Epistemologia Maçônica

 

Eine Allegorie der Intelligenz - Cesare Dadini, 1656

Resumo

O presente texto examina a Epistemologia Maçônica sob o prisma de Epistemologia de Jean Piaget, propondo que a atividade e o desenvolvimento intelectual do ser, sob estudos propostos pela Maçonaria, pode ser compreendida como interação dinâmica entre assimilação, acomodação entre estruturas operatórias. Partindo das definições clássicas de Maçonaria como sistema moral ilustrado por símbolos, evidencia-se que a internalização desse sistema depende do estímulo adequado dos mecanismos biológicos que enriquecem à inteligência (entendida como adaptação e equilíbrio das permutas) e do uso consciente da Literatura como instrumento epistemológico. Apresentam-se também, distinções claras entre Conhecimento, Inteligência e Sabedoria; discute-se a construção do pensamento por meio dos agrupamentos operatórios; e descreve-se o Ciclo Assimilador (reprodutor, recognitivo, generalizador, abstrativo e formal) como processo contínuo e de existência intrínseca ao desenvolvimento cognitivo. Argumenta-se que dificuldades interpretativas na Maçonaria não decorrem de incapacidade intelectual, mas da utilização de níveis de assimilação inadequados frente ao objeto simbólico, sob mínimo esforço ou baixo estímulo.

Propõe-se que a Literatura (particularmente a de caráter histórico e simbólico), evocada pela leitura e escrita, constitui a ferramenta mais eficaz para harmonizar e elevar o Ciclo Assimilador, promovendo estabilização de significados, ampliação de esquemas, reflexão produtiva e sintetização adequada. Conclui-se que o estudo sistematizado é o meio pelo qual o Maçom transforma informação em Sabedoria e torna-se, segundo o ideal de Mackey, o verdadeiro “irmão inteligente”.

O presente artigo não tem por objetivo esgotar a amplitude do tema, mas apenas apresentar uma síntese, de pleno caráter introdutório dos pontos centrais que podem orientar a reflexão do leitor. O assunto é amplo e complexo; portanto, esta exposição delimita apenas seus contornos essenciais.

Introdução

Como proposto em outro momento, as principais definições de Maçonaria que partem de Webb (1859), Preston (1867) e Coil (1973) a elucidam como um sistema. Seguindo esse cerne, observamos ainda pelas mesmas definições que tal sistema tem por objeto o ensino moral, o qual contará com mecanismos didáticos específicos para o fomento da internalização dessa moral, seguida pelo gradativo desenvolvimento cognitivo em âmbito multiforme, que denominamos inteligência e, em última instância, seu ápice prático: a Sabedoria.

Embora os meios didáticos sejam os mais diversos para o alcance do entendimento, o agente central dessa transformação é o indivíduo, que, em contato com o ambiente e com os objetos que lhe são apresentados, deverá exercitar-se em prol do êxito em assimilá-los. Esta assimilação, por sua vez, proporcionará o alcance gradativo da figura ideal de inteligência mencionado por Mackey (2024). Para investigar como esse fenômeno trifacetado (biológico, psicológico e lógico) se dá, a Epistemologia se torna a ferramenta primordial.

 

Conhecimento x Sabedoria x Inteligência

Quando falamos de Inteligência, é denotado de forma quase que automática, como um fenômeno exclusivo a indivíduo aplicado aos estudos. Como se fosse uma virtude do intelecto, muitas vezes confundindo-a com Conhecimento e Sabedoria. A Epistemologia em sua matéria de estudo também propõe suas definições para estes três aspectos, o que torna aparentemente oportuno de esclarecimentos, pois, embora sejam conectados, têm sua gênese e manifestação distintas.

Conhecimento

Ato ou efeito de conhecer por meio da razão e/ou experiência; cognição (Michaelis, 2025).

É, epistemologicamente, a incorporação real de uma informação, resultado do processo psicológico (ou até biológico) de assimilação dos objetos por meio do jogo das ações reais ou virtuais (Piaget, 1967).

Sabedoria

Acúmulo de conhecimentos acerca de assuntos diversos; erudição (Michaelis, 2025).

Etimologicamente é um arcabouço de conhecimentos; epistemologicamente, só pode ser manifestada após uma quantidade considerável de informações assimiladas de modo contínuo sob o regime das operações formais (Piaget, 1967). Como trata de adequação prática da informação assimilada, deixa de ser fenômeno puramente biológico e passa a exprimir exercício mental complexo, operando sobre objetos reais e, sobretudo, sobre conteúdos abstratos e hipotéticos.

Inteligência

Capacidade de resolver situações novas com rapidez e êxito, adaptando-se por meio do conhecimento adquirido (Michaelis, 2025).

Epistemologicamente, Inteligência é adaptação: o equilíbrio entre assimilação (integração de dados a estruturas cognitivas) e acomodação (modificação ativa dos esquemas pela ação do meio). Não é uma faculdade isolada, mas um estado dinâmico de equilíbrio. A rapidez e o êxito apontados pelo dicionário também são determinados por fatores biológicos e lógicos: interesse, esforço, valor dos objetos e das soluções (Piaget, 1967).

 

Fundamentação Teórica

Definição de Epistemologia

Epistemologia é a teoria do conhecimento e tem por objetivo investigar o conjunto de conhecimentos sobre a origem, as etapas e os limites do conhecimento humano Michaelis (2025).

Sob definição nossa, complementamos que, embora seja um ramo da Filosofia, utiliza do rigor científico em suas investigações. Ao denominar-se Epistemologia Maçônica, dá-se enfoque a como essa natureza e suas etapas se manifestam e podem ser racionalmente otimizadas no âmbito de ensino concernente aos estudos da Ordem.

Desta forma, discorreremos acerca da Epistemologia como matéria sob o olhar analítico de Piaget (1967), autoridade de nossa linha investigativa, passando depois pela transliteração conceitual à Maçonaria e, por fim, pelos meios mais eficazes de otimização do estudo a partir desse prisma.

A elaboração do Pensamento

A Epistemologia, especialmente pelo viés genético, investiga a construção das estruturas internas da cognição humana, propondo que o conhecimento não é algo predeterminado nelas, mas construído efetivamente e continuamente (Piaget, 1971). Essa construção é mediada pela inteligência (que equilibra as trocas entre indivíduo e objetos) e é contínua porque se realiza por meio dos grupos operatórios do pensamento, enriquecidos pelo Ciclo Assimilador.

Os Agrupamentos Operatórios

Esses agrupamentos são divididos em quatro fases principais: Pensamento Simbólico, Pensamento Intuitivo, Operações Concretas (manifestas até cerca de onze anos) e Operações Formais (a partir dos doze anos). Conceitualmente consistem no modo de equilíbrio final dos níveis de pensamento e da capacidade cognitiva de angariar conhecimento, sendo interligados e interdependentes. A evolução ocorre pelas novas formas de coordenação mental impostas pelo tipo de operação alcançado.

Na idade adulta, o indivíduo dispõe do ápice dos mecanismos cognitivos: com as operações formais, inclui-se mais do que a realidade, abrindo-se um universo de construção e possibilitando um pensamento livre diante do mundo real (Piaget, 1967).

O Ciclo Assimilador

A assimilação (integração de dados a estruturas cognitivas ou constituição de novas estruturas sob forma de esquemas) apresenta níveis progressivos que constituem o Ciclo Assimilador. Embora esses níveis se tornem mais complexos, a reversibilidade mostra que nem sempre são acessados plenamente; o adulto pode recorrer a níveis mais primitivos conforme o conteúdo, o interesse e a disposição cognitiva.

1. Assimilação Reprodutora

Nível básico, ligado à imitação. É gerado por ações primitivas pouco coordenadas e reproduz esquemas existentes correlatos ao nível sensório-motor, podendo criar variações de mesmo nível.

2. Assimilação Recognitiva

Estabiliza significados; permite reconhecer objetos conhecidos e formar esquemas de nível posterior.

3. Assimilação Generalizadora

Permite categorizar objetos, ampliar e coordenar significados, estruturando famílias de conceitos.

 

Piaget destaca que esses estágios, embora modestos, carregam potencial exponencial para combinações, abstrações e coordenações cada vez mais complexas.

 

4. Abstração

Abstração simples que permite ao indivíduo incorporar novos esquemas a partir de propriedades extraídas dos próprios objetos ou das ações exercidas sobre eles.

5. Assimilação Formal

Ápice do ciclo, acessível no nível das operações formais. É o pensamento hipotético-dedutivo, capaz de raciocinar sobre suposições sem a necessidade de um objeto.

A Epistemologia Maçônica

 

O irmão inteligente espera daquele que se senta no lugar da sabedoria não só a capacidade de explicar as cerimônias que distinguem a nossa instituição, mas também a de rastreá-las até a sua fonte primitiva.” – Albert G. Mackey

A Maçonaria é composta por seres adultos, portanto, com capacidade cognitiva consolidada. Entretanto, observa-se frequentemente certas dificuldades de interpretação, crítica ou percepção simbólica. Como explicado, isso ocorre porque, apesar da estrutura formal estar disponível, o Ciclo Assimilador pode operar em níveis inadequados (sobretudo recognitivos ou generalizadores) quando o conteúdo exige níveis formais.

Como o Ciclo Assimilador atravessa todas as estruturas operatórias e se reorganiza conforme elas, é essencial que o Maçom estudante o harmonize mediante instrumentos adequados e é aqui que a Literatura se torna fundamental.

 

A Assimilação e a Literatura

A Literatura, ao apresentar conteúdos progressivos, narrativas históricas, articulações simbólicas, complexidade conceitual e eventual processo criativo de escrita, constitui o instrumento epistemológico primordial ao desenvolvimento cognitivo do Maçom. Dificuldades interpretativas (como leitura, dedução ou reflexão crítica) resultam não de incapacidade, mas de inadequação entre o nível de assimilação empregado e o nível exigido pelo objeto.

Quando o símbolo demanda assimilação formal, mas o indivíduo opera recognitivamente, a interpretação falha.

 

Como a Literatura otimiza o Ciclo Assimilador

A leitura sistemática e, em última instância a escrita, mobilizam e reorganizam cada nível do Ciclo Assimilador.

Para melhor elucidação, utilizaremos por exemplo o símbolo do Esquadro.

1. Fortalecimento da Assimilação Recognitiva

A leitura repetida e o contato com conceitos estruturados estabilizam significados. O símbolo deixa de ser mero desenho e passa a ser um objeto reconhecido com constância semântica.

Exemplo: O símbolo do Esquadro, é facilmente reconhecido como uma ferramenta de arquitetura, sob apresentação simples em elucidação ao seu uso primário sob leitura dos Rituais. Aqui a lembrança é predominantemente o acesso de informação e a externalização ainda é a imitação.

2. Ampliação da Assimilação Generalizadora

Ao expor o estudante a variações, paralelos, correspondências e contextos históricos, a literatura permite reorganizar categorias internas.

O Maçom aprende a ver o símbolo em família, não isolado.

Exemplo: Progredindo nos estudos, agora observando que o Esquadro se liga a um grupo de símbolos rudimentares e a generalização fomenta a internalização deste com os demais símbolos de uso intrínseco ao seu grau. Aqui, ainda já em nível de hábito, o símbolo suscita conexão instantânea com outros símbolos agrupados consigo e a externalização ainda recorre à imitação.

3. Estímulo à Abstração

Textos simbólicos, doutrinários e filosóficos obrigam o sujeito a desprender o significado do objeto perceptivo.

O símbolo deixa de ser imagem e passa a ser conceito.

Exemplo: A partir deste nível o Esquadro, é percebido junto de sua moral intrínseca e as formas que este instrumento possibilita traçar, pode levar ao indivíduo a outras mais, o conectando à Geometria. Aqui, a percepção é aumentada e uma conjunção de abstrações pode ser obtida a partir do objeto, como perceber os pormenores de causa e efeito.

4. Exercício da Assimilação Formal

Somente quando a literatura exige hipóteses, correlações, deduções, analogias, reconstruções e interpretações, o sujeito acessa plenamente o nível formal do pensamento. Isso se dá, predominantemente pelas perguntas, estimulando um estudante verdadeiramente racional, autônomo e criativo.

Exemplo: Este ápice engendra uma série de questões que retroalimentarão a busca por mais insumos como A mensagem moral predominantemente inculcada pelo Esquadro, faz sentido? Por que escolheram essa mensagem e não outra? Consigo enxergar novas mensagens a partir do mesmo símbolo? Aqui, há um novo estímulo à busca por mais fontes e, em ocasiões de plenitude do exercício, o estudante se põe a escrever e aplicar suas percepções ao objeto, transformando o meio que está inserido.

Conclusão

A Literatura não é, nem proporciona um mero acúmulo de informação, mas se mostra um instrumento epistemológico capaz de reorganizar, estimular e elevar os mecanismos internos da inteligência humana. Se a inteligência é o equilíbrio dinâmico entre assimilação e acomodação, e se esse equilíbrio depende do esforço ativo do indivíduo, a leitura e a escrita (em última etapa como plena assimilação) tornam-se meio privilegiado para que o Maçom intervenha em seu próprio processo cognitivo, zelando ativamente por suas estruturas mentais para que sua inteligência as adapte adequadamente. Em última instância, todo este processo fomenta um organismo cada vez mais saudável pois, a inteligência tem [imensurável] importância capital na vida do espírito e do próprio organismo (PIAGET, 1967).

Assim, o “irmão inteligente”, segundo Mackey (2024), não é o que memoriza cerimônias, mas o que compreende suas causas, origens e fundamentos. Em termos piagetianos, é aquele que domina não só o conteúdo, mas as operações pelas quais o conteúdo se transforma em conhecimento estável e, por fim, em Sabedoria, em pleno desejo por desenvolver-se, antes de tudo.

Se a Maçonaria é um sistema de moral velado por alegorias e ilustrado por símbolos, cabe ao estudante transformar esse sistema em substância cognitiva, também sistemicamente. A Literatura (especialmente sob o rigor da Escola Autêntica) é o caminho pelo qual o Maçom ascende da repetição à compreensão, da compreensão à internalização e desta à efetiva Sabedoria. Esta é a plena assimilação que propomos a busca.

Autor: Samuel Benedicto

 

Bibliografia

PIAGET, Jean. A Epistemologia Genética. 1ª ed. Rio de Janeiro: Editora VOZES, 1971.

PIAGET, Jean. Psicologia da Inteligência. 2ª ed. Rio de Janeiro: Editora Fundo de Cultura, 1967.

PRESTON, William. Illustrations of Masonry. With copious notes and additions by George Oliver. New York: Masonic Publishing and Manufacturing Co., 1867.

WEBB, Thomas Smith. The Freemason's Monitor or Illustrations of Masonry. Edited by Rob Morris. Cincinnati: Moore, Wilstach, & Co., 1859.

COIL, Henry Wilson. A Comprehensive View of Freemasonry. Virginia, EUA: Macoy Publishing & Masonic Supply CO., Inc., 1973.

MACKEY, Albert G. Léxico da Maçonaria - Tradução Samuel Benedicto. 1ª ed. São Paulo: Clube de Autores, 2024.

EPISTEMOLOGIA. 2025. Disponível em: <https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/epistemologia/>. Acesso em: 16 out. 2025.

CONHECIMENTO. 2025. Disponível em: < https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/conhecimento/ >. Acesso em: 16 out. 2025.

SABEDORIA. 2025. Disponível em: < https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/sabedoria/ >. Acesso em: 16 out. 2025.

INTELIGÊNCIA. 2025. Disponível em: < https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/intelig%C3%AAncia/  >. Acesso em: 16 out. 2025.

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