Sic transit Gloria mundi - Memento mori

Por Philipus Valentim

A vida como ela é. O ciclo natural das coisas como devem ser conforme a visão linear da vida é muito bem definido e, talvez, até simplista demais para vermos algum brilho no trajeto de nascer, crescer, reproduzir e morrer. O que nos diferencia do padrão adotado pela ciência é o que fazemos entre o nascer e o morrer.

Símbolos e alegorias como sistema didático nos levam a diversos ensinamentos sob finalidade de abrilhantar nossa existência. Nos levam também, a refletir em como fazer nossa passagem pelo plano material para que não seja um simples caminhar do amanhecer ao anoitecer da existência e a única forma de sermos lembrados é deixando um legado que resistirá a ação do tempo. Muitos símbolos escritos ou ilustrados exercem essa função, mas há um em especial o qual abordaremos que traz um excelso significado: a expressão latina "Memento Mori”.

Quando um general romano voltava vitorioso de alguma missão militar, era formado um grande cortejo para homenagear esse feito. A cidade toda aplaudia e comemorava enquanto glorificavam o feito do general e ele em sua carruagem, enquanto um homem sussurrava da parte de trás de seu meio de locomoção a seguinte frase:

Respice post te. Hominem te esse memento. Memento mori.

Em português seu significado se traduz como: 

Olhe ao seu redor. Não se esqueça de que você é apenas um homem. Lembre-se de que um dia você vai morrer.

Essa passagem nos faz refletir sobre a brevidade da vida e sobre a maneira de como as coisas mundanas são passageiras. Naquela instância, o povo aplaudia o feito do general, mas poderiam também cortejar seu corpo inanimado após a fatalidade da guerra. 

Um objeto que se une unissonamente à reflexão acerca da brevidade da vida, é a plaqueta de identificação militar. Também chamadas de dog tags, surgiram informalmente no século XIX a fim de possibilitar uma rápida identificação de soldados mortos ou gravemente feridos em combate. Com o passar do tempo, seu uso tem sido adotado como um símbolo e sua adoção como artefato de conscientização pessoal, onde, em plena ativação noética (nóesis), ou seja, a epifania que faz transcender à percepção objetiva, relembra àquele que o usa que a vida passa muito rápido para deixar para o amanhã os feitos que podem ser realizados hoje e, também lembra que, nenhuma glória deve ser levada como uma maneira de diminuir outras pessoas. Sic transit gloria mundi: A glória desse mundo é passageira.

Todo Maçom tem a crença em uma vida futura, porém, não se sabe como é essa vida futura. Se fosse uma verdade absoluta como funciona a vida futura, não seria necessária uma crença, pois teríamos certezas. Entendendo que os grãos de areia de nossa ampulheta não deixam de cair em momento algum, é uma obrigação do Maçom trabalhar para iluminar a vida daqueles que o cercam. Fazer sempre o melhor que pode ser praticado na base da moral maçônica que é o amor ao próximo. Não se sabe se teremos uma nova oportunidade de fazer a vida material valer a pena, como uma reencarnação, por exemplo, mas o que nos diferencia dos demais seres do reino animal é a inteligência e o raciocínio lógico. Desperdiçar essa dádiva do pensamento em coisas que não agregam para o bem-estar da pátria e da humanidade é negligenciar o verdadeiro chamado de todo ser humano que é trabalhar unidos para transpor as adversidades da vida.

A verdadeira imortalidade material está em deixar um terreno fértil para que os próximos que seguirão nossas pegadas não precisem passar pelos mesmos problemas que passamos. Toda vez que seu nome for lembrado como referência de boa pessoa, honestidade, sinceridade, amor fraterno e praticante das verdadeiras virtudes, ali estará sua imortalidade. A menção de quem te mantém vivo na memória, esta sim, é a verdadeira imortalidade material.

"Respice post te. Hominem te esse memento. Memento mori."

Vanitas - Still Life, por Pieter Claesz, 1625.


 

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