Arquitetura e Ciência:

 A Ordem Jônica como Expressão da Emergência do Pensamento Racional

Pórtico norte do Erecteion, 421-407 A.C., mármore, Acrópole, Atenas

Resumo

Este artigo investiga a inserção das Ordens Arquitetônicas, especialmente a Ordem Jônica, no arcabouço simbólico da Ordem Maçônica, propondo uma análise além da abordagem meramente estética ou didática. Partindo da sistematização apresentada por William Preston em seu Monitor de 1775, argumenta-se que as Ordens representam não apenas modelos construtivos aos herdeiros da Maçonaria Operativa, mas marcos da evolução intelectual da humanidade.

O estudo examina o contexto histórico da Jônia, região da Ásia Menor que, segundo Carl Sagan, destacou-se como berço da investigação racional. Analisa-se a contribuição de pensadores como Tales de Mileto, Demócrito e Anaxágoras, enfatizando o deslocamento da explicação mítica para a investigação baseada na observação e na experimentação. Paralelamente, descrevem-se os elementos formais da arquitetura jônica (proporção, leveza estrutural e modulação racional) evidenciando sua possível correspondência com a mentalidade investigativa que floresceu na mesma região.

Sustenta-se que a Ordem Jônica pode ser interpretada como expressão material de um momento epistemológico decisivo da humanidade, no qual razão, medida e sistematização do conhecimento passaram a orientar tanto o pensamento filosófico quanto a produção artística. Conclui-se que sua presença na simbologia maçônica preserva a memória do nascimento da racionalidade científica e reafirma a construção do conhecimento como processo contínuo e inacabado.

Palavras-chave: Maçonaria, Educação, Ciência Jônica, Arquitetura Antiga.

 

Introdução

Impelidas pela necessidade de conhecimento e interpretação dos símbolos e alegorias, as Ordens Arquitetônicas constituem um dos primeiros conjuntos temáticos a serem apresentados ao estudante Maçom, a saber: Coríntia, Dórica e Jônica.

De forma ligeiramente histórica, ao nos debruçarmos sobre os povos que conceberam tais obras de arte, transliterando sua cultura em arquitetura, compreendemos também a motivação de tão elevado prestígio dentro da Ordem Maçônica.

Sob o prisma da literatura maçônica, talvez pela vasta gama de temas a tratar, observam-se tratados demasiadamente pragmáticos que, por vezes (obviamente sem essa intenção, mas sob esperança do estudo aprofundado individual), acabam por fomentar o desconhecimento dos feitos mais relevantes desses povos. Para mitigar tal carência reflexiva, nada melhor que um passo em direção à ciência, retornando com mais luz e conhecimento.

 

As Ordens Arquitetônicas por Preston

A primeira referência sistemática às Ordens Arquitetônicas, bem como sua elucidação, encontra-se no Monitor de 1775, de William Preston, conforme segue:

“Por 'ordem', na arquitetura, entende-se um sistema de elementos, proporções e ornamentos de colunas e pilastras; ou, ainda, um arranjo regular das partes salientes de uma edificação que, unidas às de uma coluna, formam um todo belo, perfeito e completo. A origem da ordem na arquitetura pode ser remontada à primeva formação da sociedade. Quando o rigor das estações obrigou o homem a conceber abrigos contra as intempéries, conta-se que primeiro fincaram troncos de árvores verticalmente e, sobre eles, dispuseram outros transversalmente para sustentar uma cobertura. Diz-se que as amarras que prendiam esses troncos no topo e na base sugeriram a ideia da base e dos capitéis dos pilares; e foi a partir desse simples indício que originalmente se desenvolveu a arte mais aprimorada da arquitetura.”

 

Esse preâmbulo demonstra o propósito de as ordens arquitetônicas ocuparem espaço no conjunto de símbolos e alegorias da Maçonaria dita especulativa: remetem à evolução da ciência humana suscitada pela necessidade de sobrevivência, dos primórdios aos ancestrais mais próximos da história da Maçonaria Operativa, legando conhecimento técnico.

Ainda que de forma sutil, percebe-se que o propósito central dos monitores e suas instruções nunca foi encerrar em si um conhecimento absoluto e inflexível; antes, exerciam um papel provocativo, seguido da expectativa de aprofundamento por parte do estudante maçom. Em outras palavras, apresentava-se o símbolo e seus aspectos intrínsecos à ordem, sugerindo-se, ao mesmo tempo, a busca pessoal pelo estudo multidisciplinar extrínseco às instruções, a fim de enrobustecer o arcabouço sistêmico do conhecimento maçônico, como segue o seguinte trecho também do Monitor de 1775:

“Estas observações destinam-se a incentivar o exímio Artífice a prosseguir em suas pesquisas sobre a origem e o progresso da arquitetura, consultando as obras dos melhores autores sobre o tema.”

 

Exposto isso, seguimos nossa explanação acerca de quem foram os Jônios e qual foi sua contribuição à humanidade.

 

Ordem Arquitetônica Jônica

Com linhas orgânicas, leves e fluídas, a ordem Jônica tradicionalmente alude à elegância do corpo feminino, caracterizando aquilo que Vitrúvio descreveu como “esbelteza feminina”. Seus capitéis revelam influências orientais, apresentando entalhes que remetem a folhas de palmeira, papiro e outros motivos vegetais, possivelmente inspirados por modelos arquitetônicos egípcios e do Oriente Próximo.

As colunas jônicas possuem, em regra, cerca de nove módulos de altura (aproximadamente um módulo a mais que a ordem Dórica) o que lhes confere maior verticalidade e leveza visual. Vitrúvio recomendava sua aplicação em templos dedicados a divindades serenas e a figuras associadas ao saber. Estruturalmente, a ordem apresenta base mais larga, destinada a melhor distribuição de carga, fuste esguio com discreta entasis e capitéis ornamentados por volutas. Em determinadas composições arquitetônicas, os capitéis são substituídos por cariátides, figuras femininas esculpidas que desempenham função estrutural ao sustentar entablamentos ou coberturas (SUMMERSON, 2009).

A ordem Jônica teve origem na Jônia, região costeira da Anatólia central (atual Turquia) desenvolvendo-se por volta da metade do século VI a.C. e difundindo-se posteriormente para a Grécia continental, sobretudo no século V a.C. Diferentemente da ordem Dórica, suas colunas apresentam base definida e capitéis com volutas espiraladas. Um dos exemplares mais antigos associados ao estilo jônico é a coluna votiva inscrita de Naxos, datada do século VII a.C. (BECKER, 2024).

Entre as primeiras grandes realizações monumentais do estilo destaca-se o templo dedicado a Hera, na ilha de Samos, projetado por Rhoikos entre 570 e 560 a.C., ainda que posteriormente destruído por terremoto. O templo de Ártemis em Éfeso (tradicionalmente incluído entre as maravilhas do mundo antigo) também constitui exemplar notável do design jônico. Em Atenas, a influência do estilo manifesta-se em elementos do Partenon, especialmente no friso contínuo que circunda o templo. Colunas jônicas foram igualmente empregadas no interior do Propileu da Acrópole e no exterior do Erecteion, edificado entre 421 e 405 a.C. (BECKER, 2024).

A correlação entre a arte jônica e o pensamento que emergiu na própria Jônia não subsiste a uma mera coincidência geográfica. A proporção harmoniosa, a busca pela medida equilibrada e a substituição da robustez dórica por uma elegância racionalmente calculada refletem uma mentalidade voltada à observação, à modulação empírica e ao refinamento conceitual e cognitivo. Ainda, vale ressaltar que, não se trata de afirmar uma relação causal direta entre forma arquitetônica e desenvolvimento filosófico, mas de reconhecer que ambos emergem de um mesmo horizonte cultural o que gera raciocínio e método semelhantes.

 

Os Jônios

Por milhares de anos, os seres humanos conceberam uma visão cosmológica segundo a qual o universo seria uma marionete cujos cordões eram manejados por um deus ou por deuses invisíveis e inescrutáveis.

Surpreendentemente, há aproximadamente 2.500 anos, surgiu na Jônia uma ideia revolucionária para a época, considerada por muitos cientistas um verdadeiro marco epistemológico para a humanidade. Em Samos e em outras colônias gregas desenvolvidas entre as ilhas e enseadas do movimentado mar Egeu oriental, difundiu-se a concepção de que tudo era constituído por átomos; que as doenças não eram causadas por demônios ou deuses; que a Terra era apenas um corpo celeste em movimento; e que as estrelas estavam a enormes distâncias.

Tais reflexões conduziram à busca por um princípio originário (arché) capaz de explicar racionalmente a constituição do cosmos.

Segundo Carl Sagan, em Cosmos (1980), o fato de a Jônia ter sido uma região insular favoreceu, ainda que parcialmente, a diversidade e a liberdade de pensamento. Cada ilha possuía sua própria organização política, científica e religiosa, compartilhando conhecimentos de forma relativamente aberta. A diplomacia incentivava a livre investigação e reduzia a necessidade da superstição como instrumento político.

Precedendo diversas civilizações, a escrita não era monopólio de sacerdotes. O ensino relativamente difundido da gramática poliglota democratizou o acesso à escrita, permitindo feitos notáveis, como a adaptação do alfabeto fenício ao grego.

A visão científica humana, suscitada pela busca incansável por suas origens, manifesta uma harmonia global: diversas culturas, de acordo com suas capacidades, empenharam-se, consciente ou inconscientemente, na descoberta da ciência. Entre elas, segundo Sagan, a Jônia destacou-se como berço da investigação científica racional.

 

Os Jônios e os Fundamentos da Racionalidade Científica

A história apresenta grandes pensadores jônios, como Tales de Mileto (sobre o qual nos deteremos), Demócrito que afirmou: “Nada existe, a não ser átomos e o vazio” (embora trácio, é usualmente inserido na tradição naturalista jônica) e Anaxágoras, que sustentou que "a Lua brilha por luz refletida", explicou suas fases geometricamente e declarou que o Sol e as estrelas eram massas ígneas.

Tais pensadores são frequentemente mencionados nos livros de história e filosofia como “pré-socráticos”, como se sua função histórica fosse apenas preparar o terreno para Sócrates, Platão e Aristóteles. Contudo, a tradição jônica estabeleceu fundamentos metodológicos decisivos: a observação, a experimentação e a convicção de que a harmonia subjacente do universo pode ser compreendida pela razão, princípios que hoje estruturam a ciência contemporânea.

Por fim, detenho-me na descrição de alguns desenvolvimentos científicos (especialmente aritméticos, astronômicos e geométricos) atribuídos a Tales, seguindo a visão proposta por Sagan:

“O primeiro cientista jônio foi Tales de Mileto, cidade na Ásia no outro lado de um estreito canal de água na ilha de Samos. Ele tinha viajado pelo Egito e estava a par do conhecimento da Babilônia. Consta que previu um eclipse solar. Aprendeu a medir e calcular a altura de uma pirâmide a partir do comprimento de sua sombra e do ângulo do Sol em relação ao horizonte, método hoje empregado para determinar as alturas das montanhas da Lua. Foi o primeiro a demonstrar teoremas geométricos do tipo formulado por Euclides três séculos depois - por exemplo, a proposição de que os ângulos na base de um triângulo isósceles são iguais. Há uma evidente continuidade do esforço intelectual de Tales a Euclides e à aquisição, por Isaac Newton, dos Elementos de Geometria, que precipitou a ciência e a tecnologia modernas. 

Tales tentou compreender o mundo sem invocar a intervenção de deuses, exercendo protagonismo na investigação das causas, como o cosmos desperto, com consciência de si mesmo. Como os babilônios, acreditava que o mundo fora um dia feito de água. Para explicar a terra seca, os babilônios acrescentaram a ideia de que Marduk tinha colocado um tapete na superfície da água e amontoado sujeira sobre ele. Tales tinha uma visão semelhante, porém, como disse Benjamin Farrigton, ‘deixou Marduk fora disso’. Pela observância, de fato ele achou que a água era um princípio comum, subjacente a toda matéria, o mesmo que hoje dizemos em relação a elétrons, prótons e nêutrons, ou aos quarks. Tales trouxe da Babilônia e do Egito as sementes das novas ciências da astronomia e geometria, [as regou com a inteligência e a razão] que consequentemente brotariam e cresceriam no solo fértil da Jônia. Com o tempo, a influência jônica e o método experimental espalharam-se para todo o território da Grécia, Itália e posteriormente, Sicília.”

 

Conclusão

À luz do exposto, verifica-se que a inserção das Ordens Arquitetônicas no arcabouço simbólico da Maçonaria não se restringe a uma ornamentação didática ou a uma evocação estética da Antiguidade. Trata-se, antes, da preservação de uma memória intelectual. Especialmente pela Ordem Jônica, a memória do momento em que o homem passou a interpretar o mundo segundo princípios racionais, observáveis e sistematizáveis.

Ao deslocar a explicação do cosmos do campo exclusivamente mítico para o domínio da investigação racional, os jônios inauguraram o primeiro passo rumo ao desenvolvimento epistemológico da humanidade cuja repercussão ultrapassou os limites da filosofia antiga e para a constituição do método científico. O método baseado na observação e experimentação constitui, ainda hoje, o eixo estruturante da produção do conhecimento. Todo esse movimento reverberou na arte desse povo caracterizando traços sutis tal qual a leveza da abstração cognitiva.

Sob perspectiva etimológica, latscientia remete ao conhecimento sistematizado, enquanto latsapientia designa o exercício prudente desse conhecimento. Tal distinção permite compreender a ciência como fundamento estrutural da sabedoria. A partir daí, podemos observar que a incrível contribuição do povo jônico, para o saber da humanidade, justifica plausivelmente que sua Arquitetura, seja atribuída à “Sabedoria”.

Em síntese, compreender os Jônios e sua contribuição não é apenas um exercício historiográfico, mas um movimento de reconexão com a postura investigativa que sustenta, em última instância, a própria essência da Maçonaria especulativa, que se faz uma construção contínua do conhecimento como obra inacabada do ser humano.

 Autor: Samuel Benedicto


BIBLIOGRAFIA


PRESTON, William. Illustrations of Masonry. The Second Edition corrected and Enlarged. Londres: Church Yard, 1775.

SAGAN, Carl. Cosmos – tradução Paulo Geiger; 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

SUMMERSON, J. A linguagem clássica da Arquitetura – tradução Sylvia Ficher. 5. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.

BECKER, Jeffrey. A. Ordens arquitetônicas Gregas. 2024. Disponível em: https://pt.khanacademy.org/humanities/ancient-art-civilizations/greek-art/beginners-guide-greece/a/greek-architectural-orders Acesso em: 18 fev. 2026.

CIÊNCIA. 2026. Disponível em: < https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/ci%C3%AAncia/      >. Acesso em: 18 fev. 2026.

SABEDORIA. 2026. Disponível em: < https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/sabedoria/ >. Acesso em: 18 fev. 2026.


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