O Cálice

A canção “Cálice” de Chico Buarque e Gilberto Gil

Por Philipus Valentim

O conteúdo desta peça de arquitetura está enviesado por reflexões e conjecturas pessoais referentes à canção em questão e não tem relação direta com os autores e compositores. É uma obra musical para se apreciar e relacionar com o período em que foi composta e apresentada.

 A canção composta por Chico Buarque e Gilberto Gil é uma viagem em um tom melancólico e com as dores do sofrimento do período em que foi popularizada. A música que é datada em 1978 testemunhou um período chamado de ditadura militar no Brasil, que foi o intervalo de tempo em que a presidência do país era decidida por eleições indiretas de colegiados favoráveis ao regime imposto. O bipartidarismo era o modelo de proposta dos candidatos. Somente poderiam existir estes dois partidos e a ARENA entrava no papel de “situação” enquanto o MDB figurava como “oposição”. A ditadura militar no Brasil perdurou de 1964 até 1985. A constituição vigente até hoje foi promulgada em 1988. Portanto, mesmo durante o período “pós-ditadura”, tivemos uma constituição aos moldes do que era previsto na época por três anos. 

É salutar definir o que é um golpe e o que é uma revolução, pois em muitas fontes históricas encontramos esse período com o nome de “Revolução de 1964”. A revolução deve partir do povo. Do cidadão comum. A revolução é uma vontade da grande massa da população. 

O golpe parte de dentro do estado. O exército sendo uma engrenagem do estado, a tomada do poder por parte dos militares é, necessariamente, um golpe e não uma revolução. 

Semelhantemente, a revolução francesa foi deflagrada pela revolta da população contra a coroa e, assim, a bastilha foi tomada em 14 de julho de 1789. 

A ditadura militar foi um momento em que todo e qualquer trabalho de entretenimento e cultural deveria ser avaliado por um grupo de “censores” que diziam o que era permitido para a divulgação ao público em geral e o que era “subversivo”. 

A canção em foco, foi uma das obras que foram censuradas à época e traz consigo a mensagem da resistência que, em meu parecer, pode ser uma maneira de se combater a tirania. A canção tem um jogo de palavras para que os censores não notassem sua mensagem. Em diversos momentos, os autores citaram a frase: “Pai, afasta de mim este cálice”. Frase esta que referência a fala de Jesus Cristo na bíblia, onde o versículo diz: 

“Indo um pouco mais adiante, prostrou-se com o rosto em terra e orou: "Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como tu queres." (Mateus 26:39) 

A relação superficial entre as duas formas de expressão da mesma sentença traz a conotação de religiosidade no escopo da música, contudo, notamos que na pronúncia, a palavra “cálice” é facilmente transformada em “cale-se” e essa era a mensagem que os autores propunham. Afastar de si a censura, o medo e a imposição do que não era salutar ao cidadão. Afastar o “cale-se” de não poder expressar uma ideia, sob pena de desaparecer nos “porões da ditadura”. 

Ainda neste contexto, a música se refere ao cálice cheio de vinho tinto de sangue. O trecho me faz refletir quanto sangue foi derramado de pessoas que buscavam somente o direito de terem opinião própria. Quando a tirania escolhe o que pode ser vivido ou não, sangue é vertido. Continuando com a crítica, ainda é possível observar os autores trazendo a referência ao que foi feito com Cristo na teologia cristã:

“De que me vale ser filho da santa? 
Melhor seria ser filho da outra 
Outra realidade menos morta 
Tanta mentira, tanta força bruta”

De que vale Cristo ter nascido de um ventre puro, se da mesma forma foi julgado pelo povo, Pôncio Pilatos lavou as mãos perante a decisão do povo, e aquele que era a representação corporificada do Deus adorado pelos Judeus foi torturado e assassinado, tendo sua sentença de morte decretada por uma lança que transpassou seu flanco. Melhor seria ser filho de qualquer outra, desta forma, o destino seria o mesmo, no entanto, com menos ônus de ter origem nobre e uma missão tão delicada quanto a que foi imposta, de tal forma, que o próprio Cristo pediu para afastar o cálice de si. Da mesma forma é o ônus de se carregar uma mensagem. É sofrer as dores sozinho para que outrem não precise sofrê-la.

Onde entra a Maçonaria nessa história?

É necessário que o Maçom esteja pronto para sofrer as duras penas de se opor à tirania. A força continua sendo a ferramenta do tirano e, mesmo que não seja braçal, é por presença, é por palavra e é por atitude. Essa escala, não é em vão, haja vista que a classificação de “uso progressivo da força” é exatamente nesta ordem. Em primeiro lugar, o agente da força a usa por estar presente. Em seguida, usa do verbo para imprimir força, até que chega o momento do terceiro nível que é o controle de contato, que é análogo a evitar o argumento racional e ignorá-lo, por fim, temos o contato físico. Vamos nos ater aos níveis mais baixos de uso progressivo da força, pois na sequência, teremos a força não letal e a força letal. Pontos onde não queremos acreditar que a ação coercitiva possa atingir, mas que existe da mesma forma.

O Maçom tem que ser o porto-seguro para quem não teve esse chamado. Temos que garantir que todas as opiniões sejam ouvidas, mas que a razão seja o fiel da balança que faz os pratos das situações serem pesados. Não podemos nos deixar enganar pela premissa de que o Maçom deve ser somente um agente teórico, mas tem o dever de ser um agente da prática.

A influência francesa na Maçonaria nos faz pensar que a Ordem deve estar sempre ligada à ideais políticos. Fato que, de tão absurdo, toca o execrável. O Maçom não precisa se revestir de uma bandeira para que o justo seja feito. O Maçom é aquele que une os opostos e intermedia a vivência saudável dos que circundam sua seara de vivência. O Maçom deve lutar sempre por garantir que o menos favorecido tenha tanta voz quanto o que pertence ao lado que vence a discussão. Batalhando sempre para afastar de todos o cálice (cale-se) que o despotismo oferece cheio de cicuta.

Para que a Ordem prospere, precisamos saber separar o que é opinião do que é impulso de imposição mandatória. Saber respeitar os limites dos irmãos e do público em geral é de suma importância para que o “cálice” não venha a se encher com a tal bebida amarga que é citada na música, que é tão bem conhecida do Maçom.

A Ordem é perfeita. A Maçonaria é irretocável. Quem precisa de retoques é o Maçom que, mesmo com todas as suas obrigações de iniciado, continua sendo um homem e com todas as tendências de erro que a condição humana pode impor. No entanto, não podemos usar de justificativa a inevitável existência do erro, para que ajamos de forma displicente. Que nossas luvas permaneçam sempre brancas.


Referências Bibliográficas

Apostila Universidade Cruzeiro do Sul. (2021). A Revolução Francesa. Curso de História, Universidade Cruzeiro do Sul.

Apostila Universidade Cruzeiro do Sul. (2021). A Ditadura Militar no Brasil. Curso de História, Universidade Cruzeiro do Sul.

Buarque, C., & Gil, G. (1978). Cálice. No álbum Chico Buarque. Philips.

Fregonezi, R. M. C., & Priori, Â. (2017). A ditadura militar no Brasil: golpe, repressão e tortura. Anais do 8º Congresso Internacional de História, Universidade Estadual de Maringá. DOI: 10.4025/8cih.pphuem.3897

Coggiola, O. (2014). Novamente, a Revolução Francesa. Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados de História, PUC-SP. DOI: 10.23925/2176- 2767.2014v49p13-341. 

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