter”.
Ele afirma (Volume I, p. 45) que o nome “Estrangeiros” (Étrangers)
adveio do fato de que quase todos os cortadores de pedra empregados no Templo
não eram da Judeia, mas de Tiro e dos países vizinhos, e que a Sociedade
consistia exclusivamente neles em tempos antigos.
Os Marceneiros do Devoir (Menuisiers du Devoir),
filhos de Mestre Jacques, nos é dito (Volume I, p. 46), usam luvas brancas
porque, como dizem, não mergulharam suas mãos no sangue de Hiram.
Ao explicar a palavra Chien [Cão], pertencente a todos os Compagnons
du Devoir (Volume I, p. 61), ele diz acreditar-se, por alguns, que ela
deriva do fato de ter sido um cão quem descobriu o local onde o corpo de Hiram,
Arquiteto do Templo, jazia sob os escombros, e que, após isso, todos os Compagnons
que se separaram daqueles que haviam matado Hiram foram chamados por este nome
de Chien, ou cão.
Na lenda do assassinato de Hiram, a culpa então, de acordo com uma
das versões, recaía sobre os seguidores de Salomão, e supunha-se ter sido obra
da divisão específica que eram os “estrangeiros”, tendo vindo do país de onde
Salomão obteve Hiram, o construtor. Eram, de fato, seus próprios conterrâneos.
Isso é importante, pois atribui a lenda à divisão mais antiga da ordem: os
cortadores de pedra, Compagnons Étrangers chamados Loups [Lobos]
(cf. Perdiguier, Livre du Comp., II. 28).
Embora Hiram não tenha deixado o Templo, de acordo com qualquer
lenda do Compagnonnage que possuímos atualmente, e não tenha se tornado ele
mesmo o fundador de um Devoir, como Jacques e Soubise, é muito provável,
a partir das citações acima, que ele figurasse na lenda original dos seguidores
de Salomão. Aparentemente, supõe-se que ele tenha permanecido com Salomão, ou
que já não estivesse vivo, no momento da partida dos outros dois grandes
fundadores.
Os Companheiros partem da Judeia para se espalharem pelo mundo. (De Perdiguier, Livre du Compagnonnage, 3ª Ed.) |
SALOMÃO
MESTRE JACQUES PADRE SOUBISE
No desenho fornecido por Perdiguier que mostra Mestre Jacques,
Soubise e seus seguidores deixando o Templo o qual, devo mencionar, ele também
publicou em tamanho maior, vê-se uma figura em pé ao lado de Salomão, segurando
em sua mão esquerda estendida um par de compassos. Perdiguier, como nos outros
casos, não indica na estampa a quem essa figura se destina, mas eu a interpreto
como sendo Hiram, com base na canção já citada. É possível notar também que,
embora o Templo esteja telhado e evidentemente próximo da conclusão, ele não
está inteiramente finalizado. Operários são representados ainda cortando
pedras, e os andaimes permanecem em posição.
Antes de
considerar a lenda, será bom declarar a opinião do próprio Perdiguier.
“Quanto
a esta história de Hiram”, diz ele, “eu apenas a considero como uma fábula
suficientemente engenhosa, mas cujas consequências são horríveis, pois tende a
dividir aqueles que a encaram seriamente. A Bíblia, o único livro com
autoridade real quanto aos construtores do Templo de Salomão, nada diz sobre o
assassinato de Hiram, e, de minha parte, não acredito nele. O Compagnonnage
Estrangeiro e aqueles da Liberté não possuem detalhes autênticos desta
fábula, que é inteiramente nova para eles; e penso que os Compagnons das outras
Sociedades não estão em melhor posição; eu a vejo como uma invenção
inteiramente Maçônica[1] e
introduzida por homens iniciados em ambas as sociedades secretas”. (Vol. II, p.
75).
A partir da declaração acima de Perdiguier, é possível observar que
a questão no Compagnonnage se dividia entre Hiram e Adonhiram, e uma ideia
similar será encontrada mencionada por Moreau. Vale notar que a mesma
divergência de opinião ocorreu entre dois grupos de Maçons na França durante o
século XVIII.
Várias lendas de Hiram, atribuídas ao Compagnonnage, foram
apresentadas por diversos escritores, mas não fui capaz de encontrar uma
autoridade sólida para elas. Só posso imaginar que foram criadas a partir dos
poucos fragmentos de informação fornecidos acima. No entanto, nunca se deve
esquecer que, provavelmente, nenhuma celebridade dos tempos antigos teve mais
lendas vinculadas ao seu nome do que Salomão e sua conclusão do Templo, algumas
das quais o conectam a Hiram.
Devo agora dizer algo sobre a forma do manuscrito tal como ele se
apresenta. O francês empregado em sua composição não apresenta marcas de
antiguidade, além de algumas poucas formas de expressão incomuns. Nem sempre é
gramaticalmente correto, e as frases curtas em que grande parte dele está
escrita são peculiares. Perdiguier, como se verá, chama-o de um 'documento
muito curioso' e afirma que não alterou uma única palavra; portanto, podemos
assumir que temos uma cópia exata do seu original. As formas da linguagem não
precisam ser uma dificuldade, pois, é claro, existe sempre a possibilidade de
que sua cópia fosse uma edição modernizada de um documento mais antigo, ou
transcrita de memória. Eu poderia citar como exemplo, entre as Old Charges,
o Manuscrito Krause, como sendo um caso um tanto semelhante.
A lenda foi, por alguns escritores, comparada com a história da
traição de Jesus Cristo e, de fato, como se verá, existem pontos evidentes de
semelhança; mas o cristianismo termina aí. Ao longo de várias partes onde se
poderia razoavelmente esperar que, em um documento de tempos católicos, algum
símbolo do cristianismo estivesse presente, nenhum é encontrado. Na verdade,
tanto quanto é possível rastrear os poucos incidentes que ocorrem, eles apontam
para costumes de uma época mais antiga e, em lugar de ideias cristãs, um
monoteísmo evidente está presente. É bem verdade que alguns dos nomes das
cidades são de origem cristã, mas estes são especificados como sendo os nomes
mais modernos, e vale notar que, quando Moreau república uma parte da lenda (De
la réforme, etc., p. 110), ele coloca esses nomes modernos entre colchetes.
Muitas opiniões
foram declaradas quanto à data de origem, ou melhor, ao período em que o Compagnonnage
assumiu uma forma distinta e, a partir destas, esforços foram feitos para datar
a lenda. Se isso pudesse ser verificado de maneira satisfatória, teríamos
talvez uma data marginal a partir da qual trabalhar. Moreau (Un mot sur le
Compagnonnage, Auxerre 1841, p. 8) diz:
“Eu
acredito que seu estabelecimento não remonta a mais de quatro ou cinco séculos
[ou seja, 1300 ou 1400]: uma época em que tantas Catedrais Góticas e Monumentos
foram construídos na França. Originalmente (ib. p. 9), havia apenas quatro corps
d'état [corpos de ofício] admitidos no Compagnonnage: os carpinteiros, os
cortadores de pedra, os marceneiros e os serralheiros. Os principais operários
das edificações”. (cf. também ib. p. 16.)
Novamente (Un
Mot, etc., p. 9), ele diz:
“Apesar
de seu pequeno número [ou seja, quatro corporações], houve quase imediatamente uma
cisma por um motivo que desconheço, uma batalha de Compagnons, ou
condutores de obras, na qual um Hiram ou Adonhiram foi morto; em suma, eles se
dividiram em dois campos hostis: um reconhecia Mestre Jacques como fundador e
protetor, o outro, Salomão. Este último tinha apenas três corporações: os
cortadores de pedra, os marceneiros e os serralheiros. Desse tempo datam todas
estas rivalidades, que se transformam em batalhas sangrentas”.
A Mestre
Jacques, ele acrescenta a seguinte nota:
“Arquiteto,
empreiteiro ou condutor das obras no Templo de Salomão ou, posteriormente,
Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários executado no século XIV”.
Novamente (De
la Réforme, p. 110), ao repetir um fragmento da lenda extraído de
Perdiguier, Moreau escreve:
“E
Mestre Jacques, onde se encontra a sua história? Até agora, o Sr. Perdiguier é
o único, creio eu, que entregou vários fragmentos à publicidade — fragmentos
que provavelmente lhe foram enviados pelos Compagnons du Devoir”.
Pode-se afirmar
que ele próprio [Moreau] parece ter pertencido originalmente aos Compagnons
du Devoir, de onde ele sugere que Perdiguier obteve a lenda.
“Contudo”,
escreve ele novamente (De la Réforme, p. 112), “o Compagnonnage existe, e ele
deve necessariamente ter uma origem da mais remota antiguidade, pois seus
costumes não pertencem ao nosso tempo. Não será mais razoável admitir aquela
outra tradição que faz o Compagnonnage du Devoir nascer em Orleans e o
do Devoir de Liberté em Chartres? É certo que os numerosos operários ocupados
na construção das majestosas catedrais da França possuíam Sociedades de auxílio
e de iniciações. Com o auxílio da organização, eles viajavam de um país para
outro. Pelas iniciações, eram classificados de acordo com seus talentos.
Portanto, é muito credível que no século XIII ou XIV, época em que as Catedrais
de Orleans e Chartres foram construídas, uma cisma ou rivalidade pudesse surgir
entre os operários dessas duas cidades quase vizinhas. Então, conduzidos por
Mestres ou condutores rivais, fosse por vaidade, interesse ou qualquer outra
causa, eles se dividiram e formaram duas sociedades. O que dá margem à crença
de que os Filhos de Salomão foram a parte dissidente é que eles se honram com o
nome de Compagnons du Devoir de Liberté, e que recebem
indiscriminadamente Compagnons de todas as religiões, ao passo que os
Compagnons du Devoir apenas recebem católicos. Esta crença é compartilhada por
muitos Compagnons, como o foi por Marseillais Bon-Accord, um Compagnon
Gavot Marceneiro”.
Marseillais Bon-Accord foi o autor da canção satírica sobre Mestre
Jacques e o Padre Soubise, a ser citada mais adiante, que menciona a jornada
deles para Orleans.
Deve-se lembrar
que Moreau descartou as lendas não por ser incapaz de descobrir que elas
realmente existiam no Compagnonnage, pois ele o admite, ao atribuir a lenda de
Mestre Jacques à divisão na qual se verá que Perdiguier diz que ela foi
preservada, mas porque descobriu que elas não estavam em conformidade com a
história, ou melhor, que não podiam ser encontradas nela de forma alguma. É,
portanto, imbuído desse espírito que ele escreve (Ib. 115):
“A
história burlesca de Mestre Jacques não passa de uma fábula inventada
propositalmente, em parte copiada da vida de Jesus Cristo; e, por fim, é em
Chartres e em Orleans que o Compagnonnage teve o seu nascimento.”
Um item que pode ajudar a chegar a uma data na história da lenda
dos Três Fundadores aparece no interrogatório perante os Doutores da Sorbonne,
entre 1651 e 1655.
Na obra de Pierre Lebrun (Histoire Critique des pratiques
superstitieuses, etc., Amsterdã, 1733-36), encontram-se os documentos tão
frequentemente repetidos, cujas traduções são fornecidas na History de
Gould (I. 233, etc.).
Lebrun faleceu em 6 de janeiro de 1729, com cerca de 67 anos de
idade.
A descrição das iniquidades praticadas pelos Alfaiates contém a
seguinte frase, relativa à forma de “passagem” (passer) dos compagnons:
“Eles lhe contam a história dos três primeiros compagnons, a qual é cheia de
impurezas”, etc.
Nas observações
sobre a resolução dos Doutores, lê-se:
“Deve
haver, além disso, escolas públicas de impureza, como parece que os compagnons
Alfaiates mantêm? Deve Jesus Cristo, morto uma vez por nossos pecados, ser
crucificado novamente por mãos sacrílegas e pelas ações execráveis desses
miseráveis, que representam novamente Sua Paixão em meio a potes e canecas?”
Eles são, então, acusados de imitar por escárnio o Sacramento, etc.
Naturalmente, estou ciente de que a frase acima pode referir-se à acusação
quanto ao Sacramento; mas se a lenda do Compagnonnage já existia na época, e
era considerada pelos Doutores como assemelhando-se em parte à vida de nosso
Senhor, o que sem dúvida seria explorado ao máximo, uma conexão diferente
poderia ser atribuída a ela.
Não vejo razão para assumir, como aparentemente Thory fez, que “os
três primeiros compagnons” mencionados no primeiro extrato fossem
necessariamente alfaiates. Eles eram, mais provavelmente, os três fundadores:
Salomão, Mestre Jacques e o Padre Soubise. Thory fala também das aventuras
obscenas dos supostos “três primeiros Alfaiates”; mas, novamente, as palavras
francesas impureté e écoles publiques d'impudicité, na boca de um
eclesiástico, são passíveis de outras interpretações.
Até agora, não
encontrei nenhuma lenda sobre três alfaiates, exceto aquela dos de Tooley
Street; mas existe uma rima de 1630 nas obras de Taylor (III., 73) que diz o
seguinte:
Algum patife tolo, creio eu, deu início outrora
À calúnia de que três alfaiates somam um homem só.
Se a sugestão acima for admitida, então a lenda certamente já havia
tomado forma na primeira parte do século XVII — antes de 1650.
Os que seguem
em posição de destaque, após os seguidores de Salomão, são os discípulos de
Mestre Jacques. Passarei agora a traduzir palavra por palavra do livro de
Perdiguier, sem fazer observações no texto, para não perturbar a ordem da
narração, limitando-me a ressaltar aqui que a questão sobre se existiam cópias
escritas desta Lenda do Compagnonnage está agora finalmente decidida. É
possível observar, no texto a seguir, que um manuscrito é mencionado
repetidamente:
“Mestre Jacques
é uma figura pouco conhecida; cada Sociedade criou sobre ele uma história mais
ou menos improvável; existe uma, contudo, que desfruta de uma autoridade
suficientemente grande junto a muitos Compagnons du Devoir. É dela que
extraio, sem alterar uma única palavra, os detalhes que se seguem.
Mestre Jacques,
um dos mestres principais de Salomão e colega de Hiram, nasceu em uma pequena
cidade da Gália chamada Carte, hoje Saint-Romili, situada no sul (ele era filho
de Jacquin, célebre arquiteto); dedicou-se ao corte da pedra; aos quinze anos
deixou sua família; viajou pela Grécia, então o centro das belas-artes, onde
acabou por associar-se ao filósofo.... de gênio distinto, que lhe ensinou
escultura e arquitetura; logo tornou-se famoso nessas duas artes.
Tendo
ouvido que Salomão havia feito um apelo a todos os homens célebres, passou ao
Egito e, de lá, a Jerusalém; a princípio não se destacou entre os operários;
mas, tendo recebido do mestre principal (premier maître) a ordem de
fazer duas colunas, entalhou-as com tanto gosto e arte que foi recebido como
mestre.”
Segue-se aqui
uma enumeração muito longa de todas as obras que ele realizou no Templo; depois
disso, acrescenta-se: [esta é a observação de Perdiguier, ele então prossegue
com a lenda]
“Mestre Jacques
chegou a Jerusalém aos vinte e seis anos; viveu lá por pouco tempo após a
construção do Templo; muitos mestres, desejando retornar aos seus países
natais, deixaram Salomão carregados de favores.
Mestre Jacques
e o Mestre Soubise retornaram à Gália; eles haviam jurado jamais se separar;
mas logo o Mestre Soubise, cujo caráter era violento, tornou-se ciumento da
influência que o Mestre Jacques adquirira sobre seus discípulos e do amor que
estes lhe devotavam, separou-se dele e escolheu outros discípulos. Mestre
Jacques desembarcou em Marselha e o Mestre Soubise em Bordeaux. Antes de
iniciar suas viagens, Mestre Jacques escolheu treze Compagnons e
quarenta discípulos; um deles o deixou, e ele escolheu outro; viajou durante
três anos, deixando em toda parte a lembrança de seus talentos e de suas
virtudes.
Um dia, estando
longe de seus discípulos, foi assaltado por dez discípulos do Mestre Soubise,
que desejavam assassiná-lo e, querendo salvar-se, ele caiu em um pântano, no
qual os juncos, ao sustentá-lo, protegeram-no dos golpes; enquanto esses
covardes buscavam meios de alcançá-lo, seus discípulos chegaram e o libertaram.
Ele retirou-se
para Sainte-Baume. Um de seus discípulos, chamado por alguns Jeron, por outros
Jamais, traiu-o e o entregou aos discípulos do Mestre Soubise. Certa manhã,
antes do nascer do sol, Mestre Jacques estava sozinho, em oração, em um local
habitual; o traidor veio até lá com seus algozes, deu-lhe, como era costume, o
beijo da paz, que era o sinal da morte; então cinco rufiões lançaram-se sobre
ele e o assassinaram com cinco punhaladas.
Seus discípulos
chegaram tarde demais, mas a tempo de receber seus últimos adeuses. 'Eu morro',
disse ele, 'Deus assim o quis; perdôo meus assassinos, proíbo-os de
persegui-los: eles já são suficientemente infelizes; um dia se arrependerão.
Entrego minha alma a Deus, meu Criador, e vós, meus amigos, recebei o beijo da
paz. Quando eu tiver me unido ao Ser Supremo, ainda velarei por vós; desejo que
o último beijo que vos dou, vós sempre deis aos Compagnons que
formardes, como vindo de seu pai; eles o transmitirão da mesma maneira àqueles
que formarem; velarei por eles como por vós; dizei-lhes que os seguirei por
toda parte enquanto forem fiéis a Deus e ao seu Devoir, e que nunca
devem esquecer...' Ele pronunciou ainda algumas palavras que não puderam ser
compreendidas e, cruzando as mãos sobre o peito, expirou, em seu quadragésimo
sétimo ano, quatro anos e nove dias após ter saído de Jerusalém, 989 anos antes
de Jesus Cristo.
Os Compagnons,
tendo retirado suas vestes, encontraram com ele um pequeno junco (jonc)
que ele carregava em memória daqueles que o havia salvado quando caiu no
pântano. Desde então, os Compagnons adotaram o junco. Ninguém sabe se o
Mestre Soubise foi o autor de sua morte; as lágrimas que derramou sobre seu
túmulo e as buscas que fez pelos assassinos removeram uma parte das suspeitas
que pesavam sobre ele. Quanto ao traidor, não tardou a arrepender-se de seu
crime e, no desespero que seu remorso lhe causou, atirou-se em um poço, que os Compagnons
encheram de pedras.
Tendo
Mestre Jacques terminado sua carreira, os Compagnons formaram uma
liteira e o carregaram para o deserto de Cabra, hoje Sainte-Magdeleine.”
Desejando ser
aqui mais exato do que nas edições anteriores deste livro, continuo a
transcrever a lenda do manuscrito [Perdiguier]:
“Eles
depositaram o corpo em uma gruta: os oito mais antigos permaneceram para
guardá-lo e embalsamá-lo, enquanto os outros buscavam tudo o que fosse
necessário para dar ao sepultamento toda a magnificência que esse grande
personagem merecia.
Os oito que
ficaram para embalsamá-lo despojaram-no de todas as suas vestes e, tendo-o
lavado com um extrato de muitos aromáticos, embalsamaram-no e, após terem-lhe
colocado vestes novas, colocaram-no sobre um leito onde ficou exposto durante
dois dias, à vista de todos os que desejavam ver os restos desse ilustre
mestre.
Durante esses
dois dias, os Compagnons que o guardavam mantiveram um fogo nos quatro
cantos do leito; este fogo era composto de resina e espírito de vinho. No
segundo dia, à noite, os Compagnons em luto profundo e luvas brancas
tomaram seu corpo e o colocaram em um caixão de madeira de cedro, com o rosto
exposto.
Quatro Compagnons,
com faixas azuis, carregavam o caixão, e outros quatro no mesmo traje seguiam
atrás deles para substituí-los. Outros quatro carregavam o pano funerário,
sobre o qual estavam todos os ornamentos misteriosos do Compagnonnage. Outro
carregava o acte de foi pronunciado pelo Mestre Jacques em sua recepção
em Jerusalém. Todos os Compagnons no cortejo tinham uma tocha acesa.
Outros dez, armados com bastões e alavancas de ferro, marchavam cem passos à
frente para evitar que alguém viesse perturbar essa cerimônia lúgubre.
Ao sair do
deserto, entraram em uma floresta chamada Vorem; o cortejo parou ali. Os Compagnons
aproximaram-se do corpo e, derramando lágrimas, beijaram uma de suas mãos
enquanto soltavam longos lamentos. Este lugar tomou o nome de Cinq-Doigts
[Cinco Dedos]. O cortejo retomou a marcha e parou quarenta braças adiante, em
um lugar chamado Molva, hoje Caverna de Saint-Evreux. Descobriram o corpo e o
mais antigo verteu vinho e óleo em suas feridas, e então as enfaixou. Terminada
essa cerimônia, retomaram a marcha. A cem braças adiante, pararam novamente:
era no centro da floresta; era meia-noite. Os Compagnons começaram a
rezar. Nesse intervalo, um vento terrível soprou; as tochas se apagaram e o
cortejo ficou na mais profunda escuridão; o trovão fez-se ouvir com estrondo, a
chuva caiu em torrentes. Os Compagnons aproximaram-se do corpo e
continuaram sua oração pelo restante da noite. De manhã, terminada a
tempestade, recomeçaram a marcha à primeira luz do dia, após terem lançado um
olhar de terror sobre este lugar, que tomou o nome de Remords [Remorso].
Tendo marchado quase quatrocentas braças, um desespero extremo forçou-os a
parar. Tendo colocado quatro Compagnons de guarda, fizeram uma busca por
comida. Foi este lugar que tomou o nome de Saint-Maximin. O cortejo partiu e,
rumando ao sul, parou em um lugar chamado Lavenel, hoje Cabane-Saint-Zozime, a
seiscentas braças de Saint-Maximin. Tendo reacendido suas tochas, recomeçaram a
marcha e não pararam até o local onde o Mestre Jacques havia sido assassinado e
onde desejara ser enterrado.
Antes de
baixarem o corpo ao túmulo, o primeiro deu-lhe o beijo da paz; cada um seguiu
seu exemplo, após o que, tendo-lhe tirado o cajado de peregrino, colocaram-no
novamente no caixão e o baixaram à sepultura; o primeiro desceu junto a ele, os
Compagnons cobriram-na com o pano; depois disso, tendo feito a guilbrette,
deram-lhe pão, vinho e carne, depositaram-nos no túmulo e saíram. Os Compagnons
cobriram o túmulo com grandes pedras e as prenderam com fortes barras de ferro;
então, tendo feito uma grande fogueira, lançaram nela suas tochas e tudo o que
fora usado nas cerimônias fúnebres de seu mestre.
As
roupas foram colocadas em uma arca. Na destruição dos templos, estando os
filhos de Mestre Jacques prestes a se separar, dividiram suas vestes, e elas
foram dadas assim:
Seu chapéu
aos Chapeleiros;
Sua túnica
aos Talhadores de Pedra;
Suas sandálias
aos Serralheiros;
Seu manto
aos Marceneiros;
Seu cinto
aos Carpinteiros;
Seu cajado
de peregrino aos Carpinteiros de rodas.
Não se verá sem espanto o cinto de Mestre Jacques caber aos
carpinteiros, filhos de Soubise.
No documento
curiosíssimo de que faço uso, encontra-se o ACTE DE FOI, pronunciado
pelo Mestre Jacques em sua recepção perante Salomão, Hiram e o Sumo Sacerdote (grand
sacrificateur), na presença dos mestres; este ato de fé é uma prece
belíssima, e eu a reproduzo aqui:
“Oh Deus!
Soberano todo-poderoso, senhor da terra, tu que vês todo o universo sujeito às
tuas leis, tu que com apenas um olhar poderias fazer a terra reentrar no nada
de onde a tiraste, eu te saúdo, rei dos reis: prostrado diante do trono de tua
majestade onipotente, agradeço-te pelo favor que me concedeste de poder
conhecer-te, amar-te e servir-te como o único e verdadeiro Deus do céu e da
terra.
Digna-te
conceder-me a sabedoria que outorgas aos teus eleitos, a fim de que eu possa
adorar o teu nome em qualquer lugar onde eu vá; que a estrela da manhã guie
meus passos ao deixar este templo erguido para a tua glória e construído por
nossas mãos. Levarei em minha alma a lembrança de tuas infinitas bondades e dos
favores que me concedeste. Voltando meus pensamentos e meus olhares para o
Oriente, tu receberás minhas preces como procedentes deste santuário. Tu me
verás reunir todos os meus filhos ao meu redor, e nossas oferendas subirão para
ti; se te forem agradáveis, tu te dignarás derramar tuas bênçãos sobre nós.
Mestre Jacques,
dirigindo-se a Salomão: Ó tu, grande rei a quem o Deus todo-poderoso concedeu o
dom da sabedoria, digna-te receber meu juramento:
Eu te juro
jamais adorar outro Deus além daquele que me fizeste conhecer, nunca receber
qualquer compagnon sem ter sondado o fundo de seu coração e sem o ter
feito passar pelas mais severas provações (épreuves). Faço agora a prece
para que possas viver em paz uma longa vida, e que possas ver tua posteridade
igualar as estrelas do firmamento”.
Aos mestres:
“E vós, filhos
da luz, vede em mim o vosso igual e o vosso amigo.
O Deus dos
deuses, o rei dos reis, aquele que governa o mundo, este Deus de poder e de
bondade, concedeu-me hoje a graça de ver a verdadeira luz, que me destes em Seu
nome.
Juro seguir
sempre as leis divinas que me destes a conhecer, partilhar os vossos
sofrimentos e os vossos trabalhos, estimar-vos e amar-vos como meus irmãos.
Verdadeiros
eleitos do verdadeiro Deus, discípulos escolhidos do mais sábio dos reis da
terra, recebei o juramento que vos faço hoje.... Agradeço-vos pelo favor que me
fizestes ao receber-me entre vós.
Que o meu
sangue pare em minhas veias, que o frio da morte congele os meus sentidos, que
a minha visão se apague, que o meu corpo fique paralisado, que a minha alma
deixe a morada que Deus lhe deu e que eu me torne alimento para as feras
selvagens, se eu me tornar perjuro ao juramento que pronunciei.
E tu, grande
sacrificador, oferece a Deus os meus juramentos; roga-lhe em sua misericórdia
que os aceite; sacrifica para Ele esta novilha branca em ação de graças pela
felicidade que Ele me concedeu neste dia.
Unamos todos os
nossos desejos para que Deus nos conceda a todos paz, amor, prosperidade e
felicidade, bem como o poder de fazer com que o mundo inteiro adore o Seu santo
nome. Amém.”
Terminamos com
o juramento de um aspirante ao ser recebido:
“Juro
pelo Deus que adoro, pela alma que me dá vida, pelo sangue que corre em minhas
veias, por este coração que bate dentro de mim, guardar com constância,
perseverança e firmeza o segredo que me foi confiado; amar o meu próximo como a
mim mesmo, punir o traidor e sustentar o Devoir até a última gota do meu
sangue.”
Assim termina o
texto conforme fornecido por Perdiguier. Adicionarei agora algumas notas sobre
o Mestre Jacques e o Padre Soubise. Moreau (Un mot, etc., p. 16 e, De
la réforme des abus du Compagnonnage, 1843, p. 98) diz:
“Em oposição a
Salomão, Mestre Jacques, dizem as antigas tradições, fundou outro Compagnonnage
para vingar-se de certas injustiças que Salomão lhe fizera em relação às obras
que ele havia executado em seu templo.
Esta é a
opinião declarada pelos seguidores de Salomão. Cada um contesta com o outro a
honra de ser o mais antigo e de ter preservado o verdadeiro Compagnonnage.”
(Un
mot, p. 16.)
“Além disso, os
Compagnons dizem que Salomão era um rei, e Mestre Jacques um arquiteto
de seu Templo.
Quanto a este
último, busca-se por ele em vão na história; mas existem tradições antigas no
Compagnonnage, ou melhor, fábulas mais ou menos grotescas, que dizem ter sido
ele o arquiteto ou mestre de obras (entrepreneur) de uma parte do Templo
de Salomão, que ele teria instituído o Compagnonnage a fim de permitir aos
operários defenderem seus interesses, e que, mais tarde, ocorreram disputas
entre ele e Salomão; isso deu origem aos Compagnons étrangers, que
também foram formados em um Compagnonnage, em oposição aos do Devoir.”
(De
la réforme du C., 103.)
“Os Devoirants
pretendem que Salomão foi um traidor, e que Mestre Jacques foi um arquiteto
célebre, um artista e um homem santo; por outro lado, os Gavots
pretendem que Salomão foi o mais virtuoso e o mais sábio de todos os reis, o
maior legislador e protetor das artes.” (Ib. pp. 103-4.)
A identificação do Mestre Jacques da lenda com Jacques de Molay, o
último Grão-Mestre histórico dos Templários, é, sem dúvida, muito tentadora,
tanto pelo nome — um, o Grão-Mestre Jacques, o outro, Mestre Jacques, quanto
pelo fato de ambos estarem associados a um Templo.
É uma opinião sugerida por Perdiguier na seção ao final do segundo
volume, intitulada “O Compagnonnage: O que foi, o que é e o que
deveria ser”. Nela, ele considera a veracidade da lenda de que a Sociedade
teve sua origem no Templo de Salomão, conforme afirmado pelos Compagnons.
Ele cita os Essênios, Terapeutas, etc., como tendo costumes semelhantes;
menciona muitos dos edifícios célebres, igrejas, etc., do mundo, e finalmente
decide que, se o Compagnonnage não foi inventado na construção do Templo, foi
ali que ele recebeu forma e tornou-se uma organização perfeita.
Após citar a Bíblia em referência a Davi e Salomão, ele conclui que
todos os construtores reunidos eram fenícios. Eles vagavam para o norte e para
o sul, para o leste e para o oeste, onde quer que fossem necessários para
grandes construções, possuindo regras e uma organização. Este, diz ele, era o Compagnonnage
da Antiguidade.
Quando, em
1095, os Cruzados partiram para a Terra Santa (resumo muito brevemente o seu
argumento), na mesma época em que as Ordens dos Cavaleiros de São João,
Templários, etc., foram formadas em Jerusalém; os operários franceses adotaram
lá, tanto a arte da construção quanto as leis, usos, etc., do antigo Compagnonnage
que encontraram naquele lugar, e o cristianizaram um pouco.
“Os talhadores
de pedra formaram-se primeiro em Sociedade; eram os Compagnons Étrangers
e filhos de Salomão; os marceneiros ou carpinteiros das florestas, e os
serralheiros, ainda chamados de ferreiros, seguiram-nos de perto; eram Compagnons
de la Liberté e reconheciam também Salomão como seu pai.”
(II.
244)
O título Estrangeiros, ele sustenta, era adequado tanto outrora
quanto agora à vida errante; o de Liberté (Liberdade), em um país de
escravos, significava que eles eram livres. E, assim, ele compara estes últimos
com os Masons Francs, ou Francs-Maçons da Alemanha.
Tendo assegurado essa nomenclatura equivocada, seu argumento parece
plausível; mas parece provável também que os marceneiros não fossem menos
sedentários ou mais livres do que os pedreiros. Assim, diz ele, foram os
talhadores de pedra, os carpinteiros da floresta e os ferreiros introduzidos na
França.
Outra comparação é traçada entre os costumes dos pedreiros alemães
de Estrasburgo e Colônia e o Compagnonnage, citando como autoridades Lebas,
Stieglitz e l'Univers Pittoresque, dos quais ele extrai longas citações.
Os talhadores de pedra Estrangeiros, os marceneiros e os
serralheiros da Liberdade, são todos chamados de companheiros livres;
viviam unidos como bons irmãos e estiveram, por muito tempo, sem competidores e
sem rivais, até que ocorreu uma secessão, tanto entre os primeiros quanto entre
os segundos.
Foi dito que este grande rompimento da associação de operários
ocorreu durante a construção das Torres de Orléans, no final do século XIII.
Aqueles que discordaram da fundação original das duas associações
foram acolhidos sob a proteção de Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários.
Sabe-se que os Templários introduziram formas místicas na França e que Salomão
e seu Templo desempenharam um papel em suas cerimônias. Jacques de Molay,
então, chamou a si os dissidentes e os organizou em três novas associações.
Este é, brevemente, o arranjo estabelecido por Perdiguier para
introduzir Jacques de Molay; e esta derivação dos, ou mobilização pelos,
Templários tem sido repetida com frequência. Simon compara as vidas do
Grão-Mestre e do Mestre, mas, em minha opinião, suas identificações — assim
como aquelas apresentadas pelo Ir. Gould (Hist. of F. M., I., 245) — são
inteiramente insustentáveis. Elas exigem uma quantidade desnecessária de
simbolismo comparado, um simbolismo que não seria de modo algum esperado.
Parece-me que a ideia de conectar tanto o Compagnonnage quanto a
Maçonaria aos Templários é de data recente, e teve sua origem, talvez, quando
se desejou uma origem mais aristocrática do que a derivação mais natural e,
como acredito, correta, embora prosaica e humilde, das guildas de ofício.
É verdade que, durante a perseguição ao Compagnonnage no século
XVII, um grupo deles ligou-se ao Templo em Paris, e isso pode ter dado a ideia
da derivação; mas foi como um Santuário. Além disso, não posso deixar de pensar
que as guildas de ofício de Paris, incorporadas ou, como eles dizem, “organizadas
em estandartes” por Luís XI em 1467, guardavam a mesma relação com o Compagnonnage
comum que a Masons Company de Londres (incorporada ou, ao menos,
agraciada com brasões por Eduardo IV em 1472-3), assim como possivelmente as
companhias de pedreiros em outras grandes cidades, guardavam para com as
antigas Lojas de Maçons Livres espalhadas por todo o país, das quais se
encontram menções ocasionais e de cuja não-conexão com as companhias de
pedreiros existem provas evidentes.
O Padre Soubise desempenha, como se terá notado, um papel muito
pouco importante no drama acima citado. Ele aparece subitamente a serviço de
Salomão com Mestre Jacques, tendo ambos vindo da Gália, para onde retornaram
juntos. Ele torna-se invejoso de Mestre Jacques, eles se separam e ele
desembarca em Bordeaux. Aparentemente, seus discípulos ou alunos, seja por sua
instigação ou não, tentam e, finalmente, conseguem assassinar seu rival; e ele
faz com que sejam perseguidos, mas não ouvimos nada sobre o resultado. O
traidor Jéron, ou Jamais, atira-se em um poço, que é preenchido com pedras
pelos Compagnons — podemos concluir que por aqueles enviados em
perseguição.
A derivação do nome Soubise do deus Sabázio, eu descarto
imediatamente. Aceitá-la daria à lenda uma antiguidade que não estou preparado
para acreditar, ou atribuiria aos seus compositores uma quantidade de
simbolismo místico da qual não os creio capazes, a menos que seja muito mais
moderna do que suspeito. O nome é claramente puramente francês; era o de um
distrito e de uma família nobre bem conhecidos, e foi usado por Charles de
Rohan, Príncipe de Soubise, e seu irmão, o Cardeal de mesmo nome, que foi realmente
o “Padre” (Père) Soubise.
Nenhuma história é fornecida sobre este personagem nas lendas, mas
Perdiguier afirma (II. 255) que ele é suposto por alguns como tendo sido um
monge beneditino. Ele mesmo declara sua crença de que Jacques e Soubise apenas
conheceram a capital da Judeia no século XIII e como monges franceses; ele
também nos informa que esta é a divisão mais moderna do Compagnonnage.
Somente eles ostentam o nome de “Carpinteiro”, e seus trabalhos
parecem ter sido ligados às florestas, lenhadores, de fato.
Ao classificar
Soubise em seu devido lugar nas histórias dos três fundadores, Perdiguier diz (Livre
du Compagnonnage, I. 40):
“Resta-me
agora falar do Padre Soubise, mas, não possuindo nenhum documento de valor
sobre este fundador, não posso cumprir minha tarefa como desejaria. Certos
carpinteiros protestaram contra o papel atribuído ao Padre Soubise na vida de
Mestre Jacques... Que eles fiquem assegurados, de nossa parte, que não sabemos
mais sobre o assassinato de Mestre Jacques pelo Padre Soubise do que sobre o
assassinato de Hiram pelos Compagnons étrangers. Não desejamos o ódio,
mas sim amor e simpatia entre todos as corps d'états (corporações de
ofício) e em toda parte. Um companheiro carpinteiro deu-me uma vida do Padre
Soubise; era um romance moral e, além disso, uma glorificação do autor... sobre
o qual eu não poderia me deter no momento presente com qualquer proveito”.
Sobre o Reverendo
Padre Soubise, como ele o chama, Moreau diz muito pouco. Em uma nota (De
la réforme, p. 110):
“O
Padre Soubise, ou Mestre Soubise, é também, até certo ponto, considerado um
fundador. Os carpinteiros compagnons passants ou Bonsdrilles eram
seus filhos. Eles receberam os telhadores e os gesseiros; mas, como estes
também são chamados de Devoirants e estão sob a bandeira de Mestre
Jacques, a quem respeitam e honram” etc.
Isso é singular, mas deve-se lembrar que, na lenda, o cinturão de
Mestre Jacques foi entregue aos carpinteiros.
É interessante notar que Mestre Jacques, no desenho fornecido por
Perdiguier dos Compagnons deixando a Judeia para se espalharem pelo
mundo, está trajado com vestes eclesiásticas; ao passo que o Padre Soubise é
representado com as vestes simples de um monge peregrino, com seu cajado na
mão. Isso, ao menos, pode ser tomado como uma demonstração da diferença entre
os dois, tal como era entendida no Compagnonnage ao tempo de Perdiguier.
Uma das canções
satíricas pode ser citada:
“Na época em
que a fortuna cega apoderou-se do universo, que uma expressão comum denominou
'a idade do ferro', Mestre Jacques, aqui na terra, sem dinheiro e sem cérebro,
não sabendo como viver, fundou um outro Devoir.
Associado ao
velho Soubise, esses fundadores itinerantes, para venderem sua mercadoria,
partiram para Orléans. Não tendo meios de subsistência pelo caminho,
tornaram-se ladrões de bolsas, por medo de morrer de fome.
Nossos dois
fazedores de caretas, logo nesta cidade, expuseram seus mistérios e segredos
nas praças. Desde esse tempo, proliferou na cidade de Orléans toda sorte de
imbecis, etc.”
(Livre
du C., I. 78)
Assim termina, por ora, meu relato sobre estas interessantes lendas. Neste artigo, limitei-me propositalmente ao assunto específico e toquei apenas de leve nas opiniões de meus predecessores e em diversos temas que são dignos de consideração; meu esforço consistiu simplesmente em narrar as lendas conforme descritas pelos membros do Compagnonnage. Argumentos extensos aqui teriam sido apenas causa de confusão, e podem muito bem aguardar por alguma outra ocasião, quando espero poder retomar o tema do Compagnonnage e tentar acrescentar um pouco mais à sua história.
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