Literatura Maçônica e a Escola Autêntica

 Resumo

Este artigo apresenta uma introdução às obras fundamentais da Literatura Maçônica, seu contexto e por fim sua culminância com o surgimento de sua Escola Autêntica, fazendo exposições acerca do arcabouço literário maçônico concernente, como desenvolvimento e objetivo. Sob elucidação da perspectiva técnica que abrange à essa escola, questiona-se como a historiografia, enquanto uma de suas ferramentas, colabora para o entendimento de sua perspectiva sistêmica geral da Maçonaria. Destaca-se ainda, a importância do estudo historiográfico maçônico para a formação e desenvolvimento da assimilação e adequada interpretação do Maçom. Por fim, sugere-se a urgência de se fomentar obras em língua portuguesa sob o mesmo rigor acadêmico, como meio de preservar, inovar ou expandir insumos literários com lastro à tradição da Ordem, bem como, pautados na ciência. O seguinte artigo não visa esgotar o tema, porém, exercer certo papel provocativo, que possa estimular positivamente ao público maçônico na busca por fontes robustas e confiáveis que os leve seguramente à inovação unida pela tradição e por fim, colaborando para a criação de novas obras no idioma português, transpondo as barreiras idiomáticas que perduram há tempos, sendo esta última o cerne da problemática que desconecta, consideravelmente, a literatura maçônica brasileira em detrimento da mundial. Observando atentamente o presente conjunto de exposições como um “mapa”, acredita-se na possibilidade de se criar um ciclo benéfico e exponencial de consumo e fornecimento de bons materiais arraigados ao propósito primordial da Ordem.


Fundamentação Teórica

A literatura maçônica, como um todo, deve ser compreendida como a composição de dois eixos subsistêmicos ligados diretamente à sua perspectiva sistêmica geral, a saber: o simbólico e o didático-pragmático. O primeiro, concerne ao uso do escopo de textos literários, geralmente os escritos mais antigos em existência, repletos de linguagem figurada, poética e mitológica, como recurso figurativo de ensinamentos filosóficos herdados da época operativa e preservados pela tradição. O segundo, tange diretamente a uma visão sistemática de ensino, onde idealmente, requererá uma linha metodológica pautada em evidências e dados autênticos. Observa-se que, à medida em que a Ordem se institucionalizou, houve uma crescente de textos não-literários mediante à necessidade de maior organização de seu funcionamento interno, consolidação doutrinária e rastreabilidade dos fatos, buscando também, satisfazer ao admirável nível de instrução e cognitivo das mentes brilhantes que na ocasião participavam da construção do que chamamos de maçonaria especulativa, especialmente anglo-saxônica.

No que concerne ainda ao subsistema didático-pragmático, existe ainda, uma dinâmica entre o mistério velado e a transparência normativa e histórica que constituem a base do corpus textual maçônico no geral, sendo necessariamente uma complementar à outra. Como argumenta Mackey (Léxico da Maçonaria, 1885), a compreensão da Maçonaria exige não apenas familiaridade com as cerimônias, mas a capacidade de rastreá-las até suas origens. Tarefa essa, viabilizada apenas por meio do estudo de seus registros. Porém, ao recorrer aos necessitados registros, é possível identificar as mais diversas fontes e linhas de pensamento, das quais somente o maçom estudioso e crítico consegue perceber o abismo de diferenças na exposição argumentativa, e em última instância as reconhecerá classificadas, de forma totalmente polarizada, em alguma das duas fundamentais escolas de pensamento maçônico: a Escola Autêntica de Maçonaria e a Escola Romântica de Maçonaria. Ambas propõem o caminho historiográfico em objetivo, porém, a disposição de insumos comprobatórios dos argumentos as difere em sua essência. A mais adequada em linhas gerais é a que trabalha sob rigor científico, o que imediatamente sugere maior importância à chamada linha Autêntica de estudos. E é aqui que recorremos à Literatura (no sentido amplo que abrange todo o corpo de escrita) que unida às necessárias evidências sob rigor científico/acadêmico, viabiliza o critério de compreensão pessoal mencionado por Mackey, que também como complementa a Gênese do símbolo (Piaget, 2010), é esperado o desenvolvimento mais adequado de referências cognitivas, também chamadas de esquemas noéticos (de nóesis, estruturas mentais de referência) possibilitando por fim, interpretações de forma lúcida e com raciocínio crítico. Logo, as obras que oferecem insumos salutares ao arcabouço mental do estudioso são os escritos rudimentares primeiramente, seguidos pelas obras propostas por autores da Escola Autêntica, ambos tendo por finalidade, o benéfico estudo livre de vieses e de justa investigação.

Breve contexto da Literatura Maçônica Brasileira

Apesar da riqueza simbólica e sistemática da Maçonaria, a literatura maçônica em língua portuguesa (e especialmente advinda de autores brasileiros) ainda apresenta tímida representatividade no quesito reprodução de linhas e tradução dos textos primordiais. Uma amostragem realizada na biblioteca virtual da Confederação Maçônica Interamericana revelou que dentre 328 obras catalogadas, 13,4% eram de língua portuguesa, o que lança luz sobre, tanto acerca da carência de desenvolvimento de obras literárias maçônicas em língua portuguesa (e com bom nível de qualidade), quanto ao potencial latente dessa expansão, haja vista ser o segundo idioma predominante das obras, logo após ao idioma inglês representante de 72%, por motivos óbvios intrínsecos à origem da Ordem.

Dentro deste pequeno número de obras de autores brasileiros, observa-se ainda, que sua grande maioria se atém à obsoleta linguagem romancista, onde a bibliografia pode ser inexistente e todo o contexto está aberto a conjecturas e crenças diversas. Importante destacar, que a obsolescência da linguagem se dá, mediante à progressão mundial da escrita maçônica em número e em qualidade, estando mais alinhados à linguagem autêntica.

Vale ressaltar ainda que, quando se trata da expansão do arcabouço literário da Ordem, em português, o caminho mais coerente é a fundamentação seguida da elaboração livre, ou seja, aqui vemos espaço para o nobre trabalho da disponibilização de obras clássicas e indispensáveis, por meio das traduções. Estas obras, serão as fontes historiográficas da Ordem que fundamentarão às demais que possam ser elaboradas. Obras tais, as quais exporemos algumas a nível de exemplo a seguir.

A Escola Autêntica de Maçonaria

Em 1884, foi fundada a primeira loja de pesquisas do mundo chamada Loja Quatuor Coronati nº 2076, em Londres. Desde então, iniciou-se uma nova linha de estudos maçônicos sob a proposta de pesquisas sobre a história da Maçonaria e o desenvolvimento de insumos literários com método científico, crítico e documental em declarada oposição às narrativas românticas que cresciam exponencialmente desde a época operativa.

Embora ainda de forma abstrata, sem uma clara classificação como temos atualmente, essa busca por obras literárias bem embasadas e a desaprovação do corpus textual existente na ocasião, impeliu a geração de uma obra muito importante que precederia à existência da Escola Autêntica de Maçonaria. Entre 1882 e 1887 é então publicada a ilustre obra de Robert Freke Gould History of Freemasonry (História da Franco-maçonaria), demonstrando o benéfico pragmatismo do viés científico aplicado à investigação dos temas da Maçonaria, bem como, colocando o notável irmão Gould no pedestal de pai da Escola Autêntica. Na obra o autor critica a ausência de dados comprobatórios de muitas lendas e obras escritas e como base argumentativa, expõe trechos de outras obras julgadas autênticas junto de suas respectivas referências bibliográficas. Interessantemente, aqui se tem o que seria o protótipo de classificação das duas principais escolas de pensamento maçônico pois Freke Gould, nomeia aos materiais incongruentes como “relatos animados e vivazes” classificando ainda seus autores como líderes da “Escola Criacionista”, o que claramente foi empregado como linguagem figurativa propondo uma equivalência de origem entre o criacionismo cristão e a narrativa romancista maçônica, sendo o elo de ambas, a incerteza dos fatos unida à inexigência de provas de autenticidade.

Até um período relativamente recente, a história e as antiguidades da Maçonaria estavam envoltas em uma nuvem de obscuridade e incerteza. Tratado, em geral, com um desprezo mal disfarçado pelos homens de letras, o assunto foi, em grande medida, abandonado a escritores cujo entusiasmo substituía o conhecimento e cuja principal qualificação para a tarefa era a filiação à Fraternidade. Por outro lado, porém, deve-se afirmar com justiça que os poucos literati que escreveram sobre esse tema tampouco agradável demonstraram uma credulidade que, no mínimo, era compatível com seu conhecimento e, ao colocarem sua imaginação a serviço dos fatos essenciais para as teorias que avançavam, confirmaram a crença pré-existente de que toda a história maçônica é falsa.

Assim, Hallam, em sua obra Middle Ages (1856, Vol. III, p. 359), escreveu: “O curioso tema da Maçonaria tem sido tratado apenas por panegiristas ou caluniadores, ambos igualmente mentirosos”. Os caprichos desta última classe foram agradavelmente caracterizados como “os relatos animados e vivazes dos analistas maçônicos modernos, que demonstram em suas histórias uma independência altiva dos fatos e compensam a escassez de evidências com uma surpreendente fecundidade de invenções”.

A “Maçonaria especulativa”, como eles a chamam, parece ter-lhes favorecido com uma grande parte de seus materiais abstratos e, com escadas, andaimes e tijolos de ar, eles construíram suas estruturas históricas com uma facilidade maravilhosa. Assim escreveu o Dr. (posteriormente Bispo) Armstrong, de Grahamstown, em The Christian Kemembrancer, julho de 1847.

O leitor crítico tende, de fato, a lamentar que os líderes da escola criacionista não tenham seguido o exemplo de Aristóteles, cuja “sabedoria e integridade”, Lord Bacon elogia em The Advancement of Learning, por ter “reunido todas as narrativas prodigiosas que considerava dignas de registro em um único livro, para que aquelas sobre as quais se deveriam basear a observação e as regras não fossem misturadas ou enfraquecidas com assuntos de credibilidade duvidosa”.

Robert Freke Gould, History of Freemasonry throughout the world. Vol. I. 1936.

Obras Rudimentares à Escola Autêntica da Maçonaria

A boa formação literária do Maçom exige o conhecimento de obras basilares que compõem o alicerce da tradição. Esses escritos, ao longo dos séculos, assumiram diferentes formas, gêneros textuais e finalidades, refletindo tanto o pensamento predominante de seu tempo quanto a cultura regional que permeava à prática maçônica a qual o escritor estava inserido. Nesta seção, serão apresentadas algumas das principais obras consideradas rudimentares à compreensão da perspectiva sistêmica maçônica, partindo de suas origens históricas, progredindo até as fontes julgadas mais adequadas pela Escola Autêntica, ou seja, voltadas à análise e argumentação sob evidências e referências. Vale destacar ainda, que, embora pragmaticamente toda e qualquer obra que anterior à existência da Quatuor Coronati seja classificada como sendo da Escola Romântica, as obras exemplificadas ainda têm sua importância por distintas frentes como antiguidade ou pioneirismo e esta última, abre precedentes para os mais diversos equívocos, uma vez que sua obra será fruto de outras narrativas romancistas. Por isso, entende-se por fim, que a AQC exerceu papel fundamental em lançar luz ao método investigativo maçônico revisitando e questionando primeiramente, estas obras primazes.

Manuscritos Góticos

Os chamados Manuscritos Góticos (também conhecidos como Old Charges, manuscritos antigos, antigas constituições, Legend of the Craft ou old records) são a primazia da literatura Maçônica e leva ao leitor a observar a Ordem pelo prisma de sua fase operativa, revelando como se deu sua formação simbólica, bem como, aspectos similares que a conectam com sua fase posterior que é a especulativa. Datados a partir do século XIV, esses textos reúnem elementos históricos, lendários, legais e regulatórios que moldaram a cultura e as práticas das antigas corporações de construtores.

A catalogação sistemática desses manuscritos teve início em 1872, com William James Hughan, que identificou inicialmente 32 documentos (manuscritos). Posteriormente, Roderick H. Baxter ampliou esse número para 98, e Wilhelm Begemann os organizou segundo classificações mais refinadas, chamadas famílias. Entre as famílias agrupadas, destacam-se a Grand Lodge, Sloane, Roberts e Spencer, cada um refletindo particularidades textuais e filiações históricas.

Até o momento se tem conhecimento 127 Manuscritos catalogados, a saber: MS Regius (1); Família Cooke (3 MSS); Família Plot (6 MSS); Família Tew (9 MSS); Família Grand Lodge (53 MSS); Família Sloane (21 MSS); Família Roberts (6 MSS); Família Spencer (6 MSS); Sem família (8 MSS); Desaparecidos (14 MSS).

A maioria está em poder do Museu Britânico; a segunda maior coleção é da Biblioteca Maçônica de West Yorkshire. Cópias dos originais e transcrições foram publicadas pela AQC em diversos volumes em 1895 e mais recentemente, tivemos a graça em receber alguns destes textos selecionados, em língua portuguesa, pela revista A Trolha.

Temos também uma interessante sistematização sobre a similaridade entre os Manuscritos, feito por Wallace McLeod, em 1986, a saber:

  • Invocação
  • Finalidade e teor do documento
  • As sete artes liberais
  • História da geometria
  • Juramento
  • Advertência sobre a necessidade de seguir as prescrições
  • Regulamentos (charges)
  • Promessa de seguir os regulamentos

Durante o período operativo, esses documentos cumpriam múltiplas funções. Eram lidos na admissão de novos obreiros, servindo como instrumento de instrução inicial; atuavam também como base para as constituições das lojas, legitimando suas práticas e reforçando a antiguidade e a nobreza da arte maçônica; regulamentavam o exercício da profissão, estabelecendo direitos, deveres e regras de convivência, além de preservar a coesão das corporações.

Embora haja tantos, os mais importantes por datação mais antiga e contexto histórico peculiar são:

       Carta de Bolonha, sem Família (1248)

Foi redigido originalmente em latim por um escrivão público, por ordem do Prefeito, Bonifaci di Cario, no dia 08 de Agosto de 1248. Entre os anexos, há uma “lista de matrícula” de 1272, que contém 371 nomes de Mestres Maçons, dos quais 2 eram escrivães públicos, outros 2 eram freis e 6 eram nobres. Nele, podemos observar a já antiga participação de não operativos nas corporações.

       Poema Regius, da Família Regius A-1 (1390)

Publicado em 1840 com o título de “Um poema sobre a constituição da Maçonaria”, descoberto por James Halliwell, que o datou como de 1390. São 794 linhas em rima, que conta a lenda de que a Arte Maçônica tem origem no Egito, aprendida por Euclides até chegar ao Rei Athelstan, o primeiro Rei da Inglaterra, em 926. Neste, o tom poético revela a predisposição cultural de nossos antepassados, bem como, a curiosa conexão (possivelmente por conjectura) à uma linhagem mais antiga do que nossos registros mais longínquos podem rastrear.

       Estatutos de Schaw, Sem família (1598-99)

O Rei James VI da Escócia, em 1598, nomeou William Schaw como seu “Mestre de Obras”. Schaw publicou, em 28 de dezembro de1598, um Estatuto para todos os maçons e Lojas do reino. Um ano depois, publicou o segundo Estatuto. Eles previam a “arte da memória”, o uso de luvas, e a existência de banquetes maçônicos, dentre outras orientações. Nestes estatutos, vemos nitidamente a transição das bases literárias maçônicas, onde há maior preocupação sobre a boa formação e orientação do maçom, o estabelecimento de procedimentos, em contrapartida a gradativa diminuição do tom poético e devocional.

Esses textos, curiosamente, combinam invocações religiosas, regras morais, e elogios à geometria, considerada a ciência mãe do Craft.

As Old Charges (ptAntigas Obrigações), que compõem aos manuscritos, elencam as antigas normas dos construtores. Mencionada por James Anderson como também “Constituições Góticas”, na segunda edição das Constituições, elas advêm das seções regulamentadoras dos antigos manuscritos, especialmente do Regius e de Cooke, por serem os mais antigos, conforme justificado por D. Knoop e G. P. Jones (The Genesis of Freemasonry, Manchester University Press, 1949).

Constituição de Anderson, 1723

A Constituição de Anderson, publicada em 1723, representa um divisor de águas para o período Especulativo, sendo essencial para a consolidação dos moldes organizacionais, filosóficos e simbólicos que ainda hoje caracterizam a Ordem. Trata-se, até onde se tem conhecimento, do primeiro documento oficial redigido para Maçonaria especulativa, o que confere a essa obra um valor histórico inestimável.

Sua relevância foi tamanha que a obra se tornou também o primeiro livro de teor maçônico impresso nos Estados Unidos, publicado em 1734, na cidade da Filadélfia, Estado da Pensilvânia, pelo ilustre Benjamin Franklin.

Além de compilar e reorganizar os antigos deveres e tradições maçônicas sob uma nova perspectiva moldada às novas necessidades, a obra também introduz, pela primeira vez, o conceito de Landmarks. Anderson os denomina como “regras imemoriais”, sugerindo que tratam de princípios fundamentais, cuja origem se perde no tempo, mas de reconhecimento tácito entre os maçons de sua época. Ainda que abstratas em sua natureza, essas regras sempre serviram como base para a identidade da Ordem.

Os primeiros Monitores

Ao longo da história, os materiais escritos elaborados para uso das Lojas, contendo os deveres, regulamentos gerais, emblemas e descrições das cerimônias públicas da Ordem, passaram a ser conhecidos como Monitores. Essas publicações desempenharam um papel importante na padronização e transmissão dos aspectos formais e simbólicos da prática maçônica, especialmente nos contextos em que a oralidade já não bastava como único meio de preservação.

Desde a publicação de Illustrations of Masonry (Ilustração ou Esclarecimentos sobre Maçonaria) de William Preston, em 1772 (considerado o primeiro Monitor) surgiu um crescimento gradual no volume e na riqueza das informações contidas nesses livros. Se nas obras pioneiras as instruções eram relativamente sucintas, os monitores modernos passaram a incorporar detalhes mais amplos sobre os procedimentos e símbolos.

Depois de Preston, diversos autores contribuíram para a tradição dos monitoriais, entre eles: Webb (1797), Dalcho (1807), Cole (1817), Hardie (1818), Cross (1819), Tannehill (1824), Parmele (1825), Charles W. Moore e Cornelius Moore (ambos em 1846), Dove (1847), Davis (1849), Stewart (1851), Mackey (1852), Macoy (1853) e Sickels (1866).

Os primeiros Dicionários e Enciclopédias

“O irmão inteligente espera daquele que se senta no lugar da sabedoria, não só a capacidade de explicar as cerimônias que distinguem a nossa instituição, mas também a capacidade de as rastrear até a sua fonte primitiva, demonstrando conhecimento da história e das antiguidades da ordem.” 
Albert G. Mackey, Léxico da Maçonaria (1869)

O célere desenvolvimento da Maçonaria especulativa, impelido por diversos fenômenos e, especialmente externos, suscitou a necessidade de uma constante reforma em sua perspectiva sistêmica, o que trouxe consigo um efeito colateral: a multiplicação de dúvidas entre os irmãos, especialmente no que se referia à origem, sentido e aplicação de diversos termos e práticas. Ainda que os Monitores estivessem sendo cada vez mais elaborados e impressos, sua função de esclarecer aspectos mais profundos nem sempre era plenamente satisfatória.

Em contrapartida, felizmente, a Ordem sempre contou com a entrada de irmãos notáveis por sua grande inteligência, de forma que estes, buscaram suprir essas lacunas por meio de pesquisa e ensino.

Foi nesse contexto que surgiu, a figura do Grande Conferencista ou Grand Lecturer. Esse oficial, nomeado pelo Grão-Mestre de sua Grande Loja, tinha a missão de visitar as Lojas subordinadas e instruir aos irmãos (especialmente catecismo) conforme praticado em sua jurisdição. Segundo Mackey, que também exerceu esse cargo na Grande Loja da Carolina do Sul, essas conferências eram ministradas unicamente de forma oral, e tornaram-se fundamentais no processo de ensino.

No entanto, apesar desses esforços, muitos termos ainda permaneciam obscuros para grande parte dos irmãos, dificultando a compreensão mais ampla da tradição. Foi então que Mackey, mais uma vez ocupando a vanguarda do ensino e da pesquisa maçônica, empreendeu um projeto pioneiro: a criação do A Lexicon of Freemasonry (ptLéxico da Maçonaria) publicado em 1869.

Essa obra representou a primeira tentativa de reunir, sistematicamente em forma de dicionário, os principais termos, conceitos, personagens históricos e referências simbólicas da Maçonaria. Pela primeira vez, o público da época teve acesso impresso a um compêndio organizado de verbetes, capaz de elucidar dúvidas sem expor algum conteúdo inconvenientemente. O Léxico tornou-se um marco no esforço de preservação, sistematização e democratização do conhecimento maçônico.

Ao longo do tempo, como ciclicamente visto na Ordem, outros irmãos colaboraram para uma literatura maçônica cada vez mais robusta e em tom acadêmico (principalmente a linha anglo-saxônica), embora a maioria buscando refutar ideias precedentes, o número de escritores alavancou de forma geral, à gama de artigos, ensaios e livros trazendo mais luz a todos. Como por exemplo Robert Macoy, que publicou sua Enciclopédia em 1870 e que, em seu prefácio, pragmaticamente atribui a ideia da obra, a falhas observadas (segundo ele) no Dicionário do Dr. Oliver e deficiências no Léxico de Mackey.

O primeiro Periódico Maçônico ao rigor Científico

Em 1886 é publicado o primeiro volume do periódico maçônico de caráter científico que viria a ser uma rica fonte de conteúdo ao público maçônico: a Ars Quatuor Coronatorum. Contando com as mentes mais ilustres da maçonaria britânica e mundial, como por exemplo o próprio Robert Freke Gould, a Loja, tendo por mecanismo de comunicação e instrução seu valioso periódico, iluminou gradativamente à obscuridade que permeava os estudos maçônicos, fazendo jus e servindo insumos de real emancipação pela razão sem maiores preocupações com a veracidade das exposições.

Os objetivos da Loja foram estabelecidos neste primeiro volume mencionado da AQC, a saber:

  • Proporcionar um centro e um vínculo de união para os estudantes da maçonaria e da história maçônica;
  • Atrair maçons para as reuniões da QC a fim de incentivar a apreciação da pesquisa maçônica;
  • Submeter as descobertas ou conclusões dos pesquisadores ao julgamento e à crítica de seus pares por meio de trabalhos apresentados na Loja;
  • Submeter essas comunicações e as discussões decorrentes ao corpo geral da Ordem, publicando as Transactions da Loja;
  • Reimprimir obras raras e valiosas sobre maçonaria;
  • Permitir que a Ordem de língua inglesa se familiarize com o progresso dos estudos maçônicos em outros lugares, mediante traduções (integrais ou parciais) de obras em outros idiomas;
  • Registrar de forma concisa, nas Transactions, o progresso da Ordem em todo o mundo;
  • Adquirir instalações permanentes e formar uma biblioteca e museu maçônicos.

Cada um desses objetivos permanece válido, exceto o último. Segundo seus atuais líderes, a Quatuor Coronati encontrou um lar permanente na Freemasons’ Hall, Great Queen Street, em Londres, e a Biblioteca & Museu abriga seus livros e arquivos, além de guardar parte de seus bens. Os avanços da tecnologia os dispensaram da necessidade de um local físico e de funcionários permanentes, e hoje é administrada por um pequeno número de voluntários.

Atualmente, os setenta primeiros volumes da AQC encontram-se disponíveis para leitura online e download no próprio site da Loja, e ainda, há a possibilidade da inscrição como correspondente e receber às Transactions mais recentes.

Considerações Finais

A literatura maçônica é o reflexo da alma da Ordem expresso em letras. Naturalmente por ser multifacetada, muitos são seus prismas de investigação e argumentação.

Quando se é proposto a busca por escritos fundamentais que corroborem para um maior entendimento e discernimento da perspectiva sistêmica da Maçonaria, tem-se por objetivo eliminar ao máximo possíveis vieses impróprios e proporcionar na mesma medida, o livre acesso às mesmas fontes do escritor.

Ao buscar a literatura pelo prisma da Escola Autêntica, o pesquisador abandona a passividade cognitiva da repetição que predomina ao "romancismo" e assume o protagonismo de seu desenvolvimento pela assimilação que é estimulada pela linha investigativa acadêmica e, por conseguinte, ficará apto a contribuir com maior visão crítica. Este Maçom estudioso ideal, não se limita a decorar interpretações alheias, mas a interpretar por si com profundidade. E nesse processo, torna-se capaz não somente de desenvolver-se adequadamente, mas também, transmitir e cocriar o futuro da Maçonaria de forma ativa, consciente e autêntica.

Assim, mais do que fonte de informação, a literatura é instrumento um de formação. É a ponte entre a tradição e a progressão. E, sobretudo, é luz. Incentivamos, portanto, que cada Irmão busque, produza e compartilhe obras ao mesmo rigor exposto e desenvolvido, contribuindo com a continuidade viva do saber maçônico com seriedade e transparência.

Autor: Samuel Benedicto

Bibliografia | leiam às fontes

Fundamentos Maçônicos: Old Charges. Luiz Vitório Cichoski. 1ª ed. – Londrina - PR. Editora Maçônica A TROLHA, 2020.

A Constituição de Anderson (1723): Edição Comemorativa de 300 anos – Traduzido e Comentado por Kennyo Ismail. 1ª ed. – Brasília – DF. No Esquadro, 2023.

Mackey, Albert G. Léxico da Maçonaria - Tradução Samuel Benedicto. 1ª ed. São Paulo: Clube de Autores, 2024.

Mackey, Albert G. Encyclopedia of Freemasonry. 6ª ed. New York and London: The Masonic History Company, 1912.

MACKEY, A. The history of freemasonry: its legendar origins. USA: Dover, 1898.

GOULD, Robert F. History of Freemasonry, Throughout the world. Vol 1. Charles Scribner’s Sons: New York - USA. 1936.

Piaget, Jean. A formação do símbolo na criança. 4ª ed. Rio de Janeiro: LTC, 1945.

Ars Quatuor Coronatorum - AQC. 2025. Disponível em: https://www.quatuorcoronati.com/research/research-resources/. Acesso em: 17 set. 2025.

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