A apologia de Sócrates e o Ideal Maçônico
Por Philipus Valentim
“Acredite na justiça, mas não a que emana dos demais e sim na tua própria.”
Bushido – O Código Samurai
A apologia de Sócrates é, sem dúvida, um dos, senão o mais famoso, texto que Platão registrou em sua obra sobre seu mestre Sócrates. Penso o quão sortudos somos em ter uma cena tão completa sendo registrada por um terceiro e que, ainda hoje, é referência para o estudo do estado democrático de direito.
Não se faz mister adentrar nos pormenores da cena, haja vista que é algo de domínio público e muito difundido para o cidadão. Me empenharei em traçar o paralelo entre a causa, efeito e modo da defesa de Sócrates, que se defendia justamente, e culminou em sua execução sumária pela ingestão de cicuta, com o modo que a Maçonaria tem de tratar situações análogas ao caso.
A justiça real é algo que não existe de forma definitiva. O direito trata-se de uma matéria humana, não exata. Tomemos como base um assassinato e pensemos sobre como seria justiça para ambos os lados. O acusado, sendo condenado, será privado de sua liberdade. Para a família da vítima, não se fez real justiça, pois seu ente querido não retornará para seus braços após sentença de privação de liberdade do réu. Fez-se justiça?
Enquanto o acusado, sendo culpado, se pudesse optar, certamente declarar-se-ia inocente ou, até mesmo, optaria por suspender sua sentença se por ventura se declarasse culpado. Nesse caso, houve justiça?
A família optaria, certamente, pela lei de Talião que existe no código de Hamurabi e solicitaria que a vida do réu fosse ceifada e, assim, sentiram-se vingados. Indago: a vítima retornou ao seio de sua família nesse caso? Houve justiça?
Entendamos aqui que o direito não trata de justiça exatamente, mas sim de intermediar conflitos de forma que a barbárie seja evitada. Existe uma máxima no direito que prega que entre a lei e a justiça, deve-se prezar pela justiça, mas nos casos acima vimos que a justiça é extremamente relativa no plano terreno.
Até o momento traçamos um cenário onde o réu é realmente culpado. No entanto, no caso de Sócrates, foi acusado indevidamente pelos motivos genéricos de perverter a juventude e proferir palavras contra o panteão próprio dos gregos.
O motivo real da revolta foi nada além da maledicência de contemporâneos do antigo mestre e, neste caso, o réu seria inocente.
Após árdua e eloquente oratória, Sócrates, homem douto que era, não logrou êxito em sua defesa e foi condenado à pena capital. O mestre aceitou sua sentença e ingeriu cicuta. Sendo já de idade avançada, acolheu a morte certo de sua inocência. Tendo em vista que a lei dos homens era implacável, não se esquivou do determinado pelo conselho. Sacrificou-se sendo inocente. Algumas linhas filosóficas trazem Sócrates como predecessor de Cristo, que também morreu inocente, se levarmos em conta a teologia cristã.
O Maçom deve estar pronto para seguir até as últimas consequências quando se trata do “certo” - diante dos princípios da sã moral. Não deve se acovardar diante das afrontas que o mundo profano certamente o imporá. Quantos irmãos no passado foram até o último suspiro de seus corpos para que pudéssemos nos reunir hoje sem perigo iminente de execução?
A Maçonaria não solicita sacrifícios. Pede somente disciplina e empenho no exercício contínuo para ser um homem melhor a cada dia e, embora por vezes, sempre seremos visitados pelo sentimento de que poderia ter feito mais na Grande Obra.
O ideal Maçônico pede aprimoramento constante, onde a reflexão é o alicerce. Após devidamente absorvidas as linhas transcorridas, pergunte a si mesmo: Quanto tenho feito para ser o melhor que posso ser? Quanto ainda posso me empenhar? Mesmo sabendo que o único sacrifício que preciso oferecer é meu tempo, o quanto estou disposto a empenhar?
O justo emana de si a justiça que quer ver no mundo. A trajetória de Sócrates, que foi um divisor de águas na filosofia, deve ser observada como base de muitas virtudes, pois impelido por suas convicções foi até o mais alto custo para exemplificar o que seria a justiça emanada de si. A real pedra perfeita e insubstituível na construção social, antes de tudo, age como exemplo. Relativizar a justiça contrapõe diretamente ao ideal Maçônico. Mas a ação pela razão, que suscita a imparcialidade faz toda percepção elucidativa à sua volta e prezar pelo correto, se torna uma questão de honra, mesmo quando venha a doer na própria carne.
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| A Morte de Sócrates por Jacques-Louis David, 1787. |
Referência Bibliográfica
Platão. Apologia de Sócrates – trad. Edson Bini. 3a ed. São Paulo: Edipro, 2019.



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