AS LENDAS DO COMPAGNONNAGE

 Extrato da ARS Quatuor Coronatorum Vol. 1 Pt. 1 de 1886
Pesquisa elaborada pelo irmão William Harry Rylands
lida na Loja Quatuor Coronati nº 2076 em Londres 
Traduzido por Samuel Benedicto

  

A

 

 

o ler, alguns anos atrás, a obra póstuma de Arthur Dinaux intitulada Les Sociétés Badines, duas das irmandades ali mencionadas atraíram particularmente a minha atenção. Para a compilação de uma história sobre elas, venho, há algum tempo, reunindo livros e notas; proponho-me agora a considerar uma pequena parte da história de uma delas — a outra, que também não deixa de ter seu interesse, deve ser deixada para uma ocasião futura.

Primeiramente, a título de desculpa pela falta de fluidez que possa ser observada em algumas partes deste artigo, devo dizer que ele foi composto sob considerável dificuldade e em momentos nos quais eu estava longe de gozar de boa saúde. Além das dificuldades de selecionar [o conteúdo] em meio a uma massa de notas, tive que lidar com uma pressão de trabalho maior do que a comum, e o tempo que pude dedicar a este texto foi, em sua maior parte, roubado daquelas horas durante as quais a superstição popular diz ser melhor estar dormindo.

Para o benefício daqueles cujos estudos maçônicos não foram direcionados a esta parte do tema, devo dizer que, por Compagnonnage, entende-se aquele vasto corpo de operários qualificados na França, abrangendo quase todo tipo de ofício, que, tanto antigamente quanto em tempos modernos, realizava o que se chamava de Tour de France. Ao seguir os limites prescritos deste itinerário e ao subir degrau por degrau na Fraternidade, o operário ganhava crédito e experiência adicionais, qualificando-o, por fim, a assumir seu lugar na liderança de seu ofício.

O seguinte resumo, extraído da obra de Perdiguier, apresenta na forma mais breve possível as grandes divisões da Sociedade.

O Compagnonnage reconhece três fundadores principais; ele forma muitos Devoirs e divide-se em muitas Sociedades. Os pedreiros (tailleurs de pierre), denominados Compagnons Étrangers [Companheiros Estrangeiros], também chamados de Loups [Lobos], os marceneiros e serralheiros do Devoir de Liberté, chamados de Gavots, reconhecem Salomão; e dizem que este rei, para recompensá-los por seus labores, deu-lhes um Devoir e uniu-os fraternalmente nos recintos do Templo, obra de suas mãos.

Os pedreiros (tailleurs de pierre), denominados Compagnons Passants e chamados de Loups-Garous [Lobisomens]. Os marceneiros e serralheiros do Devoir, chamados de Dévorants, também pretendem que descendem do Templo e que Mestre Jacques, famoso condutor das obras naquele edifício, os fundou.

Os carpinteiros, Compagnons Passants ou Bons-Drilles, reivindicam a mesma origem que o último grupo; eles também descendem do Templo, e o Padre Soubise, renomado na carpintaria, foi o seu fundador.

Não é necessário, no momento, fazer mais do que apresentar o breve esboço acima sobre o Compagnonnage. Na época em que Perdiguier escreveu, ele incluía quase todos os ofícios; um por um, eles haviam se afiliado aos três principais Devoirs.

Esta palavra Devoir [Dever], que ocorrerá constantemente, pode necessitar de uma pequena explicação. Ela possui, em francês, muitos significados — por exemplo: dever, comportamento, tarefa, exercício — e pode significar também dívida.

Perdiguier nos informa que o Devoir é um código, e parece evidente que ele incluía certas regras, mas não é minha intenção agora discutir sua real significação. Devo, no entanto, mencionar que discordo inteiramente do Ir. Gould quando ele afirma que o Devoir correspondia aos manuscritos das “Old Charges” dos Maçons. É uma dúvida em minha mente se ele chegou a ser escrito, e, se o foi, duvido muito que contivesse qualquer parte da história lendária do Compagnonnage.

Para o propósito atual, será suficiente aceitar a explicação de Perdiguier de que se trata de um código, isto é, leis de governo.

Conectar a Maçonaria a este corpo de operários não é, de modo algum, uma ideia nova, mas tal comparação tem sido, em sua maior parte, restrita aos escritores franceses. Em nosso próprio país, uma menção a isso ocorre aqui e ali: Heckethorn, em seu Secret Societies, e Mackey, em sua Encyclopedia, dedicam-lhe um pequeno espaço, mas os pontos principais não foram apresentados em detalhes até que aparecessem no primeiro volume da History of Freemasonry do Ir. Gould.

Não se deve esquecer, como o Ir. Gould já salientou, que Perdiguier (de cuja obra Le Livre du Compagnonnage obteve-se a maior parte do que se conhece sobre as lendas para qualquer um que considere o assunto) era por demais consciencioso para expor qualquer um dos segredos, e escreveu sobre o Compagnonnage como um bom Maçom escreveria sobre a Maçonaria. Ele conta sua história de uma maneira direta e objetiva, mas é de se lamentar que, ao fazer o seu Tour de France, ele não tenha absorvido um pouco mais de arqueologia aliada à sua filantropia.

Tudo o que ele publicou, podemos razoavelmente concluir, era considerado propriedade comum e, diretamente, de pouca ou nenhuma importância no que diz respeito aos verdadeiros mistérios de sua ordem.

Ele foi seguido por Moreau e outros; de fato, o livro de Perdiguier parece ter dado origem a toda uma literatura sobre o assunto. Deve-se lembrar que seu único objetivo era a regeneração da ordem, ao destruir o que ele considerava serem os abusos no sistema, hábitos e costumes antigos transmitidos, mas mal adaptados aos tempos modernos. Ele não tinha a intenção de fornecer uma história detalhada da Sociedade, mas simplesmente, na medida em que era necessário para seu propósito, considerou as lendas, maneiras e costumes tal como os encontrou.

Sua obra aumentou gradualmente de tamanho desde sua primeira edição em 1839, mas mesmo todos os seus esforços para torná-la mais valiosa para seus irmãos falharam em reunir um relato adequado das várias lendas existentes nos diferentes Devoirs. Algumas delas aparecem apenas em referências esparsas e meros fragmentos de informação; perceber-se-á, portanto, quão difícil é, sem declarações mais definitivas, decidir qual era ou não a forma de algumas das supostas lendas. Uma acusação feita contra ele por um de seus correspondentes foi a de que ele não havia publicado algumas das antigas canções do Compagnonnage. É lamentável que não o tenha feito, pois elas poderiam ter rendido alguma informação sobre o assunto.

C. G. Simon, em sua obra Étude Historique et Morale sur le Compagnonnage (Paris, 1853), informa-nos que seu trabalho é o resultado de muito estudo e de uma vasta correspondência; mas, em minha opinião, o resultado está muito longe de ser proporcional ao grande esforço que supostamente exigiu. Nela ocorrem algumas questões importantes que são difíceis de verificar e, por outro lado, algumas não são mencionadas, as quais seria justo esperar que ali encontrassem lugar.

Posso citar quase as primeiras linhas de seu livro — palavras de um autor não menos distinto que Charles Nodier, as quais mostram o valor atribuído à “Teoria do Compagnonnage”:

“As sociedades de ofícios são provavelmente tão antigas quanto os próprios ofícios. Encontram-se traços de sua existência e de sua ação em todas as histórias. A Maçonaria não é outra coisa, em sua origem como em seus emblemas, senão a associação dos operários pedreiros ou construtores, completa em seus três graus: o aprendiz, o companheiro e o mestre; e a origem real da Maçonaria é o Compagnonnage.”

Não preciso citar mais nada para o propósito atual, exceto dizer que Simon olha para a Sociedade Francesa como “a criança degenerada” e acrescenta: “Pesquisar a origem primitiva do Compagnonnage é, portanto, pesquisar a origem dos Maçons”.

Esta, uma das muitas origens da nossa Sociedade, como outras que brilharam intensamente em seu tempo, temo que, como origem direta, deva ser abandonada tal como elas. Ao mesmo tempo, não se deve esquecer que pode ter havido e, de fato, deve ter havido, durante as constantes conexões por paz e guerra entre a Inglaterra e a França, pontos de contato abrangendo um período considerável de tempo, nos quais haveria possivelmente não apenas a introdução de regras de ofício de um para o outro, mas também o intercâmbio de práticas cerimoniais. Daí surge o valor de todas as coleções de fatos que lançam luz sobre as leis das guildas de ofícios e das sociedades secretas.

A lenda da qual apresento aqui uma tradução nunca apareceu, tanto quanto pude descobrir, em uma forma tão perfeita, exceto no livro do qual a obtive. Nenhum autor, francês ou inglês, que tenha tratado do assunto e que tenha chegado ao meu conhecimento, parece ter tido ciência de sua existência. Fragmentos dela apareceram ocasionalmente, mas as partes que eram consideradas mais interessantes e de maior valor não foram fornecidas. Isso, suponho, deveu-se ao fato de se acreditar que os esforços literários de um Marceneiro francês deveriam ter se esgotado em uma segunda edição. Mas não foi o caso. Após deixar a França, Perdiguier dedicou-se ao seu tema e publicou vários livros, entre outros, uma terceira edição de sua obra sobre o Compagnonnage, lançada em 1857, da qual obtive a conclusão da história.

Quanto à decisão final de que a “teoria do Compagnonnage” é simplesmente uma opinião com o mesmo valor que algumas outras teorias, muitos podem pensar de forma diferente de mim. Mas, seja qual for a decisão, não se pode ignorar, como Gould disse, que, ao examinar todo o sistema, há mais do que uma mera semelhança de costumes de ofício. É desnecessário entrar nesse assunto aqui, pois, mesmo que fosse desejável, estaria fora do objetivo presente. Muitos dos costumes correspondentes já foram revisados e discutidos na parte da História do Ir. Gould já referida, tendo ele sido precedido por Simon.

O Templo de Salomão foi a fonte primordial, como se verá. Mas, quer se estabeleça ou não uma conexão entre o Compagnonnage e a Maçonaria, é particularmente interessante ter outra lenda de construção distinta, mencionando a maneira da suposta introdução das artes da construção na França — uma lenda também acreditada na medida em que tais compilações costumam ser, e nas mãos da Sociedade que emprega essas artes naquele país.

Devo salientar, no entanto, que embora a história francesa contenha uma parte de tal história lendária, e a mesma ideia, até certo ponto, permeie ambas, a mais ampla distinção deve ser feita entre a lenda francesa e a inglesa, conforme apresentada em nossas Old Charges. É verdade que ambas se esforçam para reivindicar uma origem antiga e respeitável, não apenas para a Sociedade em si, mas para suas regras, formuladas e concedidas, em cada caso, por uma ou mais celebridades da história antiga, datando de um suposto momento de fundação formal.

A diferença interna e principal é, todavia, marcante e não deve ser ignorada. Enquanto as “Old Charges”, seguindo de perto as linhas das antigas crônicas, apresentam uma descendência lendária mais ou menos completa da arte da construção desde a criação do mundo até os tempos históricos; a lenda do Compagnonnage, pelo contrário, fornece apenas o suficiente dessa descendência para o propósito da narrativa, começando quando o Templo de Salomão foi concluído, sendo a maior parte da história dedicada ao que poderia, até certo ponto, ser comparado às “Vidas dos Santos”.

Um personagem, Mestre Jacques, destaca-se proeminentemente em sua vida e morte, embora outros personagens apareçam desempenhando papéis mais ou menos importantes neste drama fundamental. Cada um assume seu devido papel, é verdade, mas todos são subordinados à história desse único homem, e pouco ou nada se diz sobre a história deles além do que é absolutamente necessário para sustentar os pontos principais do relato.

Mesmo o próprio Perdiguier, um membro do Compagnonnage, a menos que sua reticência seja uma questão de honra, o que duvido muito, pouco pode acrescentar. Como já salientado, ele parece ter dedicado muito esforço bem direcionado para coletar informações e dominar o assunto, mas sem sucesso. A tentativa de compor uma história, que ele inseriu no segundo volume de sua obra, é pouco mais do que várias afirmações mais ou menos confiáveis extraídas dos livros que ele pôde examinar; o restante consistindo em suas próprias teorias, comparações e deduções. Do próprio Compagnonnage, ele aparentemente não conseguiu obter mais nenhuma informação. Por esta razão, entre outras, inclino-me a pensar que esta lenda de Mestre Jacques é a única história escrita fabulosa possuída pelo Compagnonnage. É possível que a forma mais antiga reivindicasse origem simplesmente em Salomão, Hiram e no Templo. Que em algum período, como sugerido por Simon, o despretensioso, embora distinto, homem Hiram, o Construtor (talvez com uma lenda), tenha cedido lugar e sido ultimamente superado pelo Real Salomão.

É provável também que, em um tempo ainda mais tardio, a lenda de Mestre Jacques tenha sucedido a anterior em forma de lenda ou, retendo o fato único da construção do templo, tal como é apresentado agora, tenha sido compilada para atender aos requisitos de outro ramo da Sociedade. O próprio Perdiguier diz, como se verá, que cada Sociedade criou para si uma história, mais ou menos semelhante.

Vale a pena notar que no MS. Adicional 23198 (Manuscrito Cooke) diz-se (fol. 19. l. 421, etc.) que “vimos” a história de Euclides escrita tanto em latim quanto em francês em nossas Charges. Novamente (fol. 24, l. 465, etc.), Salomão confirmou as cartas de Davi aos Maçons e ele próprio ensinou-lhes “costumes” — “E de lá essa digna ciência foi trazida para a França”, ou seja, de Salomão e do Templo. Afirma-se que isso está registrado em outras crônicas e “velhos livros de maçonaria”, e a lenda é seguida com mais ou menos diferença nas várias cópias das Old Charges. A versão francesa, como se verá, supera a dificuldade ao situar a fundação de Marselha algumas centenas de anos antes do que ocorreu. A inglesa a contorna fazendo com que “Naymus Grecus” viva do tempo de Salomão até o tempo de Charles Martell.

Pela lista apresentada acima, é possível observar que os pedreiros compagnons étrangers, aqueles trabalhadores da Fenícia e, por isso, chamados de estrangeiros, figuram em primeiro lugar na lista dos filhos de Salomão. Perdiguier afirma (II. 252) que esta é uma organização raramente contestada. Os serralheiros, seguidores de Jacques, frequentemente lhe diziam, segundo ele, que reconheciam esse corpo como o pai do Compagnonnage. E inclino-me a concordar com ele que uma Sociedade deve ter sido a primeira a ser capaz de tomar Salomão como seu fundador; também supondo que os filhos de Jacques tivessem existido sozinhos, e que uma pequena seção tivesse tomado subitamente, no século XII ou XIII, o pomposo título de “Filhos de Salomão”, eles teriam simplesmente tido uma morte natural pelo ridículo.

Infelizmente, se existiu qualquer lenda de Salomão além dos fatos históricos comuns, muito pouco dela pode ser recuperado agora. Os seguidores de Salomão alegavam ter recebido seu devoir dentro dos recintos do Templo. Das outras divisões, dizem-nos apenas que saíram do Templo quando este foi concluído e foram fundadas pelo Condutor das obras, Mestre Jacques, e por um mestre muito habilidoso em carpintaria, o Padre Soubise.

É possível notar que, em alguns pontos da lenda, o título deste último é alterado de père [padre] para maître [mestre].

Esses fundadores, (seguindo a lenda), estando todos empregados juntos no Templo, devem ter recebido a princípio o mesmo devoir de Salomão. Esta ideia de uma fundação e um devoir originais e únicos é mencionada em uma das canções apresentadas por Perdiguier (II. 112), onde se afirma:

“Nossos fundadores em seus sínodos, Jacques, Soubise e Salomão, pensavam da mesma maneira quando escreveram seus Códigos. Se, portanto, estamos em consciência sujeitos às mesmas leis; doravante, no Tour de France, comportemo-nos como amigos.”

E sobre os vários caracteres atribuídos aos três fundadores, outra canção (II. 118) parece expressar a opinião corrente:

“De Salomão a sabedoria é louvada, ele é um digno governante dos Compagnons. De Mestre Jacques a ternura é conhecida, e de Soubise conhece-se o sentimento.”

Em uma canção (Volume I, p. 157) com referência ao Templo de Salomão, ocorre o seguinte:

“Templo erguido para nossos primeiros mistérios, é do teu seio que os homens piedosos a quem chamamos nossos primeiros pais nos legaram os meios de sermos felizes, etc.”

Novamente (Volume I, p. 160):

“Salomão, por sua grande sabedoria, foi um modelo para o mundo; cantemos, pois, com alegria este belo nome que nos é tão caro. Ele fundou nosso Compagnonnage para recompensar nossos labores.”

Há uma canção (Volume I, p. 190) que pode fornecer uma parte da lenda de Salomão. Ela fala dele como “o primeiro Arquiteto do mundo, e o primeiro autor da construção. Ao dar aos teus filhos, os cortadores de pedra, o compasso e os lápis, e a amizade como de irmãos”, etc.

Novamente (Volume I, p. 208):

“Oh supremo Compagnonnage, a Judeia viu o teu nascimento. Prestes a perecer em um naufrágio, o Eterno salvou o teu navio; e logo uma margem feliz viu a tua tocha”.

Aludindo talvez à viagem por mar da Judeia para a França, se for algo mais do que mera imaginação poética.

“Jerusalém, cidade da Judeia, morada resplandecente de nosso fundador; em teus arredores, junto à tua ruína sagrada, brilhou a altura do Monte Moriá. Lá foi construído o Templo da glória, e por Hiram tudo foi dirigido. Todos os seus labores descansam na memória dos Compagnons du Devoir Estrangeiros. Nosso grande Rei, aquele monarca sublime, desejou finalmente recompensá-los, confiar-lhes um segredo, uma marca [marque, um selo, distintivo ou sinal], e dar-lhes o Santo Devoir. Todos eles juraram, em suas almas arrebatadas, ao pé do trono, no seio da justiça, nada dizer, sob o risco de suas vidas, sobre qualquer segredo do Devoir Estrangeiro ... Em pouco tempo, sob o céu da França, vê-se crescer esta estrela resplandecente, toda florescente... etc. Compreendam, vinte e oito séculos testemunharam os verdadeiros filhos do sábio Salomão.”

Novamente (Volume I, p. 213):

“Este Rei vigia a cada instante nossos voos no Tour de France. O Templo recebeu nossos juramentos, e Salomão nossos votos fiéis.”

Novamente em uma canção dos Passants (Volume I, p. 214):

“Ao vagar pelos quatro cantos do globo, se perderes a estrela do Oriente, o curso vagabundo do Compagnon parece enfrentar todos os problemas... etc.”

Outro dos [Pedreiros] Estrangeiros possui (Volume I, p. 216):

“Contemplai a estrela brilhante, ela vos apontará o distante Oriente, e parece estar turva, próxima a uma nuvem transparente. No horizonte brilhante de fogo, Hiram, com um compasso em sua mão, parece traçar para vós o contorno das margens e das ribanceiras do Jordão.”

Perdiguier diz que não pretende rastrear as divisões do Compagnonnage até sua origem, mas dedica algumas páginas aos três fundadores. Sua 'Vida de Salomão', incluindo cópias das cartas trocadas entre aquele Rei e Hiram de Tiro, é simplesmente o que qualquer pessoa poderia obter. Em uma nota sobre a carta do Rei Hiram, na qual este diz: “Envio-vos um homem perito e habilidoso”, Perdiguier acrescenta: “Este homem perito e habilidoso é, sem dúvida, aquele outro Hiram, que é considerado um dos Arquitetos do Templo”.

Sua reticência, embora eu duvide, pode ser devida ao fato de que ele mesmo pertencia aos seguidores de Salomão e, portanto, não se sentiu compelido a detalhar qualquer parte da lenda pertencente a essa divisão. As informações fornecidas sobre Salomão, como se verá, concentram-se em um único fato. Outra menção referente a Hiram será notada em suas observações sobre a lenda do Padre Soubise, onde se diz que eles teriam sido colegas no Templo.

Perdiguier diz também que Mestre Jacques era um colega de Hiram (Vol. I, p. 34); o assassinato de Hiram é mencionado (Vol. I, p. 40). Novamente, na mesma página, ao descrever os Enfants de Salomon (Filhos de Salomão), cortadores de pedra, ele diz:

“Os cortadores de pedra, Compagnons Estrangeiros, chamados les Loups (os Lobos), passam por ser os mais antigos no Compagnonnage. Existe entre eles uma antiga fábula na qual se questiona Hiram, segundo alguns, ou Adonhiram, segundo outros; nela há crimes e punições: mas deixo esta fábula pelo valor que ela possa ter”.

Ele afirma (Volume I, p. 45) que o nome “Estrangeiros” (Étrangers) adveio do fato de que quase todos os cortadores de pedra empregados no Templo não eram da Judeia, mas de Tiro e dos países vizinhos, e que a Sociedade consistia exclusivamente neles em tempos antigos.

Os Marceneiros do Devoir (Menuisiers du Devoir), filhos de Mestre Jacques, nos é dito (Volume I, p. 46), usam luvas brancas porque, como dizem, não mergulharam suas mãos no sangue de Hiram.

Ao explicar a palavra Chien [Cão], pertencente a todos os Compagnons du Devoir (Volume I, p. 61), ele diz acreditar-se, por alguns, que ela deriva do fato de ter sido um cão quem descobriu o local onde o corpo de Hiram, Arquiteto do Templo, jazia sob os escombros, e que, após isso, todos os Compagnons que se separaram daqueles que haviam matado Hiram foram chamados por este nome de Chien, ou cão.

Na lenda do assassinato de Hiram, a culpa então, de acordo com uma das versões, recaía sobre os seguidores de Salomão, e supunha-se ter sido obra da divisão específica que eram os “estrangeiros”, tendo vindo do país de onde Salomão obteve Hiram, o construtor. Eram, de fato, seus próprios conterrâneos. Isso é importante, pois atribui a lenda à divisão mais antiga da ordem: os cortadores de pedra, Compagnons Étrangers chamados Loups [Lobos] (cf. Perdiguier, Livre du Comp., II. 28).

Embora Hiram não tenha deixado o Templo, de acordo com qualquer lenda do Compagnonnage que possuímos atualmente, e não tenha se tornado ele mesmo o fundador de um Devoir, como Jacques e Soubise, é muito provável, a partir das citações acima, que ele figurasse na lenda original dos seguidores de Salomão. Aparentemente, supõe-se que ele tenha permanecido com Salomão, ou que já não estivesse vivo, no momento da partida dos outros dois grandes fundadores.

 

Os Companheiros partem da Judeia para se espalharem pelo mundo.

(De Perdiguier, Livre du Compagnonnage, 3ª Ed.)


                      SALOMÃO

              MESTRE JACQUES                                     PADRE SOUBISE


 

No desenho fornecido por Perdiguier que mostra Mestre Jacques, Soubise e seus seguidores deixando o Templo o qual, devo mencionar, ele também publicou em tamanho maior, vê-se uma figura em pé ao lado de Salomão, segurando em sua mão esquerda estendida um par de compassos. Perdiguier, como nos outros casos, não indica na estampa a quem essa figura se destina, mas eu a interpreto como sendo Hiram, com base na canção já citada. É possível notar também que, embora o Templo esteja telhado e evidentemente próximo da conclusão, ele não está inteiramente finalizado. Operários são representados ainda cortando pedras, e os andaimes permanecem em posição.

Antes de considerar a lenda, será bom declarar a opinião do próprio Perdiguier.

“Quanto a esta história de Hiram”, diz ele, “eu apenas a considero como uma fábula suficientemente engenhosa, mas cujas consequências são horríveis, pois tende a dividir aqueles que a encaram seriamente. A Bíblia, o único livro com autoridade real quanto aos construtores do Templo de Salomão, nada diz sobre o assassinato de Hiram, e, de minha parte, não acredito nele. O Compagnonnage Estrangeiro e aqueles da Liberté não possuem detalhes autênticos desta fábula, que é inteiramente nova para eles; e penso que os Compagnons das outras Sociedades não estão em melhor posição; eu a vejo como uma invenção inteiramente Maçônica[1] e introduzida por homens iniciados em ambas as sociedades secretas”. (Vol. II, p. 75).

A partir da declaração acima de Perdiguier, é possível observar que a questão no Compagnonnage se dividia entre Hiram e Adonhiram, e uma ideia similar será encontrada mencionada por Moreau. Vale notar que a mesma divergência de opinião ocorreu entre dois grupos de Maçons na França durante o século XVIII.

Várias lendas de Hiram, atribuídas ao Compagnonnage, foram apresentadas por diversos escritores, mas não fui capaz de encontrar uma autoridade sólida para elas. Só posso imaginar que foram criadas a partir dos poucos fragmentos de informação fornecidos acima. No entanto, nunca se deve esquecer que, provavelmente, nenhuma celebridade dos tempos antigos teve mais lendas vinculadas ao seu nome do que Salomão e sua conclusão do Templo, algumas das quais o conectam a Hiram.

Devo agora dizer algo sobre a forma do manuscrito tal como ele se apresenta. O francês empregado em sua composição não apresenta marcas de antiguidade, além de algumas poucas formas de expressão incomuns. Nem sempre é gramaticalmente correto, e as frases curtas em que grande parte dele está escrita são peculiares. Perdiguier, como se verá, chama-o de um 'documento muito curioso' e afirma que não alterou uma única palavra; portanto, podemos assumir que temos uma cópia exata do seu original. As formas da linguagem não precisam ser uma dificuldade, pois, é claro, existe sempre a possibilidade de que sua cópia fosse uma edição modernizada de um documento mais antigo, ou transcrita de memória. Eu poderia citar como exemplo, entre as Old Charges, o Manuscrito Krause, como sendo um caso um tanto semelhante.

A lenda foi, por alguns escritores, comparada com a história da traição de Jesus Cristo e, de fato, como se verá, existem pontos evidentes de semelhança; mas o cristianismo termina aí. Ao longo de várias partes onde se poderia razoavelmente esperar que, em um documento de tempos católicos, algum símbolo do cristianismo estivesse presente, nenhum é encontrado. Na verdade, tanto quanto é possível rastrear os poucos incidentes que ocorrem, eles apontam para costumes de uma época mais antiga e, em lugar de ideias cristãs, um monoteísmo evidente está presente. É bem verdade que alguns dos nomes das cidades são de origem cristã, mas estes são especificados como sendo os nomes mais modernos, e vale notar que, quando Moreau república uma parte da lenda (De la réforme, etc., p. 110), ele coloca esses nomes modernos entre colchetes.

Muitas opiniões foram declaradas quanto à data de origem, ou melhor, ao período em que o Compagnonnage assumiu uma forma distinta e, a partir destas, esforços foram feitos para datar a lenda. Se isso pudesse ser verificado de maneira satisfatória, teríamos talvez uma data marginal a partir da qual trabalhar. Moreau (Un mot sur le Compagnonnage, Auxerre 1841, p. 8) diz:

“Eu acredito que seu estabelecimento não remonta a mais de quatro ou cinco séculos [ou seja, 1300 ou 1400]: uma época em que tantas Catedrais Góticas e Monumentos foram construídos na França. Originalmente (ib. p. 9), havia apenas quatro corps d'état [corpos de ofício] admitidos no Compagnonnage: os carpinteiros, os cortadores de pedra, os marceneiros e os serralheiros. Os principais operários das edificações”. (cf. também ib. p. 16.)

Novamente (Un Mot, etc., p. 9), ele diz:

“Apesar de seu pequeno número [ou seja, quatro corporações], houve quase imediatamente uma cisma por um motivo que desconheço, uma batalha de Compagnons, ou condutores de obras, na qual um Hiram ou Adonhiram foi morto; em suma, eles se dividiram em dois campos hostis: um reconhecia Mestre Jacques como fundador e protetor, o outro, Salomão. Este último tinha apenas três corporações: os cortadores de pedra, os marceneiros e os serralheiros. Desse tempo datam todas estas rivalidades, que se transformam em batalhas sangrentas”.

A Mestre Jacques, ele acrescenta a seguinte nota:

“Arquiteto, empreiteiro ou condutor das obras no Templo de Salomão ou, posteriormente, Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários executado no século XIV”.

Novamente (De la Réforme, p. 110), ao repetir um fragmento da lenda extraído de Perdiguier, Moreau escreve:

“E Mestre Jacques, onde se encontra a sua história? Até agora, o Sr. Perdiguier é o único, creio eu, que entregou vários fragmentos à publicidade — fragmentos que provavelmente lhe foram enviados pelos Compagnons du Devoir”.

Pode-se afirmar que ele próprio [Moreau] parece ter pertencido originalmente aos Compagnons du Devoir, de onde ele sugere que Perdiguier obteve a lenda.

“Contudo”, escreve ele novamente (De la Réforme, p. 112), “o Compagnonnage existe, e ele deve necessariamente ter uma origem da mais remota antiguidade, pois seus costumes não pertencem ao nosso tempo. Não será mais razoável admitir aquela outra tradição que faz o Compagnonnage du Devoir nascer em Orleans e o do Devoir de Liberté em Chartres? É certo que os numerosos operários ocupados na construção das majestosas catedrais da França possuíam Sociedades de auxílio e de iniciações. Com o auxílio da organização, eles viajavam de um país para outro. Pelas iniciações, eram classificados de acordo com seus talentos. Portanto, é muito credível que no século XIII ou XIV, época em que as Catedrais de Orleans e Chartres foram construídas, uma cisma ou rivalidade pudesse surgir entre os operários dessas duas cidades quase vizinhas. Então, conduzidos por Mestres ou condutores rivais, fosse por vaidade, interesse ou qualquer outra causa, eles se dividiram e formaram duas sociedades. O que dá margem à crença de que os Filhos de Salomão foram a parte dissidente é que eles se honram com o nome de Compagnons du Devoir de Liberté, e que recebem indiscriminadamente Compagnons de todas as religiões, ao passo que os Compagnons du Devoir apenas recebem católicos. Esta crença é compartilhada por muitos Compagnons, como o foi por Marseillais Bon-Accord, um Compagnon Gavot Marceneiro”.

Marseillais Bon-Accord foi o autor da canção satírica sobre Mestre Jacques e o Padre Soubise, a ser citada mais adiante, que menciona a jornada deles para Orleans.

Deve-se lembrar que Moreau descartou as lendas não por ser incapaz de descobrir que elas realmente existiam no Compagnonnage, pois ele o admite, ao atribuir a lenda de Mestre Jacques à divisão na qual se verá que Perdiguier diz que ela foi preservada, mas porque descobriu que elas não estavam em conformidade com a história, ou melhor, que não podiam ser encontradas nela de forma alguma. É, portanto, imbuído desse espírito que ele escreve (Ib. 115):

“A história burlesca de Mestre Jacques não passa de uma fábula inventada propositalmente, em parte copiada da vida de Jesus Cristo; e, por fim, é em Chartres e em Orleans que o Compagnonnage teve o seu nascimento.”

Um item que pode ajudar a chegar a uma data na história da lenda dos Três Fundadores aparece no interrogatório perante os Doutores da Sorbonne, entre 1651 e 1655.

Na obra de Pierre Lebrun (Histoire Critique des pratiques superstitieuses, etc., Amsterdã, 1733-36), encontram-se os documentos tão frequentemente repetidos, cujas traduções são fornecidas na History de Gould (I. 233, etc.).

Lebrun faleceu em 6 de janeiro de 1729, com cerca de 67 anos de idade.

A descrição das iniquidades praticadas pelos Alfaiates contém a seguinte frase, relativa à forma de “passagem” (passer) dos compagnons: “Eles lhe contam a história dos três primeiros compagnons, a qual é cheia de impurezas”, etc.

Nas observações sobre a resolução dos Doutores, lê-se:

“Deve haver, além disso, escolas públicas de impureza, como parece que os compagnons Alfaiates mantêm? Deve Jesus Cristo, morto uma vez por nossos pecados, ser crucificado novamente por mãos sacrílegas e pelas ações execráveis desses miseráveis, que representam novamente Sua Paixão em meio a potes e canecas?”

Eles são, então, acusados de imitar por escárnio o Sacramento, etc. Naturalmente, estou ciente de que a frase acima pode referir-se à acusação quanto ao Sacramento; mas se a lenda do Compagnonnage já existia na época, e era considerada pelos Doutores como assemelhando-se em parte à vida de nosso Senhor, o que sem dúvida seria explorado ao máximo, uma conexão diferente poderia ser atribuída a ela.

Não vejo razão para assumir, como aparentemente Thory fez, que “os três primeiros compagnons” mencionados no primeiro extrato fossem necessariamente alfaiates. Eles eram, mais provavelmente, os três fundadores: Salomão, Mestre Jacques e o Padre Soubise. Thory fala também das aventuras obscenas dos supostos “três primeiros Alfaiates”; mas, novamente, as palavras francesas impureté e écoles publiques d'impudicité, na boca de um eclesiástico, são passíveis de outras interpretações.

Até agora, não encontrei nenhuma lenda sobre três alfaiates, exceto aquela dos de Tooley Street; mas existe uma rima de 1630 nas obras de Taylor (III., 73) que diz o seguinte:

Algum patife tolo, creio eu, deu início outrora

À calúnia de que três alfaiates somam um homem só.


Se a sugestão acima for admitida, então a lenda certamente já havia tomado forma na primeira parte do século XVII — antes de 1650.

Os que seguem em posição de destaque, após os seguidores de Salomão, são os discípulos de Mestre Jacques. Passarei agora a traduzir palavra por palavra do livro de Perdiguier, sem fazer observações no texto, para não perturbar a ordem da narração, limitando-me a ressaltar aqui que a questão sobre se existiam cópias escritas desta Lenda do Compagnonnage está agora finalmente decidida. É possível observar, no texto a seguir, que um manuscrito é mencionado repetidamente:

“Mestre Jacques é uma figura pouco conhecida; cada Sociedade criou sobre ele uma história mais ou menos improvável; existe uma, contudo, que desfruta de uma autoridade suficientemente grande junto a muitos Compagnons du Devoir. É dela que extraio, sem alterar uma única palavra, os detalhes que se seguem.

Mestre Jacques, um dos mestres principais de Salomão e colega de Hiram, nasceu em uma pequena cidade da Gália chamada Carte, hoje Saint-Romili, situada no sul (ele era filho de Jacquin, célebre arquiteto); dedicou-se ao corte da pedra; aos quinze anos deixou sua família; viajou pela Grécia, então o centro das belas-artes, onde acabou por associar-se ao filósofo.... de gênio distinto, que lhe ensinou escultura e arquitetura; logo tornou-se famoso nessas duas artes.

Tendo ouvido que Salomão havia feito um apelo a todos os homens célebres, passou ao Egito e, de lá, a Jerusalém; a princípio não se destacou entre os operários; mas, tendo recebido do mestre principal (premier maître) a ordem de fazer duas colunas, entalhou-as com tanto gosto e arte que foi recebido como mestre.”

Segue-se aqui uma enumeração muito longa de todas as obras que ele realizou no Templo; depois disso, acrescenta-se: [esta é a observação de Perdiguier, ele então prossegue com a lenda]

“Mestre Jacques chegou a Jerusalém aos vinte e seis anos; viveu lá por pouco tempo após a construção do Templo; muitos mestres, desejando retornar aos seus países natais, deixaram Salomão carregados de favores.

Mestre Jacques e o Mestre Soubise retornaram à Gália; eles haviam jurado jamais se separar; mas logo o Mestre Soubise, cujo caráter era violento, tornou-se ciumento da influência que o Mestre Jacques adquirira sobre seus discípulos e do amor que estes lhe devotavam, separou-se dele e escolheu outros discípulos. Mestre Jacques desembarcou em Marselha e o Mestre Soubise em Bordeaux. Antes de iniciar suas viagens, Mestre Jacques escolheu treze Compagnons e quarenta discípulos; um deles o deixou, e ele escolheu outro; viajou durante três anos, deixando em toda parte a lembrança de seus talentos e de suas virtudes.

Um dia, estando longe de seus discípulos, foi assaltado por dez discípulos do Mestre Soubise, que desejavam assassiná-lo e, querendo salvar-se, ele caiu em um pântano, no qual os juncos, ao sustentá-lo, protegeram-no dos golpes; enquanto esses covardes buscavam meios de alcançá-lo, seus discípulos chegaram e o libertaram.

Ele retirou-se para Sainte-Baume. Um de seus discípulos, chamado por alguns Jeron, por outros Jamais, traiu-o e o entregou aos discípulos do Mestre Soubise. Certa manhã, antes do nascer do sol, Mestre Jacques estava sozinho, em oração, em um local habitual; o traidor veio até lá com seus algozes, deu-lhe, como era costume, o beijo da paz, que era o sinal da morte; então cinco rufiões lançaram-se sobre ele e o assassinaram com cinco punhaladas.

Seus discípulos chegaram tarde demais, mas a tempo de receber seus últimos adeuses. 'Eu morro', disse ele, 'Deus assim o quis; perdôo meus assassinos, proíbo-os de persegui-los: eles já são suficientemente infelizes; um dia se arrependerão. Entrego minha alma a Deus, meu Criador, e vós, meus amigos, recebei o beijo da paz. Quando eu tiver me unido ao Ser Supremo, ainda velarei por vós; desejo que o último beijo que vos dou, vós sempre deis aos Compagnons que formardes, como vindo de seu pai; eles o transmitirão da mesma maneira àqueles que formarem; velarei por eles como por vós; dizei-lhes que os seguirei por toda parte enquanto forem fiéis a Deus e ao seu Devoir, e que nunca devem esquecer...' Ele pronunciou ainda algumas palavras que não puderam ser compreendidas e, cruzando as mãos sobre o peito, expirou, em seu quadragésimo sétimo ano, quatro anos e nove dias após ter saído de Jerusalém, 989 anos antes de Jesus Cristo.

Os Compagnons, tendo retirado suas vestes, encontraram com ele um pequeno junco (jonc) que ele carregava em memória daqueles que o havia salvado quando caiu no pântano. Desde então, os Compagnons adotaram o junco. Ninguém sabe se o Mestre Soubise foi o autor de sua morte; as lágrimas que derramou sobre seu túmulo e as buscas que fez pelos assassinos removeram uma parte das suspeitas que pesavam sobre ele. Quanto ao traidor, não tardou a arrepender-se de seu crime e, no desespero que seu remorso lhe causou, atirou-se em um poço, que os Compagnons encheram de pedras.

Tendo Mestre Jacques terminado sua carreira, os Compagnons formaram uma liteira e o carregaram para o deserto de Cabra, hoje Sainte-Magdeleine.”

Desejando ser aqui mais exato do que nas edições anteriores deste livro, continuo a transcrever a lenda do manuscrito [Perdiguier]:

“Eles depositaram o corpo em uma gruta: os oito mais antigos permaneceram para guardá-lo e embalsamá-lo, enquanto os outros buscavam tudo o que fosse necessário para dar ao sepultamento toda a magnificência que esse grande personagem merecia.

Os oito que ficaram para embalsamá-lo despojaram-no de todas as suas vestes e, tendo-o lavado com um extrato de muitos aromáticos, embalsamaram-no e, após terem-lhe colocado vestes novas, colocaram-no sobre um leito onde ficou exposto durante dois dias, à vista de todos os que desejavam ver os restos desse ilustre mestre.

Durante esses dois dias, os Compagnons que o guardavam mantiveram um fogo nos quatro cantos do leito; este fogo era composto de resina e espírito de vinho. No segundo dia, à noite, os Compagnons em luto profundo e luvas brancas tomaram seu corpo e o colocaram em um caixão de madeira de cedro, com o rosto exposto.

Quatro Compagnons, com faixas azuis, carregavam o caixão, e outros quatro no mesmo traje seguiam atrás deles para substituí-los. Outros quatro carregavam o pano funerário, sobre o qual estavam todos os ornamentos misteriosos do Compagnonnage. Outro carregava o acte de foi pronunciado pelo Mestre Jacques em sua recepção em Jerusalém. Todos os Compagnons no cortejo tinham uma tocha acesa. Outros dez, armados com bastões e alavancas de ferro, marchavam cem passos à frente para evitar que alguém viesse perturbar essa cerimônia lúgubre.

Ao sair do deserto, entraram em uma floresta chamada Vorem; o cortejo parou ali. Os Compagnons aproximaram-se do corpo e, derramando lágrimas, beijaram uma de suas mãos enquanto soltavam longos lamentos. Este lugar tomou o nome de Cinq-Doigts [Cinco Dedos]. O cortejo retomou a marcha e parou quarenta braças adiante, em um lugar chamado Molva, hoje Caverna de Saint-Evreux. Descobriram o corpo e o mais antigo verteu vinho e óleo em suas feridas, e então as enfaixou. Terminada essa cerimônia, retomaram a marcha. A cem braças adiante, pararam novamente: era no centro da floresta; era meia-noite. Os Compagnons começaram a rezar. Nesse intervalo, um vento terrível soprou; as tochas se apagaram e o cortejo ficou na mais profunda escuridão; o trovão fez-se ouvir com estrondo, a chuva caiu em torrentes. Os Compagnons aproximaram-se do corpo e continuaram sua oração pelo restante da noite. De manhã, terminada a tempestade, recomeçaram a marcha à primeira luz do dia, após terem lançado um olhar de terror sobre este lugar, que tomou o nome de Remords [Remorso]. Tendo marchado quase quatrocentas braças, um desespero extremo forçou-os a parar. Tendo colocado quatro Compagnons de guarda, fizeram uma busca por comida. Foi este lugar que tomou o nome de Saint-Maximin. O cortejo partiu e, rumando ao sul, parou em um lugar chamado Lavenel, hoje Cabane-Saint-Zozime, a seiscentas braças de Saint-Maximin. Tendo reacendido suas tochas, recomeçaram a marcha e não pararam até o local onde o Mestre Jacques havia sido assassinado e onde desejara ser enterrado.

Antes de baixarem o corpo ao túmulo, o primeiro deu-lhe o beijo da paz; cada um seguiu seu exemplo, após o que, tendo-lhe tirado o cajado de peregrino, colocaram-no novamente no caixão e o baixaram à sepultura; o primeiro desceu junto a ele, os Compagnons cobriram-na com o pano; depois disso, tendo feito a guilbrette, deram-lhe pão, vinho e carne, depositaram-nos no túmulo e saíram. Os Compagnons cobriram o túmulo com grandes pedras e as prenderam com fortes barras de ferro; então, tendo feito uma grande fogueira, lançaram nela suas tochas e tudo o que fora usado nas cerimônias fúnebres de seu mestre.

As roupas foram colocadas em uma arca. Na destruição dos templos, estando os filhos de Mestre Jacques prestes a se separar, dividiram suas vestes, e elas foram dadas assim:

Seu chapéu aos Chapeleiros;

Sua túnica aos Talhadores de Pedra;

Suas sandálias aos Serralheiros;

Seu manto aos Marceneiros;

Seu cinto aos Carpinteiros;

Seu cajado de peregrino aos Carpinteiros de rodas.

Não se verá sem espanto o cinto de Mestre Jacques caber aos carpinteiros, filhos de Soubise.

No documento curiosíssimo de que faço uso, encontra-se o ACTE DE FOI, pronunciado pelo Mestre Jacques em sua recepção perante Salomão, Hiram e o Sumo Sacerdote (grand sacrificateur), na presença dos mestres; este ato de fé é uma prece belíssima, e eu a reproduzo aqui:

“Oh Deus! Soberano todo-poderoso, senhor da terra, tu que vês todo o universo sujeito às tuas leis, tu que com apenas um olhar poderias fazer a terra reentrar no nada de onde a tiraste, eu te saúdo, rei dos reis: prostrado diante do trono de tua majestade onipotente, agradeço-te pelo favor que me concedeste de poder conhecer-te, amar-te e servir-te como o único e verdadeiro Deus do céu e da terra.

Digna-te conceder-me a sabedoria que outorgas aos teus eleitos, a fim de que eu possa adorar o teu nome em qualquer lugar onde eu vá; que a estrela da manhã guie meus passos ao deixar este templo erguido para a tua glória e construído por nossas mãos. Levarei em minha alma a lembrança de tuas infinitas bondades e dos favores que me concedeste. Voltando meus pensamentos e meus olhares para o Oriente, tu receberás minhas preces como procedentes deste santuário. Tu me verás reunir todos os meus filhos ao meu redor, e nossas oferendas subirão para ti; se te forem agradáveis, tu te dignarás derramar tuas bênçãos sobre nós.

Mestre Jacques, dirigindo-se a Salomão: Ó tu, grande rei a quem o Deus todo-poderoso concedeu o dom da sabedoria, digna-te receber meu juramento:

Eu te juro jamais adorar outro Deus além daquele que me fizeste conhecer, nunca receber qualquer compagnon sem ter sondado o fundo de seu coração e sem o ter feito passar pelas mais severas provações (épreuves). Faço agora a prece para que possas viver em paz uma longa vida, e que possas ver tua posteridade igualar as estrelas do firmamento”.

Aos mestres:

“E vós, filhos da luz, vede em mim o vosso igual e o vosso amigo.

O Deus dos deuses, o rei dos reis, aquele que governa o mundo, este Deus de poder e de bondade, concedeu-me hoje a graça de ver a verdadeira luz, que me destes em Seu nome.

Juro seguir sempre as leis divinas que me destes a conhecer, partilhar os vossos sofrimentos e os vossos trabalhos, estimar-vos e amar-vos como meus irmãos.

Verdadeiros eleitos do verdadeiro Deus, discípulos escolhidos do mais sábio dos reis da terra, recebei o juramento que vos faço hoje.... Agradeço-vos pelo favor que me fizestes ao receber-me entre vós.

Que o meu sangue pare em minhas veias, que o frio da morte congele os meus sentidos, que a minha visão se apague, que o meu corpo fique paralisado, que a minha alma deixe a morada que Deus lhe deu e que eu me torne alimento para as feras selvagens, se eu me tornar perjuro ao juramento que pronunciei.

E tu, grande sacrificador, oferece a Deus os meus juramentos; roga-lhe em sua misericórdia que os aceite; sacrifica para Ele esta novilha branca em ação de graças pela felicidade que Ele me concedeu neste dia.

Unamos todos os nossos desejos para que Deus nos conceda a todos paz, amor, prosperidade e felicidade, bem como o poder de fazer com que o mundo inteiro adore o Seu santo nome. Amém.”

Terminamos com o juramento de um aspirante ao ser recebido:

“Juro pelo Deus que adoro, pela alma que me dá vida, pelo sangue que corre em minhas veias, por este coração que bate dentro de mim, guardar com constância, perseverança e firmeza o segredo que me foi confiado; amar o meu próximo como a mim mesmo, punir o traidor e sustentar o Devoir até a última gota do meu sangue.”

Assim termina o texto conforme fornecido por Perdiguier. Adicionarei agora algumas notas sobre o Mestre Jacques e o Padre Soubise. Moreau (Un mot, etc., p. 16 e, De la réforme des abus du Compagnonnage, 1843, p. 98) diz:

“Em oposição a Salomão, Mestre Jacques, dizem as antigas tradições, fundou outro Compagnonnage para vingar-se de certas injustiças que Salomão lhe fizera em relação às obras que ele havia executado em seu templo.

Esta é a opinião declarada pelos seguidores de Salomão. Cada um contesta com o outro a honra de ser o mais antigo e de ter preservado o verdadeiro Compagnonnage.”

(Un mot, p. 16.)

“Além disso, os Compagnons dizem que Salomão era um rei, e Mestre Jacques um arquiteto de seu Templo.

Quanto a este último, busca-se por ele em vão na história; mas existem tradições antigas no Compagnonnage, ou melhor, fábulas mais ou menos grotescas, que dizem ter sido ele o arquiteto ou mestre de obras (entrepreneur) de uma parte do Templo de Salomão, que ele teria instituído o Compagnonnage a fim de permitir aos operários defenderem seus interesses, e que, mais tarde, ocorreram disputas entre ele e Salomão; isso deu origem aos Compagnons étrangers, que também foram formados em um Compagnonnage, em oposição aos do Devoir.”

(De la réforme du C., 103.)

“Os Devoirants pretendem que Salomão foi um traidor, e que Mestre Jacques foi um arquiteto célebre, um artista e um homem santo; por outro lado, os Gavots pretendem que Salomão foi o mais virtuoso e o mais sábio de todos os reis, o maior legislador e protetor das artes.” (Ib. pp. 103-4.)

A identificação do Mestre Jacques da lenda com Jacques de Molay, o último Grão-Mestre histórico dos Templários, é, sem dúvida, muito tentadora, tanto pelo nome — um, o Grão-Mestre Jacques, o outro, Mestre Jacques, quanto pelo fato de ambos estarem associados a um Templo.

É uma opinião sugerida por Perdiguier na seção ao final do segundo volume, intitulada “O Compagnonnage: O que foi, o que é e o que deveria ser”. Nela, ele considera a veracidade da lenda de que a Sociedade teve sua origem no Templo de Salomão, conforme afirmado pelos Compagnons. Ele cita os Essênios, Terapeutas, etc., como tendo costumes semelhantes; menciona muitos dos edifícios célebres, igrejas, etc., do mundo, e finalmente decide que, se o Compagnonnage não foi inventado na construção do Templo, foi ali que ele recebeu forma e tornou-se uma organização perfeita.

Após citar a Bíblia em referência a Davi e Salomão, ele conclui que todos os construtores reunidos eram fenícios. Eles vagavam para o norte e para o sul, para o leste e para o oeste, onde quer que fossem necessários para grandes construções, possuindo regras e uma organização. Este, diz ele, era o Compagnonnage da Antiguidade.

Quando, em 1095, os Cruzados partiram para a Terra Santa (resumo muito brevemente o seu argumento), na mesma época em que as Ordens dos Cavaleiros de São João, Templários, etc., foram formadas em Jerusalém; os operários franceses adotaram lá, tanto a arte da construção quanto as leis, usos, etc., do antigo Compagnonnage que encontraram naquele lugar, e o cristianizaram um pouco.

“Os talhadores de pedra formaram-se primeiro em Sociedade; eram os Compagnons Étrangers e filhos de Salomão; os marceneiros ou carpinteiros das florestas, e os serralheiros, ainda chamados de ferreiros, seguiram-nos de perto; eram Compagnons de la Liberté e reconheciam também Salomão como seu pai.”

(II. 244)

O título Estrangeiros, ele sustenta, era adequado tanto outrora quanto agora à vida errante; o de Liberté (Liberdade), em um país de escravos, significava que eles eram livres. E, assim, ele compara estes últimos com os Masons Francs, ou Francs-Maçons da Alemanha.

Tendo assegurado essa nomenclatura equivocada, seu argumento parece plausível; mas parece provável também que os marceneiros não fossem menos sedentários ou mais livres do que os pedreiros. Assim, diz ele, foram os talhadores de pedra, os carpinteiros da floresta e os ferreiros introduzidos na França.

Outra comparação é traçada entre os costumes dos pedreiros alemães de Estrasburgo e Colônia e o Compagnonnage, citando como autoridades Lebas, Stieglitz e l'Univers Pittoresque, dos quais ele extrai longas citações.

Os talhadores de pedra Estrangeiros, os marceneiros e os serralheiros da Liberdade, são todos chamados de companheiros livres; viviam unidos como bons irmãos e estiveram, por muito tempo, sem competidores e sem rivais, até que ocorreu uma secessão, tanto entre os primeiros quanto entre os segundos.

Foi dito que este grande rompimento da associação de operários ocorreu durante a construção das Torres de Orléans, no final do século XIII.

Aqueles que discordaram da fundação original das duas associações foram acolhidos sob a proteção de Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários. Sabe-se que os Templários introduziram formas místicas na França e que Salomão e seu Templo desempenharam um papel em suas cerimônias. Jacques de Molay, então, chamou a si os dissidentes e os organizou em três novas associações.

Este é, brevemente, o arranjo estabelecido por Perdiguier para introduzir Jacques de Molay; e esta derivação dos, ou mobilização pelos, Templários tem sido repetida com frequência. Simon compara as vidas do Grão-Mestre e do Mestre, mas, em minha opinião, suas identificações — assim como aquelas apresentadas pelo Ir. Gould (Hist. of F. M., I., 245) — são inteiramente insustentáveis. Elas exigem uma quantidade desnecessária de simbolismo comparado, um simbolismo que não seria de modo algum esperado.

Parece-me que a ideia de conectar tanto o Compagnonnage quanto a Maçonaria aos Templários é de data recente, e teve sua origem, talvez, quando se desejou uma origem mais aristocrática do que a derivação mais natural e, como acredito, correta, embora prosaica e humilde, das guildas de ofício.

É verdade que, durante a perseguição ao Compagnonnage no século XVII, um grupo deles ligou-se ao Templo em Paris, e isso pode ter dado a ideia da derivação; mas foi como um Santuário. Além disso, não posso deixar de pensar que as guildas de ofício de Paris, incorporadas ou, como eles dizem, “organizadas em estandartes” por Luís XI em 1467, guardavam a mesma relação com o Compagnonnage comum que a Masons Company de Londres (incorporada ou, ao menos, agraciada com brasões por Eduardo IV em 1472-3), assim como possivelmente as companhias de pedreiros em outras grandes cidades, guardavam para com as antigas Lojas de Maçons Livres espalhadas por todo o país, das quais se encontram menções ocasionais e de cuja não-conexão com as companhias de pedreiros existem provas evidentes.

O Padre Soubise desempenha, como se terá notado, um papel muito pouco importante no drama acima citado. Ele aparece subitamente a serviço de Salomão com Mestre Jacques, tendo ambos vindo da Gália, para onde retornaram juntos. Ele torna-se invejoso de Mestre Jacques, eles se separam e ele desembarca em Bordeaux. Aparentemente, seus discípulos ou alunos, seja por sua instigação ou não, tentam e, finalmente, conseguem assassinar seu rival; e ele faz com que sejam perseguidos, mas não ouvimos nada sobre o resultado. O traidor Jéron, ou Jamais, atira-se em um poço, que é preenchido com pedras pelos Compagnons — podemos concluir que por aqueles enviados em perseguição.

A derivação do nome Soubise do deus Sabázio, eu descarto imediatamente. Aceitá-la daria à lenda uma antiguidade que não estou preparado para acreditar, ou atribuiria aos seus compositores uma quantidade de simbolismo místico da qual não os creio capazes, a menos que seja muito mais moderna do que suspeito. O nome é claramente puramente francês; era o de um distrito e de uma família nobre bem conhecidos, e foi usado por Charles de Rohan, Príncipe de Soubise, e seu irmão, o Cardeal de mesmo nome, que foi realmente o “Padre” (Père) Soubise.

Nenhuma história é fornecida sobre este personagem nas lendas, mas Perdiguier afirma (II. 255) que ele é suposto por alguns como tendo sido um monge beneditino. Ele mesmo declara sua crença de que Jacques e Soubise apenas conheceram a capital da Judeia no século XIII e como monges franceses; ele também nos informa que esta é a divisão mais moderna do Compagnonnage.

Somente eles ostentam o nome de “Carpinteiro”, e seus trabalhos parecem ter sido ligados às florestas, lenhadores, de fato.

Ao classificar Soubise em seu devido lugar nas histórias dos três fundadores, Perdiguier diz (Livre du Compagnonnage, I. 40):

“Resta-me agora falar do Padre Soubise, mas, não possuindo nenhum documento de valor sobre este fundador, não posso cumprir minha tarefa como desejaria. Certos carpinteiros protestaram contra o papel atribuído ao Padre Soubise na vida de Mestre Jacques... Que eles fiquem assegurados, de nossa parte, que não sabemos mais sobre o assassinato de Mestre Jacques pelo Padre Soubise do que sobre o assassinato de Hiram pelos Compagnons étrangers. Não desejamos o ódio, mas sim amor e simpatia entre todos as corps d'états (corporações de ofício) e em toda parte. Um companheiro carpinteiro deu-me uma vida do Padre Soubise; era um romance moral e, além disso, uma glorificação do autor... sobre o qual eu não poderia me deter no momento presente com qualquer proveito”.

Sobre o Reverendo Padre Soubise, como ele o chama, Moreau diz muito pouco. Em uma nota (De la réforme, p. 110):

“O Padre Soubise, ou Mestre Soubise, é também, até certo ponto, considerado um fundador. Os carpinteiros compagnons passants ou Bonsdrilles eram seus filhos. Eles receberam os telhadores e os gesseiros; mas, como estes também são chamados de Devoirants e estão sob a bandeira de Mestre Jacques, a quem respeitam e honram” etc.

Isso é singular, mas deve-se lembrar que, na lenda, o cinturão de Mestre Jacques foi entregue aos carpinteiros.

É interessante notar que Mestre Jacques, no desenho fornecido por Perdiguier dos Compagnons deixando a Judeia para se espalharem pelo mundo, está trajado com vestes eclesiásticas; ao passo que o Padre Soubise é representado com as vestes simples de um monge peregrino, com seu cajado na mão. Isso, ao menos, pode ser tomado como uma demonstração da diferença entre os dois, tal como era entendida no Compagnonnage ao tempo de Perdiguier.

Uma das canções satíricas pode ser citada:

“Na época em que a fortuna cega apoderou-se do universo, que uma expressão comum denominou 'a idade do ferro', Mestre Jacques, aqui na terra, sem dinheiro e sem cérebro, não sabendo como viver, fundou um outro Devoir.

Associado ao velho Soubise, esses fundadores itinerantes, para venderem sua mercadoria, partiram para Orléans. Não tendo meios de subsistência pelo caminho, tornaram-se ladrões de bolsas, por medo de morrer de fome.

Nossos dois fazedores de caretas, logo nesta cidade, expuseram seus mistérios e segredos nas praças. Desde esse tempo, proliferou na cidade de Orléans toda sorte de imbecis, etc.”

(Livre du C., I. 78)

Assim termina, por ora, meu relato sobre estas interessantes lendas. Neste artigo, limitei-me propositalmente ao assunto específico e toquei apenas de leve nas opiniões de meus predecessores e em diversos temas que são dignos de consideração; meu esforço consistiu simplesmente em narrar as lendas conforme descritas pelos membros do Compagnonnage. Argumentos extensos aqui teriam sido apenas causa de confusão, e podem muito bem aguardar por alguma outra ocasião, quando espero poder retomar o tema do Compagnonnage e tentar acrescentar um pouco mais à sua história.



[1] Em uma nota, ele reivindica, com razão, para o Compagnonnage uma data anterior àquela em que a Maçonaria foi introduzida na França, que ele afirma ter sido em 1715. Gould o desacredita por esse erro (Hist. of F.M., I. 212). Minha própria impressão é que ele apenas seguiu Thory (Acta Latomorum, I. 21), que indica a data de 1725, sendo 1715 um erro de impressão.


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Um pouco sobre William Harry Rylands


O Irmão William Harry Rylands, nasceu em 1847; foi membro da Sociedade de Antiquários, membro das Sociedades Asiáticas de Londres e Paris, Secretário da Sociedade de Arqueologia Bíblica, dentre outras; foi iniciado em 1872 na Loja Faith and Unanimity, Dorchester, nº 417; filiou-se à Loja Antiquity nº 2, em Londres, em 1881, e foi exaltado no Capítulo St. James nº 2, Londres, em 1882. Atuou como Grand Steward, 1887. Ele foi autor da obra "A Maçonaria no século XVII em Warrington, Chester, etc.", e de muitas outras obras e contribuições para a imprensa maçônica, bem como artigos, e diversos materiais acadêmicos sobre assuntos de antiguidades.







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