Introdução à Maçonaria Científica
A Maçonaria Científica é um prisma de abordagem dos estudos maçônicos suscitado pela tendência iluminista que permeou predominantemente à raiz da maçonaria ¹anglo-saxônica no início de seu período Especulativo, atualmente é ferramenta rudimentar à chamada Escola Autêntica, podendo ser definida como um modus operandi de absorção e concessão de conhecimento maçônico sob metodologia. Tem por proposta (quase que silenciosa) unir os princípios tradicionais da Maçonaria às metodologias e ao rigor do pensamento científico. Diferente da predominante abordagem mística ou da carente repetição dos símbolos de forma literal, que denotam mera conjectura, a Maçonaria Científica propõe “um caminho lateral” de fontes de pesquisa e discursos comprobatórios, fomentando primeiramente, a robustez do arcabouço mental do indivíduo por meio do estudo de temas multidisciplinares de base sólida, em busca da real assimilação por parte do estudioso e, por conseguinte, o capacitando para compartilhar conhecimento com fatos e dados, fomentando um processo cíclico a beneficiar a todos os irmãos.
Observado isso, entende-se o porquê a Maçonaria possui uma
perspectiva sistêmica própria, estruturada por Entradas, Processamento e
Saídas, onde especificamente no que concerne ao processo de aprendizagem, a razão, é o cerne de transformação da informação em conhecimento
(mesmo que não seja compartilhável). Nessa linha de pensamento, certas
disciplinas acadêmicas são observadas como seus rudimentos, sendo capazes de
organizar a linha de estudo e preparar ao irmão pesquisador para conceitos cada
vez mais profundos. O fim de tudo é o autodesenvolvimento. Em uma realidade
onde o ser humano é fadado a economizar o máximo de energia em prol da
sobrevivência fisiológica e reluta em pensar por si, aquele que exerce
incansavelmente a reflexão pela razão, emancipa a si mesmo da tutela
intelectual de outrem, Sapere aude! (Kant, 1784).
Origens e Contexto Histórico
O Iluminismo
O Iluminismo, também chamado de “Século das Luzes” ou
“Século da Filosofia”, foi um movimento intelectual, cultural e filosófico
predominante na Europa durante todo o século XVIII. Seu eixo central era a
emancipação do homem pela razão, tendo por instrumento do progresso humano a
ciência, em oposição ao obscurantismo religioso, ao absolutismo e às tradições
dogmáticas.
Vale ressaltar que embora o Iluminismo tenha abrangido à
Europa, o ideal iluminista sofreu mutações de expressão de acordo com a cultura
regional que o aderia, como por exemplo o Iluminismo Francês que suscitou uma
visão mais político-religiosa em busca da liberdade religiosa e de expressão
cultural (ex.: Teísmo do Contrato Social de 1762 e o advento do Ocultismo),
Igualdade de direitos e deveres entre os cidadãos e por fim, a Fraternidade
como união de todos os homens em prol do coletivo. Vejamos ainda, que o lema
Liberdade, igualdade e fraternidade advêm de aspectos teologais do catolicismo,
onde o iluminismo impelido pelo pensamento francês, o transformou em uma
manifestação mais enérgica, encabeçada por Robespierre, voltada às necessidades
do povo francês da época.
“Como Gay, Cassirer e outros estudiosos do século XVIII mostram, o Iluminismo girava em torno de vários objetivos. Os iluministas compartilhavam a crença de que a razão poderia ser empregada para investigar e classificar o conhecimento. Os envolvidos com as ciências físicas dedicaram seus esforços a sondar a Natureza para determinar suas leis; alguns iluministas tentaram determinar as leis que regem as ciências sociais, e outros tentaram descobrir os princípios que regem à humanidade. A maioria dos iluministas também endossava a visão de que o estudo do conhecimento antigo em conexão ao moderno levaria à conquista do progresso material.”
Speculative
Freemasonry and the Enlightenment, Weisberger.
Iluminismo Anglo-Saxão
No contexto Anglo-saxônico, especificamente, inglês e
norte-americano, o iluminismo ganhou um caráter mais pragmático, onde, tomando
corpo no Século XVII tanto com a ciência Newtoniana sob seus princípios e
teorias mecanicistas para o físico, quanto com as doutrinas de Whiggish para o
pensamento sócio-político e até mesmo religioso (que inclusive foram muito
importantes para o Iluminismo Britânico, conforme relata Weisberger, 1993),
desencadeou no Século XVIII o advento de figuras ilustres pautadas nessa linha
de pensamento, sempre sugerindo a livre investigação, desenvolvimento da
racionalização e por fim, exposição com método. Aqui estão, quatro expoentes
iluministas que acreditamos serem de indispensável conhecimento:
• John Locke (1632 - 1704): Um filósofo
inglês, considerado o “pai do liberalismo”. Defendia o contrato social, a
soberania popular e os direitos naturais. Sua obra influenciou diretamente a
Declaração de Independência dos EUA.
• David Hume (1711 - 1776): Um filósofo
escocês. Um dos maiores empiristas, criticava a ideia de certezas e destacava a
experiência sensível como base do conhecimento. Também influenciou a filosofia
moral e a economia. Um fato, interessante, é que a filosofia de Hume despertou
o filósofo Immanuel Kant do "sono dogmático", que desenvolveu a sua
filosofia crítica em reação direta a Hume.
• Adam Smith (1723 - 1790): Um economista
escocês, autor de A Riqueza das Nações (1776). Defendia o liberalismo
econômico, a livre iniciativa e a “mão invisível” do mercado.
• Benjamin Franklin (1706 - 1790): Um
cientista, inventor e político americano. Encarna o espírito prático do
Iluminismo, defendendo a liberdade, a educação e a participação cívica.
A Maçonaria Científica, o início
Embora em menor número nas fileiras da Arte do que médicos e
cientistas, alguns escritores iluministas estiveram envolvidos com a Maçonaria
Especulativa na Londres augusta. Escritores secundários, oriundos de diversos
campos da literatura, foram admitidos em lojas londrinas e, evidentemente,
perceberam essas instituições como extensões da vida em clubes e tavernas (que
inclusive eram espaço de recorrentes discussões e demonstrações
científicas, como praticado por exemplo, por Desaguliers). Esses escritores publicaram
obras acerca de ideias antigas e modernas associadas aos rituais maçônicos e ao
Iluminismo; contudo, fizeram pouco esforço para relacionar esses conceitos a
uma escola londrina de literatura maçônica. Embora a maioria dos escritores
proeminentes de Londres não fosse membro da Ordem e parecesse desinteressada em
suas operações ritualísticas, alguns poucos escritores de maior renome se
afiliaram à Maçonaria dita “Moderna” (Weisberger, 1993). Com o passar do tempo,
estes poucos escritores maçônicos, passaram a incorporar uma maior gama de ²know-how aos
temas maçônicos, revelando aos irmãos da época conceitos e termos cada vez mais
técnicos, na busca por metodificar os assuntos da instituição relativamente
nova e assim, descobrimos que a Maçonaria é um sistema.
Maçonaria, um Sistema
Embora monitores e escritos diversos divirjam acerca do quão
completo ou melhor esclarecido é uma definição da Maçonaria, é perceptível que
em todos os casos, seus autores mantiveram-se unânimes ao menos no começo da
definição, desde seu surgimento pelo Monitor de Webb, em 1865, que trata acerca
da Maçonaria ser “um sistema” ³.
A noção de sistema parte da ideia de que um todo pode ser
analisado a partir de suas partes ou subsistemas (Maximiano, 2002). Esta
perspectiva assemelha-se ao funcionamento de organismos vivos: a organização
pode ser vista como um conjunto integrado, composto por subsistemas em diversos
níveis, o qual vamos nos ater brevemente ao principal: o técnico-didático.
O subsistema técnico envolve elementos
físicos e conceituais que não dependem diretamente da ação humana, e que seguem
de forma estática, tais como: a definição da missão e dos objetivos (Escola de
moral pautada no Amor Fraternal, Amparo e Verdade), a estrutura de divisão do
trabalho (Cargos de Dignidades e Oficiais), as instalações físicas (Templos e
Lodge Rooms), as tecnologias disponíveis (Monitores e Rituais) e os processos
operacionais (Constituições, Old Charges e Catecismo).
Ao reconhecer que toda organização possui uma estrutura dinâmica que auxilia na compreensão de sua complexidade, passamos a observá-la como organismos vivos, onde, igualmente a manutenção de sua existência, bem como, a transformação de insumos intelectuais em conhecimento, também podendo ser identificado como subsistema técnico-didático (como no caso específico da Maçonaria) exige, em maior ou menor nível, que haja entradas (inputs), processamentos específicos, e gera saídas (outputs) que retornam ao ambiente. Esse ambiente, por sua vez, é composto por outros sistemas interligados, formando um ciclo contínuo de trocas e interdependências.
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| Figura 1 – Exemplificação da perspectiva sistêmica da Maçonaria |
Este subsistema técnico-didático se apresenta como o próprio input do técnico e é o que sustenta toda a manutenção das escalas sistemáticas superiores de sua composição, possibilitando tanto a manutenção do saber maçônico, como o gradual desenvolvimento dos meios didáticos, uma vez que o feedback desse processo gera um novo ciclo propondo mudanças na rota de aprendizagem ou de ensino com ferramentas julgadas mais adequadas ao publico. Suas etapas são identificadas como três e têm por processador um operador, ou seja, o estudante interessado, a saber: fontes de pesquisa com robustez técnica como entrada; a razão como ferramenta intelectual de processamento; geração de conhecimento técnico com referências como saídas.
Disciplinas Acadêmicas de Entrada Sistemática
Com o passar do tempo, a dita Maçonaria Científica tomou uma
nova roupagem onde, quando falamos de ciência, não nos atemos mais à ciência
mecanicista, por exemplo, mas ao prisma acadêmico que uma obra ou o contexto de
uma pesquisa pode proporcionar. Observado isto, segue abaixo três disciplinas
acadêmicas minimamente interessantes, a se utilizar com prisma de seus insumos
de Entrada, que por sua vez, serão fundamentais para que a sua geração de
conhecimento, possa ser robusta e coerente. A saber:
• Busca pela Historiografia da Tradição: Estudo
dos MSS que pautam as Constituições e Landmarks da Ordem, sob uso olhar
crítico, observando a autenticidade e a evolução dos textos e práticas
maçônicas.
• Análise Antropológica: Estudo do contexto
social, cultural e histórico das épocas em que cada aspecto da Maçonaria foi
incorporado, assimilando fatos e símbolos de forma contextualizada, evitando
anacronismos.
• Análise Estatística por Amostragem: Coleta
e análise de dados sobre práticas, tradições ou incidência de elementos
simbólicos em diferentes regiões ou períodos, permitindo comparações e
interpretações quantitativas acerca do tema escolhido.
Conclusão
A Maçonaria Científica não se opõe às demais dimensões da
Maçonaria; ao contrário, ela as complementa, oferecendo coerência por meio de
uma abordagem sistemática e racional que permite maiores avanços nos estudos
dessa Sublime Instituição. Ora, se a Maçonaria é um sistema, logo, entendê-la e
progredir irá requerer de cada irmão a operacionalização de seus subsistemas
com método adequado, que podemos identificar atualmente pelo método acadêmico.
O Maçom contemporâneo é convidado à livre investigação. Pois
pensar e assimilar é o exercício de sua alma, é fazer jus à sua garantia de
liberdade. O nível de informação que hoje se tem, proporciona uma potente mola
propulsora para saltos maiores no conhecimento. De uma forma ou de outra, se
cada irmão seguir entendendo o propósito da Ordem, bem como sua história,
naturalmente será impelido às melhores referências bibliográficas e
metodológicas existentes, pois nossos irmãos ancestrais nos legaram isso com muito
apreço. Independentemente da vertente maçônica que aprecie, a nascente da
inquietude científica ainda jorra entre nossos irmãos, busque beber dela.
Autor: Samuel Benedicto
Notas de referência
¹ Inglês ou Maçonaria de origem inglesa.
² Habilidade, talento e capacidade técnica (eng. Skill,
talent and ability).
³ “A Maçonaria é um sistema que ensina, simbolicamente,
piedade, moralidade, ciência, caridade e autodisciplina.” (eng. Masonry is a system teaching,
symbolically, piety, morality, science, charity, and self-discipline) Webb
and Rob Morris, 1859.
Referências Bibliográficas
WEBB, Thomas Smith. Morris, Rob. The Freemason’s Monitor; or Illustrations of Masonry.
Cincinnati: Moore, Wilstach, Keys & CO., 1859.
WEISBERGER,
R. W. Speculative Freemasonry and the Enlightenment. A Study of the Craft in
London, Paris, Prague, and Vienna. New York: Columbia University Press,
1993.
MAXIMIANO, A. C. A. Teoria geral da administração: da
revolução urbana à revolução digital. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2002.
ANGLO-SAXÔNICO. 2025. Disponível em:
<https://michaelis.uol.com.br/busca?palavra=anglo-sax%C3%A3o&r=0&f=0&t=0>.
Acesso em: 05 set. 2025.
ILUMINISMO. 2025. Disponível em:
<https://www.todamateria.com.br/iluminismo/>. Acesso em: 05 set. 2025.
KNOW-HOW. 2025. Disponível em:
https://dictionary.cambridge.org/pt/topics/ability-and-experience/skill-talent-and-ability/.
Acesso em: 05 set. 2025.



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