O ideal Currículo Maçônico: um ensaio sobre a modernidade líquida de Bauman e a Epistemologia Maçônica

Jean-Baptiste-Camille Corot (1796-1875) - Study, Young Woman Reading
                         

    A Maçonaria pede socorro. Um grito silencioso que ensurdece todos os acadêmicos que estão inseridos nesta Augusta Ordem e que hoje tem passado pelo fenômeno tão bem retratado na obra “Modernidade Liquida” (BAUMAN, 2001).

Em época de Inteligência artificial, a inteligência orgânica vem se deteriorando. Não por causa da tecnologia, mas pelo comodismo, pela preguiça, pela necessidade de encurtar caminhos. Neste contexto, vou desbravar em poucas linhas o cenário que encontramos em muitos casos dentro de Loja.

                Recentemente fui apresentado à obra “A Masonic Curriculum” de George William Speth (1847 – 1901). Meu estimado irmão e amigo Samuel Benedicto me propôs o desafio de me lançar ao mundo das traduções e busquei aceitar. Tenho certeza de que aquilo que te trouxe até aqui, não te leva a diante. Logo, novos desafios devem ser desbravados. Me deparei com uma obra de 1901 de um grande nome da Maçonaria inglesa. Speth foi secretário da lendária Loja Quatuor Coronati Nº 2076 por 14 anos. Responsável pela propagação do modelo de correspondência em Loja, proporcionou um sistema onde grandes expoentes da Maçonaria colaboravam para que os trabalhos científicos nesta Loja fossem inacreditáveis. Temos documentos de Maçons notáveis como Albert Mackey (1807 – 1881), Robert Freke Gould (1836 – 1915), William James Hughan ( 1841 – 1911)   e Albert Pike (1809 – 1891) colaborando com conteúdos inestimáveis para a construção da bibliografia, história e cultura maçônica.

                “Um currículo Maçônico” (tradução livre) traz para a urgência a necessidade de se estudar para existir crescimento pessoal enquanto maçom e coletivo enquanto ordem. Seu trabalho traz grandes visões sobre o cenário da maçonaria à época e, ainda hoje, podemos notar o quanto essa obra é aplicável. Speth dedicou grande parte de seu trabalho em trazer referências bibliográficas para que os maçons estruturassem sua base de conhecimento em um terreno sólido e que foge dos caminhos tortuosos que a maçonaria tendeu a tomar após a revolução francesa em 1789. Sua obra trata, em grande parte, de livros, artigos, transactions da Quatuor Coronati e documentos sólidos quanto o que tange o real viés de nossa ordem: a evolução moral do homem.

                Esta obra me fez refletir imensamente sobre o que temos praticado em Loja principalmente no que tange ao academicismo que a maçonaria preconiza em seu seio. Speth, ainda no início do século XX, se preocupava com os rumos que a ordem estava tomando e buscou trazer ao pedestal o real conteúdo que devemos estudar e propagar. Speth buscou enfatizar o método mais assertivo e nos mostra que é necessário “aprender a aprender”. Algo que é pouco desbravado, mas de suma importância.

                Em 09/2025 foi publicado um artigo por meios independentes intitulado “Epistemologia Maçônica” de autoria de Samuel Benedicto. Este artigo traz o cerne deste princípio de “aprender a aprender” que é de prestimosa importância ao iniciado. Benedicto explora, com embasamento científico dos grandes nomes da pedagogia, o caminho natural do aprendizado. Passando pelo contato inicial com o símbolo até que os esquemas noéticos sejam devidamente acomodados e temos o ápice do símbolo. Onde o exemplo gráfico torna-se significativo e pode passar a ser ressignificado de acordo com a necessidade de quem o contempla. Combinando este artigo, com o Currículo Maçônico de Speth e a teoria da Modernidade Líquida de Bauman, notei que o método maçônico está se deteriorando por conta do uso indevido da tecnologia, da desídia e do comodismo.

                Minha atenção começou a ser atraída quando, em certa feita, presenciei a apresentação de um trabalho de um aprendiz de maçom onde, na bibliografia, foi elencado “Aplicativo de smartphone TikTok”. Esta bibliografia me acendeu um alerta gigantesco. O aprendiz se sentiu confortável em elencar um aplicativo de vídeos rápidos na bibliografia, o 1º Vigilante da Loja (REAA) aprovou o trabalho e o aprendiz foi ovacionado pela maioria dos irmãos na Loja. Em uma ordem de eruditos, é salutar que um material sem nenhuma validação científica seja entendido como aceitável?

Não distante deste assunto, é comum também vermos irmãos utilizando deliberadamente e levianamente as Inteligências Artificiais para se promoverem como intelectuais. Nós temos vivência com aquele irmão e sabemos até onde seu vocabulário atinge, onde são suas áreas de aptidão e conhecemos a capacidade humana de evolução do intelecto. É execrável a forma como estes conteúdos são compartilhados com todos os moldes de uma Inteligência artificial. É neste cerne que venho propor um ponto de debate: em quanto tempo teremos uma ordem tomada pela trivialidade proposta pela modernidade liquida de Bauman?

                Não obstante, é extremamente corriqueiro que recebamos trabalhos de aprendizes e companheiros que buscam aumento de salário onde as nuances de inteligência artificial exalam. Em meu tempo de escola regular, era comum que os alunos copiassem textos inteiros das páginas da internet e imprimissem para entregar como trabalho. Atitude esta que era facilmente descoberta pelo professor. Digo isso com experiência de causa, pois sou docente na área de história. É alarmante a diferença de vocabulário entre o discente e a página da web. Com a inteligência artificial não é diferente. A IA, sendo um sistema generativo, busca se pautar em formas de vocabulário utilizadas de forma mais comum no meio em que o assunto pesquisado está inserido. A meu ver, os irmãos que buscam ludibriar outros irmãos com estas ferramentas já falharam como maçons. Toda falha exige um recomeço, portanto, que voltem a estudar o grau de aprendiz, pois o aprendiz tem uma tendência a mostrar que é bom. Tenho comigo que não é necessário mostrar que é bom. Basta ser.

                Como conclusão, o que era para ser um texto para promover a tradução da obra de Speth, que existe em PT-BR pela primeira vez na história, acabou tornando-se uma chamada para a ação. Vamos buscar retomar as raízes de nossa Ordem, pois o amanhã é incerto. Busquemos candidatos que atendam nossas buscas quanto ao que é livre e de bons costumes e instruamos nossos aprendizes no caminho da real virtude, nossos companheiros no caminho da ciência para que sejam mestres capacitados para dar continuidade do ciclo.

Ofereço o link da Obra de Speth. Basta clicar AQUI para ser redirecionado para a página da Uiclap onde o livro está disponível.

Boa leitura e bons estudos!

 

Philipus Valentim

 

Bibliografia:

ZYGMUNT BAUMAN. Modernidade líquida. [s.l.] Rio De Janeiro Jorge Zahar, 2007.

NÓESIS LATOMORUM. Epistemologia Maçônica. Disponível em: <https://noesis-latomorum.blogspot.com/2025/11/epistemologia-maconica.html>. Acesso em: 17 dez. 2025.

‌SPETH, Geoge William. Um currículo Maçônico. [s.l.] Traduzido por Philipus Valentim. 2025.

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